Sniper Americano

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Do cano da arma de Chris Kyle, saíram as balas responsáveis por matar cerca de cento e sessenta pessoas, tornando-o o franco atirador mais letal da história do exército americano. A lenda, como ficou conhecido na força de operações especiais da Marinha dos Estados Unidos, narrou suas memórias no livro Sniper Americano, levado às telas por Clint Eastwood.

Invencível

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  • Ano de Lançamento: 2015
  • País: Estados Unidos
  • Língua: Inglês
  • Título Original: “Unbroken”
  • Diretor:  Angelina Jolie
  • Avaliação: A arbez

História real. Segunda Guerra Mundial. Soldado. Atleta. Bom moço. A segunda empreitada de Angelina Jolie na direção colocou no liquidificador todos os ingredientes necessários para conquistar os júris (e a Academia).

Invencível conta a história de Louis Zamperini (Jack O’Connell), sobrevivente de guerra e atleta olímpico. Louis passou quase cinquenta dias à deriva após a queda de uma avião de combate e foi resgatado pelos inimigos japoneses, tomado refém e mantido em condições sub-humanas.

Os primeiros minutos são eletrizantes. A tensão crescente em meio a  um campo – aéreo – de batalha domina a tela. A expectativa é atenuada por um início promissor, mas, daí pra frente caímos em queda livre, arrastados por uma narrativa incapaz de segurar a atenção do espectador.

Zamperini enfrenta bombardeios, dias em mar aberto, fome, queimaduras… A trajetória do atleta é composta por episódios de angústia e incerteza, elementos que se esvaem na abordagem rasa e quase calculada de Jolie. O filme se arrasta durante mais de duas horas, sem explorar o potencial da história e dos personagens.

O roteiro, co-assinado pelos irmãos Coen, William Nicholson e Richard LaGravenese, transforma o inesperado em previsível. A trama não se demora em questões como a relação do protagonista com a família, e o contraste entre as personalidades do atleta e dos companheiros de exército que dividiram com ele um pequeno bote por quase dois meses. Até mesmo a forte figura do inimigo é limitada a bordões inexpressivos e traços caricatos.

Jack O’Connell tenta, mas não consegue causar grande impacto. Tão morno quanto a narrativa, o ator não captura a essência do personagem principal. O restante do elenco segue o mesmo caminho, sem entregar nenhuma performance memorável. Domhnall Gleeson tem bons momentos, mas é mal aproveitado, e fica preso aos limites do papel. 

Jolie convocou um time de primeiro escalão para a produção de Invencível. A trilha sonora é de Alexandre Desplat (que concorre duas vezes ao Oscar 2015), a direção de fotografia é de Roger Deakings e o roteiro está nas mãos de um grupo de escritores consagrados. Excelente escalação, mas, a gente bem sabe que até time favorito pode perder de 7×1.

A Teoria de Tudo

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De desenho animado em Futurama à artista convidado em séries como The Big Bang Theory, Stephen Hawking é uma figura familiarizada com o mundo do entretenimento. A história de um dos maiores nomes da Física já foi tema de documentários, especiais e telefilmes. The Theory of Everything (“A Teoria de Tudo”, no Brasil) é mais um projeto baseado na vida do pensador.

Aluno promissor em Cambridge, Hawking (Eddie Redmayne) descobriu, no auge dos vinte e poucos anos, ser portador de Esclerose Lateral Amiotrófica, uma doença degenerativa. De acordo com os médicos, lhe restavam dois anos de vida. Desafiando todas as estimativas, Stephen não só sobreviveu, como produziu algumas das maiores obras da ciência contemporânea. 

A Teoria de Tudo retrata o cientista através dos anos em que passou casado com Jane Hawking (Felicity Jones), namorada dos tempos de estudante. Jane, que conheceu o teórico antes do diagnóstico, foi parte fundamental do processo de adaptação de Stephen à doença, dividindo-se entre dedicar-se ao marido e criar os filhos.

A ideia de traçar a cinebiografia por meio da relação do casal é interessante. No entanto, o roteiro, baseado em Travelling to Infinity, livro escrito por Jane, enfrenta dificuldades para sair da zona de conforto. Rasa, a abordagem de questões como sexo, gravidez e adultério deixa a desejar, criando a sensação de que a dupla vive em um paraíso inabalável onde qualquer problema é resolvido sem maiores conflitos. 

