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“Terapia de Risco”

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Um dos diretores mais versáteis do cinema, Steven Soderbergh já navegou entre a comédia, o documentário e o drama. O diretor passeou pelos gêneros em seus últimos trabalhos, “Contágio” e “Magic Mike”. Em “Terapia de Risco” vemos um Soderbergh em plena forma, realizando os malabarismos cinematográficos de costume.

Emily Taylor (Rooney Maraé diagnosticada com depressão após o retorno do marido (Channing Tatum), que passou quatro anos na cadeia por utilização de informações ilícitas em um negócio na Bolsa de Valores de Nova Iorque. Para que pudesse evitar a internação a fim de continuar trabalhando, Emily concorda em realizar um tratamento com o psiquiatra Jonathan Banks (Jude Law). O médico, levando em consideração o estado da paciente – que chegou ao ponto de tentar o suicídio – decide prescrever alguns antidepressivos.

Com a medicação recomendada não parecendo surtir efeito, Taylor continua a mergulhar em um estado de melancolia profunda. Em uma consulta, Emily sugere à Banks um tratamento com um novo medicamento, Ablixa. O psiquiatra decide então receitar a nova droga à paciente, que retorna a seu consultório alguns dias depois alegando sofrer de sonambulismo como efeito colateral.

Um assassinato ocorre, e a partir daí o filme constrói a ponte que faz a passagem de um drama melancólico a um thriller cheio de reviravoltas. A inversão de protagonistas faz com que a trama ganhe novos pontos de vista. Nas mãos de Soderbergh, a virada do filme é muito bem administrada, sem perder o espectador. Uma manobra arriscada, mas bem formulada, com cara e jeito de diretor que sabe o que faz.

O filme é capaz de tecer uma boa crítica à indústria farmacêutica nos Estados Unidos, onde o consumo de medicamentos é tão comum quanto chupar uma bala. Somos apresentados a propagandas que prometem a felicidade rápida e fácil aos que consumirem as pílulas. O uso das drogas é banalizado, como em uma sequência em que Banks diz à esposa que os calmantes que ela está prestes a tomar para encarar uma entrevista de emprego não vão ocultar sua personalidade, pelo contrário, exaltarão suas qualidades.

O elenco é sensacional. Rooney Mara prova mais uma vez ser uma das grandes promessas desta geração de atrizes. Jude Law e Catherine Zeta-Jones (no papel da antiga psiquiatra de Emily) apresentam atuações dignas da carreira de sucesso de ambos. A direção de fotografia, também assumida por Soderbergh, encontrou na trilha sonora de  Thomas Newman o parceiro ideal. Conforme o foco da trama se altera, a fotografia e a música o acompanham, responsáveis sempre por mergulhar o espectador na nova fase que o filme adentra.

A única ressalva ao filme é o rumo que o roteiro toma quando se aproxima do desfecho. Para uma trama que cativou quem assiste durante toda sua duração, é triste que a injeção de adrenalina caia quando o final se aproxima. Com um roteiro promissor, a obra prometia um final avassalador, que não entrega. Porém, um trabalho construído tão competentemente não perde seus méritos pela falha.

Soderbergh disse estar se despedindo do mercado, deixando “Terapia de Risco” e o telefilme “Behind The Candelabra” como seus últimos trabalhos na direção. Uma pena. Ao assistir um filme como “Terapia de Risco”, fica clara a lacuna que o diretor vai deixar. Bom, só nos resta procurar nossos próprios Ablixa, quem sabe assim a gente drible a saudade. 

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“O Grande Hotel Budapeste”

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  • Ano de lançamento: 2014
  • País: Estados Unidos
  • Língua: Inglês
  • Título original: “Grand Budapest Hotel”
  • Diretor: Wes Anderson
  • Avaliação: Pega a estatueta!

Wes Anderson é mais do que diretor. É marca registrada, assinatura, carimbo. Uma vez de frente pra um de seus trabalhos, é difícil não saber de quem se trata. Ao longo da carreira, Anderson dirigiu filmes como “O Fantástico Senhor Raposo”, “Os Excêntricos Tenembauns” e “Moonrise Kingdom”, alegorias que viriam a torná-lo um dos cineastas mais identificáveis do cenário. “O Grande Hotel Budapeste”, seu novo filme, é a consagração de seu estilo de cinema.

A história tem início nas memórias de um famoso escritor (Tom Wilkinson) que, para explicar o processo de escrita de um de seus maiores sucessos, vasculha uma viagem que fizera ao Grande Hotel Budapeste, na fictícia República de Zubrowka. Dentro das lembranças do autor, está um encontro que tivera com M. Moustafa (F. Murray Abraham), dono do hotel. No encontro, o magnata decide lhe contar como acabou herdando o local. É desse relato que surge a história de M. Gustave (Ralph Fiennes) e Zero (Tony Revolori), seu fiel escudeiro.

M. Gustave é o sedutor concierge do Hotel Budapeste, uma ilustre hospedagem nos Alpes europeus. Lá, Gustave é o grande maestro, responsável por satisfazer os clientes e organizar os funcionários. Ao seu lado, está o sempre prestativo Zero, o mensageiro do lugar. Com a morte de uma abastada cliente do hotel, por quem Gustave nutria sentimentos mais do que profissionais, ele e seu escudeiro partem em direção à mansão da falecida, a fim de prestar suas condolências (e algumas segundas intenções menos honráveis).

Quando Gustave chega à mansão, descobre ter herdado uma obra de valor inestimável, fato que a desregulada família da finada Madame D. (Tilda Swinton) não deixa passar em branco. O filho mais velho da ricaça, Dmitri (Adrien Brody), começa então uma caça ao concierge, A partir daí, a trama passa por prisões, tiroteios, fugas, conspirações e mistérios. Uma verdadeira montanha-russa, com direito a menções – sob um olhar crítico – sobre a Guerra, com um Edward Norton fardado adentrando trens.

