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Trainspotting 2

Trainspotting-2-

A juventude é desperdiçada nos jovens, já dizia o ditado. Quanto mais jovens, mais temos a impressão de que nossos atos não terão consequências a serem sentidas pelas versões mais velhas de nós mesmos, uma vez que estas são sombras pairando ao longe, onde os olhos ainda não podem enxergar. Acreditamos que temos todo o tempo do mundo para fazer as escolhas mais idiotas ao nosso alcance, viver enquanto somos jovens, como diz um outro ditado. Trainspotting, de Danny Boyle, é uma obra prima quando se pensa no retrato da juventude. Pelas ruas de Edimburgo, amigos de infância picam as veias saltadas com seringas entupidas de heroína de qualidade duvidosa. Levados pela adrenalina, cometem pequenos delitos, sempre em busca de juntar mais uns trocados e – consequentemente – voltar ao quarto sujo onde encontram suas agulhas.

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Descompensada

  • Ano de Lançamento: 2015
  • País: Estados Unidos
  • Língua: Inglês
  • Título Original: Trainwreck
  • Diretor: Judd Apatow
  • Avaliação: A arbez

Estrelado e escrito por Amy Schumer, um dos maiores nomes da Hollywood atual, Descompensada vem cercado de expectativas. A promessa era de uma comédia irreverente, feminista e pronta pra desconstruir tabus e pré-moldes da indústria de entretenimento americana. Parecia ótimo. Até não ser.

Amy (a protagonista adota o nome da atriz principal. Inovador) tem um emprego bacana em uma revista de sucesso, um apartamento mais do que decente em uma boa área de Nova Iorque e a auto estima que toda mulher sonha em conquistar, apesar de não se encaixar nos padrões de beleza convencionais. É assumidamente ninfomaníaca, contrária à ideia de qualquer tipo de compromisso. Uma cama diferente por noite, buscando por sexo bom, fácil e simples. Tudo regado a muito álcool e maconha. Até se apaixonar cirurgião esportivo Aaron (Bill Hader).

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(Festival do Rio 2015) Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer

Greg (Thomas Mann) é o típico deslocado do colégio: evita o holofote a qualquer custo, quase se afoga na baixa auto estima e não consegue produzir uma frase coesa quando é colocado frente a frente com uma garota popular. Ele e o melhor amigo, Earl (RJ Cyler), passam os dias em frente a uma tela qualquer assistindo filmes estrangeiros e idolatrando Herzog. Juntos, os dois produzem versões caseiras de grandes clássicos do cinema, hobby que compartilham há tempo suficiente pra possuir uma pequena cinemateca.

Quando a mãe de Greg (Connie Britton) descobre que a filha da vizinha está com leucemia, manda o filho passar um tempo com a moça, boa ação da qual o jovem não pode escapar. Como já era de se esperar, a partir dessa ordem materna Greg, Rachel (Olivia Cooke)– e, de vez em quando, Earl – não se desgrudam mais.

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“Deus Não Está Morto”

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Falar de religião é algo complicado. O cinema em sua história apresentou diversos pontos de vista acerca da fé, seja com Bergman em “O Sétimo Selo” ou Amenábar, em “Mar Adentro”. “Deus Não Está Morto”, filme de Harold Cronk, coloca a questão sob os holofotes ao retratar a discussão entre um professor de Filosofia e um aluno universitário.

Ao entrar na faculdade, Josh Wheaton (Shane Harper) preenche sua grade curricular com uma matéria eletiva de Introdução a Filosofia. O responsável pelo curso é o professor Radisson (Kevin Sorbo), que constrói toda a primeira aula da cadeira tergiversando sobre a ignorância daqueles que ainda acreditam na existência de um Deus em pleno século XXI. Ateu escancarado, o educador insiste que todos os alunos escrevam três palavras em uma folha: Deus está morto. De acordo com Radisson, somente dessa maneira – ao se livrar de qualquer resquício teísta – é possível estabelecer um estudo objetivo da Filosofia.

O problema é que Wheaton, cristão convicto, é incapaz de negar suas crenças e realizar a tarefa que lhe foi pedida. O professor resolve então lhe dar uma escolha: convencer a turma de que Deus não está morto em três aulas, ou reprovar a matéria e perder a chance de cursar a faculdade de Direito que almeja.

O que parece uma proposta interessante se transforma em piada em menos de quinze minutos. O espaço que o roteiro possui para provocar uma discussão inteligente é anulado pela previsibilidade. Josh é o católico perfeito: carrega uma cruz de prata no peito (sempre em foco), tem uma namorada loira, linda e beata (que ele conheceu em um grupo de igreja) e prefere colocar em risco a carreira acadêmica em prol de defender o Deus em que acredita.

A argumentação em sala de aula é nada mais do que o be-a-bá do debate religioso. O professor cita os maiores gênios da história, todos ateus, enquanto o aluno rebate os argumentos com citações da bíblia e perguntas como “de onde vem o Universo?”. Stephen Hawking é descreditado em segundos, com os méritos de seus anos de pesquisa jogados no ralo pela citação do matemático cristão John Lennox, “você não pode explicar o universo sem Deus”. Só isso. Ponto final.