Quem vai ao cinema em busca de uma análise profunda sobre como o escritor lidou com um corpo que aos poucos lhe deixara pra trás pode se decepcionar. Construído majoritariamente através do ponto de vista de Jane, a trama não explora as lutas internas de Hawking. Ao invés disso, a narração foca na deterioração do relacionamento, nos romances extra-conjugais e no papel da esposa durante a ascensão do marido. 

Se há algo a ressaltar, é Eddie Redmayne. O ator caiu nas graças da crítica. Não sem motivo. A performance do britânico é daquelas pra levar na memória. Sem escorregar um minuto, Redmayne traz à tona um Hawking que não só faz jus ao original, como é infinitamente melhor que qualquer outra representação antes vista do físico. Figurinha confirmada na temporada de premiações.

James Marsh troca a irreverência que o consagrou em O Equilibrista pela segurança de um filme calculado. Tudo é bem trabalhado, da trilha sonora original à edição, porém, o diretor que brinca com a adrenalina em um dos documentários mais inquietantes dos últimos anos, deixa de lado a corda bamba e assume o volante de um utilitário (com air bag incluído).

Enquanto Hawking representa ir além do esperado, A Teoria de Tudo repousa no previsível. Emociona? Sim. Mas, pra quem tinha nas mãos o Universo, é uma pena que o produto final não seja mais do que algumas estrelas.

 

Boa Sorte

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  • Ano de Lançamento: 2014
  • País: Brasil
  • Língua: Português
  • Título Original: “Boa Sorte”
  • Diretor:  Carolina Jabor
  • Avaliação: Qual era mesmo?

A proposta de Boa Sorte, primeiro longa de ficção da diretora Carolina Jabor, é interessante: o relacionamento entre dois pacientes em uma clínica de reabilitação. Judite, na casa dos trinta, HIV positiva, já fez uso de todos os tipos de droga no catálogo; João, aos dezessete, é viciado em uma mistura de calmante e Fanta laranja.

Baseado em um conto de Jorge Furtado, o filme acompanha de perto a paixão entre os dois pacientes. Enquanto Judite (Deborah Secco) se despede da vida, João (João Pedro Zappa) começa a entendê-la. Antes invisível (uma metáfora bastante explorada durante a trama) para a família e amigos, o garoto encontra na colega de internação a atenção que lhe fora negada. A intensidade da relação é atenuada pela realidade do confinamento em que vivem e as limitações que lhe são impostas.  O casal passeia pelos corredores melancólicos, tem longas conversas à beira de uma piscina imunda e observa as famílias caminharem pelo jardim nos dias de visita.

Déborah Secco mergulhou de cabeça na experiência. No processo de preparação, perdeu mais de dez quilos. Valeu a pena. A atriz tem uma das melhores performances de sua carreira na pele de Judite. Crível, Secco se despe de pudores (literalmente) para dar vida a uma personagem desafiadora, quiçá ainda mais complicada de se construir em tela do que a garota de programa Bruna Surfistinha, papel no sucesso homônimo de 2011.  

João Pedro Zappa deixa a desejar. No mar de possibilidades oferecidas por um personagem como João, o ator se manteve em uma linha constante, sem grandes oscilações. Nos momentos mais tensos, a atuação é exagerada. O protagonista foi ofuscado pelo excelente Pablo Sanábio, que interpreta Felipe, um dos residentes da clínica. Felipe carrega a carga cômica do filme e o faz com maestria. Sempre que aparece em tela, entretém o espectador com a dose certa de carisma e talento, coisa de quem sabe bem o que faz. Pena que desaparece por grande parte do filme.

Boa Sorte tem boas pretensões, e poderia ter dado certo se não fosse a terceira parte. O início promete algo que a trama não cumpre, pois se desvia da atmosfera dos primeiros momentos ao mergulhar em longos diálogos, clichês e explicações demais. A boa reflexão é diluída pelo roteiro mal trabalhado, que caminha pra um desfecho desastroso, comprometendo o projeto inteiro. 

A narrativa poderia ter se concentrado mais na linguagem visual do que verbal. Algumas das cenas são lindas, como o momento em que os pacientes dançam pelos corredores da clínica, uma das cenas mais bonitas que assisti esse ano. Porém, a trama é incapaz de manter esse nível, derrubada por comos, quandos e porquês desnecessários.