A obra de Wes Anderson é calculada. Dividida em capítulos, épocas e janelas de projeção, o filme é pensado milimetricamente. Anderson administra um elenco estelar a lá Woody Allen. Grandes atores em papéis pequenos, porém indispensáveis. O companheiro de longa data do diretor, Bill Murray, aparece por poucos minutos, mas é responsável por um dos melhores momentos do filme. Difícil destacar alguém nesse timaço, que inclui Tilda Swinton, Willem Dafoe, Harvey Keitel, Jude Law e Adrien Brody.

Se for pra falar de algum dos nomes de peso da trama, que se fale de Ralph Fiennes. Um parágrafo só dele, que brilha cena após cena, fazendo com que o espectador clame por mais e mais dele. Fiennes conduz a narrativa com o talento de quem sabe o que faz, navegando entre os momentos de drama e comédia habilmente, criando o fluxo que o enredo pede.

O vencedor do urso de prata no Festival de Berlim 2014 tem, além de Anderson, duas pessoas a agradecer: Adam Stockhausen, diretor de arte, e Robert D. Yeoman, responsável pela fotografia. Durante todo o filme, somos expostos a uma gama de cores e detalhes impressionantes (sem falar na qualidade dos figurinos). A composição é certeira, ainda mais ao ser embalada pela trilha sonora de Alexandre Desplat.

“O Grande Hotel Budapeste” é um sopro fresco, um filme que incorpora o que o cinema deve ser. Anderson joga na panela um romance adorável entre um mensageiro e uma confeiteira, uma fuga atrapalhada da prisão e a nostalgia de um homem que vive de lembranças. Dentro de cada história há uma nova história, um novo personagem, uma nova forma de encantar e entreter. Como incluir tanto em cem minutos? Eu não sei, mas ele o faz. E como o faz.

“Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”

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  • Ano de lançamento: 2014
  • País: Brasil
  • Língua: Português
  • Título original: “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”
  • Diretor: Daniel Ribeiro
  • Avaliação: Pega a estatueta!

O curta “Eu Não Quero Voltar Sozinho”, de Daniel Ribeiro, encantou lá em 2010, quando foi lançado. Sucesso proliferado pelo YouTube (onde tem mais de 3 milhões de visualizações) o curta serviu de base para o primeiro longa-metragem do diretor: “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, ganhador do prêmio da crítica, e do Teddy Bear no Festival de Berlim, além do prêmio do público no Festival de Guadalajara.

Leonardo (Ghilherme Lobo) é um adolescente enfrentando a jornada de descobertas típica da adolescência. O primeiro beijo, os implicantes da sala de aula e as discussões com os pais. Tudo bem até então. Mas, Leonardo é cego. Além das buscas normais da fase, o menino tem que lidar com a superproteção dos pais e o preconceito que sofre na escola.

O garoto passa seus dias entre as aulas e a casa da melhor amiga Giovana (Tess Amorim), cúmplice e companheira constante. A rotina dos dois – escola, casa, escola – é quebrada quando um menino novo, Gabriel (Fabio Audi), começa a estudar na classe do casal de amigos. O novato é alvo da atenção de toda a turma, inclusive da dupla. Basta uma tarefa em grupo para que Gabriel passe a compor o, agora, trio.

Giovana, que antes levava Leonardo até a porta de casa todos os dias, agora vê Gabriel acompanhá-los e, aos poucos, a amizade se abala. A relação de Gabriel e Leonardo ganha espaço, e ofusca a parceira antiga. O garoto novo não trata a cegueira do amigo com não-me-toques, e oferece a Gabriel a chance de experimentar, se arriscar a fazer coisas que se julgava incapaz de fazer . A independência que o deficiente tanto buscava na relação com os pais, vem das mãos do novo amigo. 

Enquanto fogem escondidos à noite, dividem uma bicicleta e vão a uma festa de colegas, os garotos percebem estar vivendo algo diferente. É aí que “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” constrói seu grande mérito. É tudo natural. Da fotografia em tons pastéis, às tardes a beira da piscina, vemos os dois meninos se descobrirem juntos. O que poderia cair nos clichês, se desenvolve quase que organicamente. O espectador não é agredido pelo turbilhão de sentimentos vividos na tela, pelo contrário, é acariciado pela sutileza do romance que ali nasce.

O elenco é outro ponto forte. Ribeiro manteve o trio principal, apesar de três anos terem passado desde o lançamento do curta. Guilherme Lobo cria um protagonista além de convincente. O ator, que não é cego, apresenta uma performance pra lá de elogiável. A química ente Lobo e Fabio Rios é excepcional.

A trilha sonora é um quê a parte. O filme acerta em cheio ao mesclar as preferências pessoais dos personagens à composição da trilha. Leonardo é apaixonado por música clássica, já Gabriel é adepto ao indie, folk e alternativo. Seja ao colocar “There’s Too Much Love” de Belle & Sebastian para embalar a primeira dança, ou “Vagalumes Cegos” do brasileiro Cícero, de fundo para a primeira fuga juntos, enredo e música seguem de mãos dadas durante toda a trama.

Se em 2013, “Azul É A Cor Mais Quente” colheu seus louros ao dar uma roupagem natural ao amor entre duas mulheres, “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” não fica atrás. Somos levados pela leveza do amor entre Leonardo e Gabriel. Enquanto Adèle e Emma se debatem por entre os dilemas da relação, os dois estudantes procuram, com calma, aceitar o que lhes é oferecido. Ao lado de Léo e Gabriel, descobrirmos um amor sincero, com cara de amor, sem estigmas. Como deve ser.