Mesmo que desconsiderássemos a total falta de profundidade do debate em sala, o filme insiste em nos provar o quão raso é. A trama envolve, além da dupla de protagonistas, uma série de personagens secundários. Há uma blogueira frívola que descobre uma doença grave e revê suas convicções, o namorado da tal blogueira, um verdadeiro babaca que não pensa em ninguém além dele mesmo, e um catequizador africano que passa o filme inteiro repetindo o mantra “Deus é bom o tempo todo, o tempo todo Deus é bom”.

Completando o núcleo, há uma muçulmana expulsa de casa pelo pai após declarar que ama Jesus e crê nos ensinamentos da Bíblia, e um asiático que (também) se rebela contra o pai ateu e assume o cristianismo. Ou seja, nesse enredo completamente parcial, não há fé que não possa ser abalada pela doutrina cristã. A construção de personagens é falha, opta pela quantidade acima da qualidade. A forma que a estória encontra para conectar tantos papéis funciona como um band-aid para remendar o desleixo dos roteiristas.

“Deus Não Está Morto” lucrou 41 milhões de dólares durante seu primeiro mês em cartaz nos Estados Unidos, vinte vezes o custo do filme. O sucesso relativo da produção confirma a força do cinema com temática cristã, que teve alguns representantes em 2014, como “O Céu É de Verdade”, e volta os olhares das grandes produtoras para um mercado que se mostra promissor.

Se a miscelânea apelativa que envolve câncer, morte, demência, milagres, e afins não for o suficiente para fazer o mais fervoroso dos ateus se converter, não se preocupe, há um belo concerto de rock cristão preparado para fechar com chave de ouro o carnaval de clichês. Ao final da trama, talvez se rabisque em um papel as palavras “O Cinema está morto”, então voltamos a Bergman e – como um milagre – nos tornamos crentes novamente. 

“Terapia de Risco”

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Um dos diretores mais versáteis do cinema, Steven Soderbergh já navegou entre a comédia, o documentário e o drama. O diretor passeou pelos gêneros em seus últimos trabalhos, “Contágio” e “Magic Mike”. Em “Terapia de Risco” vemos um Soderbergh em plena forma, realizando os malabarismos cinematográficos de costume.

Emily Taylor (Rooney Maraé diagnosticada com depressão após o retorno do marido (Channing Tatum), que passou quatro anos na cadeia por utilização de informações ilícitas em um negócio na Bolsa de Valores de Nova Iorque. Para que pudesse evitar a internação a fim de continuar trabalhando, Emily concorda em realizar um tratamento com o psiquiatra Jonathan Banks (Jude Law). O médico, levando em consideração o estado da paciente – que chegou ao ponto de tentar o suicídio – decide prescrever alguns antidepressivos.

Com a medicação recomendada não parecendo surtir efeito, Taylor continua a mergulhar em um estado de melancolia profunda. Em uma consulta, Emily sugere à Banks um tratamento com um novo medicamento, Ablixa. O psiquiatra decide então receitar a nova droga à paciente, que retorna a seu consultório alguns dias depois alegando sofrer de sonambulismo como efeito colateral.

Um assassinato ocorre, e a partir daí o filme constrói a ponte que faz a passagem de um drama melancólico a um thriller cheio de reviravoltas. A inversão de protagonistas faz com que a trama ganhe novos pontos de vista. Nas mãos de Soderbergh, a virada do filme é muito bem administrada, sem perder o espectador. Uma manobra arriscada, mas bem formulada, com cara e jeito de diretor que sabe o que faz.

O filme é capaz de tecer uma boa crítica à indústria farmacêutica nos Estados Unidos, onde o consumo de medicamentos é tão comum quanto chupar uma bala. Somos apresentados a propagandas que prometem a felicidade rápida e fácil aos que consumirem as pílulas. O uso das drogas é banalizado, como em uma sequência em que Banks diz à esposa que os calmantes que ela está prestes a tomar para encarar uma entrevista de emprego não vão ocultar sua personalidade, pelo contrário, exaltarão suas qualidades.

O elenco é sensacional. Rooney Mara prova mais uma vez ser uma das grandes promessas desta geração de atrizes. Jude Law e Catherine Zeta-Jones (no papel da antiga psiquiatra de Emily) apresentam atuações dignas da carreira de sucesso de ambos. A direção de fotografia, também assumida por Soderbergh, encontrou na trilha sonora de  Thomas Newman o parceiro ideal. Conforme o foco da trama se altera, a fotografia e a música o acompanham, responsáveis sempre por mergulhar o espectador na nova fase que o filme adentra.

A única ressalva ao filme é o rumo que o roteiro toma quando se aproxima do desfecho. Para uma trama que cativou quem assiste durante toda sua duração, é triste que a injeção de adrenalina caia quando o final se aproxima. Com um roteiro promissor, a obra prometia um final avassalador, que não entrega. Porém, um trabalho construído tão competentemente não perde seus méritos pela falha.

Soderbergh disse estar se despedindo do mercado, deixando “Terapia de Risco” e o telefilme “Behind The Candelabra” como seus últimos trabalhos na direção. Uma pena. Ao assistir um filme como “Terapia de Risco”, fica clara a lacuna que o diretor vai deixar. Bom, só nos resta procurar nossos próprios Ablixa, quem sabe assim a gente drible a saudade.