Carol

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Que a intolerância ainda permeia a sociedade contemporânea é inegável. Em tempo de Trumps e Bolsonaros, narrativas que evocam a luta por igualdade e direitos civis são mais do que necessárias. O novo filme do diretor americano Todd Haynes conta a história de Carol (Cate Blanchett), mulher de classe média alta na Nova Iorque dos anos 50 que – durante as festividades natalinas – apaixona-se por Therese (Rooney Mara), uma vendedora de brinquedos.

A protagonista enfrenta um divórcio conturbado, uma briga judiciaria pela guarda da filha e os olhares desconfiados daqueles que ouviram os rumores de violações às condutas de moral da época. Ao decidir fugir com uma moça mais jovem, Carol vai contra não só o futuro ex-marido, mas todo o grupo social ao qual pertence. Therese, por sua vez, despacha o pretendente e o emprego medíocre em uma loja de departamentos para embarcar em uma viagem sem rumo certo ao lado de uma mulher que conhece há poucas semanas.

“Trash: A Esperança Vem do Lixo”

  • Ano de Lançamento: 2014
  • País: Brasil/Reino Unido
  • Língua: Português/Inglês
  • Título Original: “Trash: A Esperança Vem do Lixo”
  • Diretor:  Stephen Daldry
  • Avaliação: Pra parar e refletir

É em meio à imundice de Behala, um lixão em uma cidade fictícia, que Andy Mulligan ambienta o suspense literário “Trash”. Stephen Daldry não dá nome aos bois, mas faz do Rio de Janeiro sua Behala, em “Trash: A Esperança Vem do Lixo”, adaptação encarregada de encerrar o Festival do Rio 2014.

É no meio de mais um dia de trabalho no lixão que Raphael (Rickson Tevez), um garoto de 14 anos, encontra uma carteira perdida. Dentro dela, o menino encontra não só dinheiro, como a pista inicial para uma caça ao tesouro. Junto aos amigos Gardo (Eduardo Luis) e Rato (Gabriel Weinstein), Raphael parte em busca de terminar o que José Angelo (Wagner Moura), dono da carteira, começou.

A busca passa de curiosidade à situação de perigo quando o policial Frederico (Selton Mello) demonstra um interesse especial pelos três meninos. Logo, o trio descobre que tem em mãos a chave para desvendar um caso de corrupção envolvendo o então candidato a prefeito do Rio de Janeiro, Antonio Santos (Stepan Nercessian). Decididos a “fazer o certo”, os meninos seguem as pistas encontradas na carteira rumo a prisões, estações de trem movimentadas e cemitérios.

O livro narra uma aventura protagonizada por três meninos que se tornam heróis diante de circunstâncias anormais, já o filme adapta a estória para uma trama de escândalos políticos e corrupção. O papel de herói passa a ser de José Angelo, que pouco aparece em cena, mas é quase canonizado pela narração. É inegável, no entanto, que a escolha do trio de protagonistas foi muito bem executada. A decisão, à lá Fernando Meirelles (não à toa, já que o filme é uma co-produção da O2, de Meirelles), de estrelar o filme com três atores de primeira viagem é interessante, e o resultado funciona.

O elenco conta com dois grandes brasileiros: Wagner Moura e Selton Mello. Moura absurdamente melhor que Mello, apesar da diferença de tempo em cena. Em alguns momentos é difícil não se perguntar se a inversão dos papéis não seria uma escolha mais inteligente. Talvez fosse… Ou talvez produzisse um Capitão Nascimento: Reloaded. Quem sabe. A promissora Rooney Mara (espetacular em “Millenium”) e o grande Martin Sheen são presos a dois papéis insossos, sem muita abertura para grandes interpretações.

A direção de arte é minuciosa. Toda a área do lixão foi criada exclusivamente para o filme. O produto apresentado em tela impressiona. A trilha sonora não foge do be-a-bá-filme-rodado-no-Brasil, triste, pois o suspense poderia ter sido embalado por uma série de canções mais bem pensadas.

