“Trash: A Esperança Vem do Lixo”

  • Ano de Lançamento: 2014
  • País: Brasil/Reino Unido
  • Língua: Português/Inglês
  • Título Original: “Trash: A Esperança Vem do Lixo”
  • Diretor:  Stephen Daldry
  • Avaliação: Pra parar e refletir

É em meio à imundice de Behala, um lixão em uma cidade fictícia, que Andy Mulligan ambienta o suspense literário “Trash”. Stephen Daldry não dá nome aos bois, mas faz do Rio de Janeiro sua Behala, em “Trash: A Esperança Vem do Lixo”, adaptação encarregada de encerrar o Festival do Rio 2014.

É no meio de mais um dia de trabalho no lixão que Raphael (Rickson Tevez), um garoto de 14 anos, encontra uma carteira perdida. Dentro dela, o menino encontra não só dinheiro, como a pista inicial para uma caça ao tesouro. Junto aos amigos Gardo (Eduardo Luis) e Rato (Gabriel Weinstein), Raphael parte em busca de terminar o que José Angelo (Wagner Moura), dono da carteira, começou.

A busca passa de curiosidade à situação de perigo quando o policial Frederico (Selton Mello) demonstra um interesse especial pelos três meninos. Logo, o trio descobre que tem em mãos a chave para desvendar um caso de corrupção envolvendo o então candidato a prefeito do Rio de Janeiro, Antonio Santos (Stepan Nercessian). Decididos a “fazer o certo”, os meninos seguem as pistas encontradas na carteira rumo a prisões, estações de trem movimentadas e cemitérios.

O livro narra uma aventura protagonizada por três meninos que se tornam heróis diante de circunstâncias anormais, já o filme adapta a estória para uma trama de escândalos políticos e corrupção. O papel de herói passa a ser de José Angelo, que pouco aparece em cena, mas é quase canonizado pela narração. É inegável, no entanto, que a escolha do trio de protagonistas foi muito bem executada. A decisão, à lá Fernando Meirelles (não à toa, já que o filme é uma co-produção da O2, de Meirelles), de estrelar o filme com três atores de primeira viagem é interessante, e o resultado funciona.

O elenco conta com dois grandes brasileiros: Wagner Moura e Selton Mello. Moura absurdamente melhor que Mello, apesar da diferença de tempo em cena. Em alguns momentos é difícil não se perguntar se a inversão dos papéis não seria uma escolha mais inteligente. Talvez fosse… Ou talvez produzisse um Capitão Nascimento: Reloaded. Quem sabe. A promissora Rooney Mara (espetacular em “Millenium”) e o grande Martin Sheen são presos a dois papéis insossos, sem muita abertura para grandes interpretações.

A direção de arte é minuciosa. Toda a área do lixão foi criada exclusivamente para o filme. O produto apresentado em tela impressiona. A trilha sonora não foge do be-a-bá-filme-rodado-no-Brasil, triste, pois o suspense poderia ter sido embalado por uma série de canções mais bem pensadas.

É inegável a absurda falta de trabalho do roteiro. Nas mãos de Richard Curtis – consagrado por obras como “Simplesmente Amor” e “Um Lugar Chamado Notting Hill” – e do brasileiro Felipe Braga, o roteiro se perde pra se perder de novo, em uma sucessão de clichês rasos e brechas para questionamentos do espectador. Os quinze minutos finais são um espetáculo do improvável, dignos de gargalhadas desconfortáveis.

Apesar dos pesares, “Trash: A Esperança Vem Do Lixo” é filme pra se ver. Exemplifica o que o Festival do Rio nos disse esse ano: “todos os olhares do mundo no Rio”. Um olhar estrangeiro sobre tudo aquilo que já nos é intrínseco, e que assistimos e assistimos em filmes como “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”. É… O produto nacional é melhor que o importado, mas essa já é outra discussão.

“Questão de Tempo”

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Responsável por assinar roteiros como “Um Lugar Chamado Notting Hill” e “Quatro Casamentos e um Funeral”, além da direção de filmes como “Simplesmente Amor”, o diretor e roteirista neozelandês Richard Curtis se aventura mais uma vez no gênero da comédia romântica em “Questão de Tempo”.

Tim (Domhnall Gleeson), um desajeitado rapaz sem muita sorte com as garotas, é chamado pelo pai (Bill Nighy) na manhã seguinte a uma frustrada festa de Reveillón. O que parece uma típica conversa entre pai e filho cursa um rumo completamente diferente quando seu pai revela que os homens da família têm a capacidade de viajar no tempo. Tudo o que ele tem de fazer é entrar em um local escuro, cerrar os punhos e imaginar o momento para onde quer voltar.

Após uma reação óbvia de incredulidade, Tim resolve testar seus supostos poderes e voltar à festa da noite passada. Ao abrir os olhos, está de volta ao clima agitado de comemoração, e disposto a consertar os erros que o frustraram no passado. Uma vez convencido, volta ao presente e é questionado por seu pai sobre como pretende usar sua nova habilidade. A resposta é simples e direta: “para conseguir uma garota”. A esta altura, o espectador já sabe que está diante de uma deliciosa comédia romântica a la Curtis.

O pedido do rapaz só é atendido quando, após mudar-se para Londres a fim de trabalhar em uma firma de advocacia, conhece Mary, uma simpática americana que lida com publicação de livros. Com a possibilidade de se redimir dos erros bobos de início de relacionamento, Tim usa suas vantagens para conquistar a americana.

Desde a simpática família de Tim, formada por figuras como a irmã mais nova Kit Kat (Lydia Wilson) e o ingênuo Tio D (Richard Cordery), até seu rabugento companheiro de casa em Londres (Tom Hollander); o filme apresenta personagens deliciosos, que fazem com que o roteiro, que poderia cair no clichê de filme-sessão-da-tarde, siga o caminho oposto, e envolva o espectador durante cada minuto de suas duas horas de duração.

A atuação de Gleeson é a melhor de sua carreira. O público se apaixona instantaneamente por Tim ao vê-lo em sua primeira cena, com uma auto-estima desgastada e um pôster de Amélie Poulain na parede do quarto. Bill Nighy encabeça o excelente elenco, no papel do divertido pai de Tim, responsável por equilibrar a moral da trama e o toque de ironia e humor tipicamente ingleses, construindo alguns dos melhores momentos do filme.

Apesar da temática tantas vezes trabalhada no cinema, “Questão de Tempo” adota uma abordagem natural sobre a viagem temporal. Acompanhamos o divertido protagonista entrar em armários escuros e voltar para momentos como a primeira noite com a garota dos seus sonhos e ajudar seu colega de quarto a vigorar no trabalho. A delícia do filme é descobrir – ao lado de Tim – o valor dos momentos mais ordinários, e atingir com ele a maturidade necessária para se desapegar do “como teria sido”.