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“Malévola”

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A desconstrução de uma das maiores e mais conhecidas vilãs da Disney acontece na tela em “Malévola”. Com um orçamento nada modesto de 200 milhões de dólares, a trama é uma vitrine de efeitos visuais. Produzido e estrelado por Angelina Jolie, o filme é o primeiro trabalho de Richard Stromberg, mago dos efeitos especiais, como diretor. 

O reino dos Moors, habitado por criaturas fantásticas, divide fronteiras com um reino comandado por homens. A rivalidade dos territórios faz com que seus respectivos habitantes não se relacionem. Quando Malévola (Angelina Jolie), uma jovem fada, conhecem Stefan (Sharlto Copley), um garoto do reino vizinho, tem início uma amizade improvável. 

Malévola e Stefan crescem juntos, correndo pelos arredores dos Moors. A amizade evolui ao ponto de parecer nascer ali uma história de amor digna de contos de fadas. Mas, ao passar do tempo, Stefan se deixa levar pela ambição e trai Malévola pela chance de assumir o trono do reino em que vive. 

Destruída pela traição do melhor amigo, Malévola se transforma. A alegre protetora dos Moors dá lugar à amargurada e funesta inimiga do reino dos homens. Ao saber do nascimento da princesa Aurora (Elle Fanning, quando jovem), primogênita do agora rei Stefan, Malévola parte a caminho do castelo e concretiza sua vingança ao lançar um feitiço sobre a criança: ao completar dezesseis anos, Aurora cairá em um sono profundo que somente poderá ser quebrado com um beijo de amor verdadeiro. 

“Malévola” é o produto das mudanças no modo de produção cinematográfico, que vem sido concretizadas ao longo dos últimos anos, um filme construído quase que integralmente a partir de efeitos visuais. Stromberg usa influências de alguns de seus trabalhos passados, como “Avatar” e “Alice no País das Maravilhas”, para criar o quimérico mundo dos Moors. 

Angelina Jolie carrega o filme nos ombros, assume as rédeas da produção e traz à vida uma vilã icônica. Jolie domina cada contorno da personagem que interpreta, é absoluta em cativar o espectador, fazendo com que seja difícil desviar o olhar a cada vez que aparece em tela. A missão da atriz era complicada, reinventar uma figura já conhecida pelo público, aliás, não só reinventá-la como humanizá-la, trazer uma das maiores vilãs da Disney pros afagos da audiência. Ela consegue, e vai muito além ao apresentar uma das melhores atuações da carreira. 

O elenco é, em grande parte, competente. Fanning se torna refém de uma personagem sem muito espaço para grandes invenções interpretativas, a doce e ingênua Aurora não passa disso: doce e ingênua. Destaque para Sam Riley, que vive o simpático parceiro de Malévola, Diaval. As três fadas interpretadas por Lesley Manville, Imelda Staunton e Juno Temple são insossas, e facilmente esquecíveis quando Jolie entra em cena. 

O problema de “Malévola” é a falta de profundidade, ou até mesmo de certa ousadia no roteiro. Em uma Disney pós-Frozen, é necessária uma história que vá além do bê-a-bá dos contos de fadas, e ofereça ao espectador algo novo. Como em “Frozen”, o debate acerca de príncipes encantados e amor verdadeiro é explorado em “Malévola”, porém, não adquire a mesma força de seu antecessor. 

 “Malévola” mostra uma nova Disney, pronta para dissecar seus grandes vilões e mocinhas, capaz de se desapegar do príncipe encantado e das histórias de amor utópicas. Apesar dos pesares, o filme triunfa. Deixe de lado a princesa sem sal, a história sem muita ousadia e a superficialidade do roteiro, “Malévola” é filme pra se lembrar. 

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“Yves Saint Laurent”

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Apesar de levar o nome do estilista, “Yves Saint Laurent” não foca na vida do francês. Seria pra lá de ambicioso tentar encaixar toda a trajetória de Saint-Laurent em 106 minutos. Ao invés de condensar a carreira do artista, o filme foca na relação de Yves (Pierre Niney) e Pierre Bergé (Guillaume Gallienne), com quem manteve um relacionamento durante cinquenta anos.

Logo de início, somos apresentados a um Yves de dezenove anos, que enche de desenhos e croquis as paredes de sua casa na Argélia. Dividido entre a vida tranquila ao lado da família, e o bullying que sofria na escola por possuir traços femininos, o jovem conserva uma atitude tímida e introspectiva. Considerado um prodígio no meio da moda, Saint-Laurent é contratado pela Maison Dior, do famoso estilista Christian Dior. Com a morte do mentor, quatro anos mais tarde, Yves assume o lugar de diretor de criação da Dior, aos vinte e um anos.

Com uma grande responsabilidade sobre os ombros, o estilista percebe não ter habilidades administrativas para lidar com o peso do nome da Maison. Apaixonado por desenhar, Yves se mostra um gênio criativo, mas limitado em situações práticas. Com uma convocação iminente para servir ao exército francês na Guerra da Argélia, Saint-Laurent sofre uma profunda crise emocional e é diagnosticado como maníaco-depressivo. Após a crise, Yves sai da Dior para fundar a própria Maison, aos vinte e seis anos. 