Entre mortos e feridos, salvam-se alguns. Boa Sorte é uma faísca, que nos faz pensar no potencial do cinema brasileiro atual como um todo. É o primeiro passo para um caminho promissor. Talvez precise seguir a protagonista e se despir, perceber que menos é mais. E que venha o próximo trabalho de Jabor, a quem eu desejo toda a sorte. 

Interestelar

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Já com a carruagem andando, Christopher Nolan assumiu o lugar de Steven Spielberg no projeto audacioso que viria a se tornar Interestelar. O diretor de Amnésia e A Origem mexeu alguns pauzinhos em Hollywood para tocar em frente o trabalho já iniciado pelo irmão, o roteirista Jonathan Nolan, e o físico Kip Thorne.

Em um futuro distópico, a humanidade sofre com a escassez de alimentos e o ataque constante de pragas que dizimam as plantações. Do solo antes fértil, só restou a poeira. Os seres humanos voltaram a uma vida baseada na agricultura, vivendo sob a ameaça iminente da fome. É nesse cenário que Cooper (Matthew McConaughey), um antigo piloto, vive com o sogro (John Lithgowe os dois filhos, Murph (Mackenzie Foy, quando nova) e Tom (Timothée Chalamet, quando novo).

O ex-piloto sofre por ver a regressão da humanidade aos tempos de fazenda. A troca do avanço tecnológico por uma cultura de subsistência, criar os filhos em uma realidade onde o homem nega ter pisado na Lua e os pais se contentam em saber que as crianças são educadas somente para cultivar a terra, sem maiores ambições. 

A escassez de alimentos e a infertilidade do solo estabeleceram um prazo de validade para a existência do homem na Terra e – ao encontrar a ultrassecreta sede da NASA – Cooper é apresentado ao projeto da agência espacial para evitar a extinção: uma missão a fim de descobrir um planeta capaz de abrigar a espécie humana.

Nolan é ambicioso. Criou uma trama para instigar comparações ao maior clássico de ficção científica da história do cinema: 2001- Uma Odisseia No Espaço. Por mais que os paralelos sejam inevitáveis, a obra de Kubrick permanece intacta no primeiro lugar do pódio. Nolan tinha em mãos a faca e o queijo, e se perdeu ao explicar demais o que não precisava ser explicado. Enquanto Kubrick provoca a reflexão, Nolan escolhe uma abordagem quase didática, cimentando as brechas necessárias para interpretação da audiência.

Baseado em teorias da física quântica, Interestelar reuniu um time de especialistas que trouxe o espaço às telas de cinema sem uso de chroma key. O buraco negro da trama é ponto inicial de pesquisas acadêmicas, e até o mais leigo dos espectadores compreende o nível de estudo necessário para criar uma obra de tamanhas proporções. A avalanche de termos científicos nos envolve no raciocínio lógico que demanda, mas, joga um balde de água fria ao apelar para um sentimentalismo inconveniente.

Esqueça a gravidade, o espaço temporal, buraco negro, galáxias… É o amor a substância necessária para a conservação da humanidade. “O amor é a única coisa que transcende o tempo e o espaço”. A quintessência dos Nolan. Mágoa familiar, reconciliações em meio a desastres naturais e mensagens de vídeo chorosas. Uma mistura do melodrama de Impacto Profundo com questionamentos de Solaris.  

Bom… Verdade seja dita: Interestelar é um épico. Visualmente inacreditável, o filme é o resultado da ousadia de Christopher Nolan, da consistência da pesquisa, e da liberdade concedida ao diretor pela produtora. A escolha do elenco, capitaneado pelo excelente Matthew McConaughey (que entra com força na corrida pelo Oscar 2015), a trilha sonora impecável de Hans Zimmer e a direção de fotografia de Hoyte Van Hoytema transformam a obra em uma experiência memorável, ainda melhor em iMax.

Como uma nave espacial, Interestelar ganha impulso na decolagem, emplaca na subida e perde força na descida. O desfecho pode ser antecipado pelos atentos e não corresponde, nem de longe, ao frenesi causado nos primeiros minutos da trama. Nolan tergiversa sobre maneiras de salvar a humanidade e se esquece do que salva um filme: um bom roteiro.