“Amante a Domicílio”

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A confissão de uma dermatologista a seu paciente faz com que um livreiro à beira da falência e um florista se tornem, respectivamente, cafetão e gigolô. A sinopse de “Amante a Domicílio” não propunha nada especial, mas a direção e o roteiro assinados por John Turturro, somados a Woody Allen como co-protagonista, construíram certa expectativa acerca da produção.

Murray (Woody Allen), dono de uma livraria prestes a ser fechada, descobre que a médica que lhe atende deseja ter uma experiência sexual envolvendo ela, uma amiga e um homem desconhecido. Curioso com o comentário, o livreiro propõe ao melhor amigo, Fioravante (John Turturro), sair com a médica em troca de uma boa quantia de dinheiro.

Receoso de início, o florista amigo de Murray decide olhar para a proposta com outros olhos. Ao invés de gigolô, Fioravante decide se considerar responsável por levar um pouco mais de amor e alegria a mulheres solitárias. O florista começa então uma jornada envolvendo médicas ricas, mulheres carentes e até uma viúva judia que vive sob as rigorosas práticas da religião.

O roteiro oscila durante todo o filme, sem nunca alcançar grandes momentos. Turturro parece não dominar sua própria narrativa, e se perde ao desenhar personagens mal desenvolvidos e estórias sem acabamento. O foco inicial da trama se dissolve antes da metade do filme, sem coordenação alguma.

A antes até divertida crônica de um florista tímido e o melhor amigo descobrindo um universo novo se transforma em um romance insosso, recheado de clichês. John Turturro, brilhante em muitos papéis durante sua carreira, se apaga em um personagem sem personalidade definida. O espectador não consegue se apegar ao protagonista, muito menos entender a complexidade dos dilemas que este enfrenta.

Woody Allen, que raramente atua em filmes não dirigidos por ele, é o ponto mais forte da trama. Engraçado e desenvolto, Allen oferece ao público os melhores diálogos do filme. Uma pena que o personagem que encarna não tenha sido tão bem aproveitado, mergulhando em situações mirabolantes em busca de brechas para uma comédia quase forçada.

Turturro tentou construir uma atmosfera woodyallenística, regada por uma mistura de jazz e Nova Iorque, porém, passou longe de alcançar o resultado que procurava. A miscelânea de informações ( vide a família de Murray, os confrontos étnicos e religiosos e as clientes exóticas do florista) não deixa tempo suficiente para o espectador respirar e absorver a história ali contada.

Noventa minutos se arrastam, causando a impressão de estarmos diante de um filme de mais de duas horas. “Amante a Domicílio” é um exemplo de boas intenções, porém má execução. O diretor tinha a faca e o queijo nas mãos, mas não soube ligar os elos. Allen como o cafetão desinibido de um tímido Turturro poderia ter sido sensacional. Poderia.

“Blue Jasmine”

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  • Ano de Lançamento: 2013
  • País: Estados Unidos
  • Língua: Inglês
  • Título Original: Blue Jasmine
  • Diretor: Woody Allen
  • Avaliação: Pega a estatueta!

Em Blue Jasmine, Woody Allen retorna ao território americano após divagar por direções que prestam declarações de amor à Europa, como “Vicky, Cristina, Barcelona”, “Meia Noite em Paris” e “Para Roma com Amor”.

Em seu mais recente trabalho, conta-se a história de Jasmine (Cate Blanchett), uma ex-socialite forçada a deixar seu universo nova iorquino de luxo e extravagâncias, após ver a falência bater a sua porta pouco tempo depois de seu marido ir preso por crimes de fraude e corrupção. Sem alternativas, ela se vê obrigada a deixar Nova Iorque rumo a São Francisco, para morar com a desengonçada irmã mais nova, Ginger (Sally Hawkins)

Ao cair de paraquedas em um mundo completamente alternativo ao que estava acostumada, Jasmine entra em colapso. O filme é composto pela alternância entre flashbacks de sua antiga vida como milionária e o cenário atual. A enorme mansão belamente decorada é contraposta com o pequeno apartamento brega da irmã, os cartões de crédito ilimitados dão lugar ao emprego de recepcionista em um consultório médico. Os goles que a protagonista dá, por diversas vezes, na Stolichnaya da irmã retratam a dificuldade desta em se adaptar à nova vida. 

Outro ponto interessante é a diferença entre Hal (Alec Baldwin), o corrupto ex-marido de Jasmine, e os homens com quem Ginger se envolve ao longo da trama. Ao mesmo tempo em que a irmã mais velha julga os homens que a caçula escolhe como pobres, acomodados e indignos, ela se vangloria de ter tido um relacionamento com um homem fino, rico e que a tratava como uma rainha.  O filme acaba por fazer com que o espectador se afeiçoe pelos romances vividos por Ginger e se enoje com a vida vivida pelo casal high society.

O roteiro é quase coadjuvante à atuação de Cate Blanchett, que é óbvia candidata ao Oscar de Melhor Atriz em 2014. Não seria essa a primeira vez que Woody Allen oscariza um de seus atores. Diane Keaton, Penélope Cruz, e Michael Caine são alguns exemplos de premiados por atuações em filmes do diretor. Tão completo é o trabalho de Blanchett, que é capaz de ofuscar as ótimas atuações do elenco de apoio. Os divertidos Bobby Cannavale e Louis C.K. são responsáveis por, ao lado de Sally Hawkins, intercalar os momentos dramáticos e agregar uma veia cômica à trama.

Ao lado de Allen está uma equipe que mostra bastante afinidade. A fotografia, nas mãos de Javier Aguirresarobe, somada à direção de elenco da sempre fiel parceira de Allen, Juliet Taylor e a edição de Alisa Lepseltter, responsável pelo equilíbrio entre os flashbacks, tecem um filme claro, com a luz bem administrada, personagens marcantes e planos concisos.

Ao construir uma de suas protagonistas mais icônicas, Allen retorna às graças da crítica. Blue Jasmine é aprazível, desde seus créditos iniciais, clássico preto no branco, até seu final quase teatral.