A partir daí, a presença de Pierre Bergé ganha cada vez mais importância. A personalidade centrada e racional de Bergé contrabalança os conflitos emocionais de Saint-Laurent. O casal vive uma relação turbulenta, afetada não somente pela personalidade complicada de Yves, mas também pela infidelidade e instabilidade do estilista. Aos poucos, o espectador percebe que Bergé assume, sem neuroses, o papel de coadjuvante, consciente de que é peça indispensável na carreira do artista.

O maior trunfo de “Yves Saint Laurent” tem nome e sobrenome: Pierre Ninet. O ator tem, além da incrível semelhança física, a competência em interpretar os trejeitos do estilista. O trabalho de Ninet ajuda a construir uma trama crível, elemento indispensável em uma cinebiografia. Flutuando entre os momentos de estabilidade e transtorno, Ninet brilha. Destaque também para Gallienne, sóbrio, é o par preciso para o ator principal. 

Outro ponto forte do filme é a fotografia. Em tons claros e austeros na fase introspectiva do protagonista, até os tons quentes e coloridos da fase de Marrakesh. Nos momentos melancólicos de Bergé, os tons acompanham a nostalgia do personagem. A direção de arte é elogiável. Com acesso a alguns dos itens pessoais do estilista (como croquis, peças e afins), Aline Bonetto, diretora de arte conhecida por “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, não desaponta ao recriar alguns dos mais icônicos desfiles e trabalhos do artista.

O que condena o filme é o roteiro. A falta de profundidade em algumas questões abordadas confunde o espectador. Fica no ar a sensação de incompletude em certos momentos, e acabamos por nos perguntar: “por que trazer a tona algo que não vai ser bem resolvido?”. Lespert opta pela narração em off, executada por Bergé, recurso que precisa ser bem elaborado para funcionar.  O caminho escolhido pelo diretor é questionável.

“Yves Saint Laurent” é a história de um gênio, mas passa longe de ser genial. Louvável a intenção de Lespert em retratar a relação mais importante na carreira do artista, pois oferece ao espectador a chance de se identificar com uma personalidade sempre vista em cima de um pedestal. “A moda passa, o estilo é eterno”, talvez, o que falte a “Yves Saint Laurent” seja isso: estilo. 

“À Procura do Amor”

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Uma glorificação do cotidiano, “À Procura do Amor” é a mistura na dose certa de comédia e romance sem os clichês apelativos da comédia romântica. 

A massagista Eva (Julia Louis-Dreyfus) é o retrato cômico da mulher à beira dos 50 anos. Divorciada, e com medo da solidão após a mudança da filha adolescente para cursar a faculdade. Em uma festa, Eva conhece Albert (James Gandolfini), um divertido pai divorciado que está passando pela mesma fase. A junção dos dois forma um casal (que me perdoem o teor pessoal) fofo e bem-humorado. 

Já no primeiro encontro, a química da dupla é inegável. O robusto Albert se diverte às custas dos próprios defeitos, e a sagaz Eva sempre tem uma resposta afiada na ponta da língua. As cenas protagonizadas pelos dois arrancaram sorrisos e, por vezes, gargalhadas da plateia. 

Quando o espectador se vê torcendo para o triunfo do romance, eis que se revela a problemática do filme: uma das clientes de Eva, Marianne (Catherine Keener), é, coincidentemente, ex-mulher de Albert. 

A imparcialidade de início de flerte é destruída, uma vez que, Eva agora tem acesso a todos os detalhes que fizeram com que a relação anterior de seu novo namorado chegasse ao fim. Durante as longas conversas com Marianne, Eva não consegue deixar de se influenciar pela descrição detalhada que a amiga faz de seu “fracassado ex-marido”. 

O filme é uma ode ao ordinário. É a caricatura da convivência não só entre um casal recém formado, mas também entre mãe e filha, entre mulheres na meia idade e relações familiares em geral. Em algumas das cenas, Holofcener parece integrar a plateia à narrativa, tamanho o conforto gerado pelos diálogos. 

Chamada por alguns de “a versão feminina de Woody Allen”, Holofcener achou em Julia Louis-Dreyfus a parceira perfeita para sua composição woodyalleniana. Por sua performance a atriz já está sendo cogitada por alguns críticos como uma candidata ao Oscar de melhor atriz no ano que vem.

“À Procura do Amor” é o penúltimo trabalho de James Gandolfini – que faleceu em junho deste ano – famoso por seu papel em “Família Soprano”. A leveza de sua atuação, contraposta à robusta figura de seu personagem, é a receita para a nostalgia daqueles que admiram seu trabalho. 

Todos aqueles que já optaram por prevenir ao invés de remediar, se identificarão em algum ponto da trama, que trata de amor como uma conversa descontraída entre amigos numa sexta-feira a tarde.

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