É inegável a absurda falta de trabalho do roteiro. Nas mãos de Richard Curtis – consagrado por obras como “Simplesmente Amor” e “Um Lugar Chamado Notting Hill” – e do brasileiro Felipe Braga, o roteiro se perde pra se perder de novo, em uma sucessão de clichês rasos e brechas para questionamentos do espectador. Os quinze minutos finais são um espetáculo do improvável, dignos de gargalhadas desconfortáveis.

Apesar dos pesares, “Trash: A Esperança Vem Do Lixo” é filme pra se ver. Exemplifica o que o Festival do Rio nos disse esse ano: “todos os olhares do mundo no Rio”. Um olhar estrangeiro sobre tudo aquilo que já nos é intrínseco, e que assistimos e assistimos em filmes como “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”. É… O produto nacional é melhor que o importado, mas essa já é outra discussão.

“Terapia de Risco”

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Um dos diretores mais versáteis do cinema, Steven Soderbergh já navegou entre a comédia, o documentário e o drama. O diretor passeou pelos gêneros em seus últimos trabalhos, “Contágio” e “Magic Mike”. Em “Terapia de Risco” vemos um Soderbergh em plena forma, realizando os malabarismos cinematográficos de costume.

Emily Taylor (Rooney Maraé diagnosticada com depressão após o retorno do marido (Channing Tatum), que passou quatro anos na cadeia por utilização de informações ilícitas em um negócio na Bolsa de Valores de Nova Iorque. Para que pudesse evitar a internação a fim de continuar trabalhando, Emily concorda em realizar um tratamento com o psiquiatra Jonathan Banks (Jude Law). O médico, levando em consideração o estado da paciente – que chegou ao ponto de tentar o suicídio – decide prescrever alguns antidepressivos.

Com a medicação recomendada não parecendo surtir efeito, Taylor continua a mergulhar em um estado de melancolia profunda. Em uma consulta, Emily sugere à Banks um tratamento com um novo medicamento, Ablixa. O psiquiatra decide então receitar a nova droga à paciente, que retorna a seu consultório alguns dias depois alegando sofrer de sonambulismo como efeito colateral.

Um assassinato ocorre, e a partir daí o filme constrói a ponte que faz a passagem de um drama melancólico a um thriller cheio de reviravoltas. A inversão de protagonistas faz com que a trama ganhe novos pontos de vista. Nas mãos de Soderbergh, a virada do filme é muito bem administrada, sem perder o espectador. Uma manobra arriscada, mas bem formulada, com cara e jeito de diretor que sabe o que faz.

O filme é capaz de tecer uma boa crítica à indústria farmacêutica nos Estados Unidos, onde o consumo de medicamentos é tão comum quanto chupar uma bala. Somos apresentados a propagandas que prometem a felicidade rápida e fácil aos que consumirem as pílulas. O uso das drogas é banalizado, como em uma sequência em que Banks diz à esposa que os calmantes que ela está prestes a tomar para encarar uma entrevista de emprego não vão ocultar sua personalidade, pelo contrário, exaltarão suas qualidades.

O elenco é sensacional. Rooney Mara prova mais uma vez ser uma das grandes promessas desta geração de atrizes. Jude Law e Catherine Zeta-Jones (no papel da antiga psiquiatra de Emily) apresentam atuações dignas da carreira de sucesso de ambos. A direção de fotografia, também assumida por Soderbergh, encontrou na trilha sonora de  Thomas Newman o parceiro ideal. Conforme o foco da trama se altera, a fotografia e a música o acompanham, responsáveis sempre por mergulhar o espectador na nova fase que o filme adentra.

A única ressalva ao filme é o rumo que o roteiro toma quando se aproxima do desfecho. Para uma trama que cativou quem assiste durante toda sua duração, é triste que a injeção de adrenalina caia quando o final se aproxima. Com um roteiro promissor, a obra prometia um final avassalador, que não entrega. Porém, um trabalho construído tão competentemente não perde seus méritos pela falha.

Soderbergh disse estar se despedindo do mercado, deixando “Terapia de Risco” e o telefilme “Behind The Candelabra” como seus últimos trabalhos na direção. Uma pena. Ao assistir um filme como “Terapia de Risco”, fica clara a lacuna que o diretor vai deixar. Bom, só nos resta procurar nossos próprios Ablixa, quem sabe assim a gente drible a saudade.