pra levantar da cadeira

Personal Shopper

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Maureen (Kristen Stewart) vive em Paris e divide seu tempo entre o trabalho de personal shopper, servindo a uma jovem fashionista e suas habilidades como médium, quase inteiramente focadas em estabelecer contato com o irmão que faleceu recentemente. Ao começar a receber mensagens de um desconhecido, embarca em um thriller psicológico com desdobramentos envolvendo tanto sua vida profissional quanto pessoal.

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“Deus Não Está Morto”

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Falar de religião é algo complicado. O cinema em sua história apresentou diversos pontos de vista acerca da fé, seja com Bergman em “O Sétimo Selo” ou Amenábar, em “Mar Adentro”. “Deus Não Está Morto”, filme de Harold Cronk, coloca a questão sob os holofotes ao retratar a discussão entre um professor de Filosofia e um aluno universitário.

Ao entrar na faculdade, Josh Wheaton (Shane Harper) preenche sua grade curricular com uma matéria eletiva de Introdução a Filosofia. O responsável pelo curso é o professor Radisson (Kevin Sorbo), que constrói toda a primeira aula da cadeira tergiversando sobre a ignorância daqueles que ainda acreditam na existência de um Deus em pleno século XXI. Ateu escancarado, o educador insiste que todos os alunos escrevam três palavras em uma folha: Deus está morto. De acordo com Radisson, somente dessa maneira – ao se livrar de qualquer resquício teísta – é possível estabelecer um estudo objetivo da Filosofia.

O problema é que Wheaton, cristão convicto, é incapaz de negar suas crenças e realizar a tarefa que lhe foi pedida. O professor resolve então lhe dar uma escolha: convencer a turma de que Deus não está morto em três aulas, ou reprovar a matéria e perder a chance de cursar a faculdade de Direito que almeja.

O que parece uma proposta interessante se transforma em piada em menos de quinze minutos. O espaço que o roteiro possui para provocar uma discussão inteligente é anulado pela previsibilidade. Josh é o católico perfeito: carrega uma cruz de prata no peito (sempre em foco), tem uma namorada loira, linda e beata (que ele conheceu em um grupo de igreja) e prefere colocar em risco a carreira acadêmica em prol de defender o Deus em que acredita.

A argumentação em sala de aula é nada mais do que o be-a-bá do debate religioso. O professor cita os maiores gênios da história, todos ateus, enquanto o aluno rebate os argumentos com citações da bíblia e perguntas como “de onde vem o Universo?”. Stephen Hawking é descreditado em segundos, com os méritos de seus anos de pesquisa jogados no ralo pela citação do matemático cristão John Lennox, “você não pode explicar o universo sem Deus”. Só isso. Ponto final.

Mesmo que desconsiderássemos a total falta de profundidade do debate em sala, o filme insiste em nos provar o quão raso é. A trama envolve, além da dupla de protagonistas, uma série de personagens secundários. Há uma blogueira frívola que descobre uma doença grave e revê suas convicções, o namorado da tal blogueira, um verdadeiro babaca que não pensa em ninguém além dele mesmo, e um catequizador africano que passa o filme inteiro repetindo o mantra “Deus é bom o tempo todo, o tempo todo Deus é bom”.

Completando o núcleo, há uma muçulmana expulsa de casa pelo pai após declarar que ama Jesus e crê nos ensinamentos da Bíblia, e um asiático que (também) se rebela contra o pai ateu e assume o cristianismo. Ou seja, nesse enredo completamente parcial, não há fé que não possa ser abalada pela doutrina cristã. A construção de personagens é falha, opta pela quantidade acima da qualidade. A forma que a estória encontra para conectar tantos papéis funciona como um band-aid para remendar o desleixo dos roteiristas.

“Deus Não Está Morto” lucrou 41 milhões de dólares durante seu primeiro mês em cartaz nos Estados Unidos, vinte vezes o custo do filme. O sucesso relativo da produção confirma a força do cinema com temática cristã, que teve alguns representantes em 2014, como “O Céu É de Verdade”, e volta os olhares das grandes produtoras para um mercado que se mostra promissor.

Se a miscelânea apelativa que envolve câncer, morte, demência, milagres, e afins não for o suficiente para fazer o mais fervoroso dos ateus se converter, não se preocupe, há um belo concerto de rock cristão preparado para fechar com chave de ouro o carnaval de clichês. Ao final da trama, talvez se rabisque em um papel as palavras “O Cinema está morto”, então voltamos a Bergman e – como um milagre – nos tornamos crentes novamente. 

“O Céu É de Verdade”

Baseado no best-seller homônimo, “O Céu é de Verdade” conta a história de um pastor que precisa lidar com as alegações do filho sobre ter visitado o paraíso.  O filme, estrelado por Greg Kinnear, tem direção de Randall Wallace, responsável por filmes como “Coração Valente” e “O Homem da Máscara de Ferro”.

Todd Burpo (Greg Kinnear) parece ter a vida perfeita: uma esposa atenciosa que dedica tardes a treinar um coral de altar, dois filhos tranquilos e o cargo de pastor na igreja que ele a família frequentam. A única exceção à perfeição da vida de Todd são os problemas financeiros que ele enfrenta, causados, em parte, pelo fato do pastor ser “bom demais” para cobrar pelos serviços que muitas vezes realiza enquanto faz as manobras necessárias para se virar entre seus cinco (isso mesmo, cinco) empregos.

Após um incidente, o pastor vê seu filho mais novo, Colton (Connor Corum), ser internado às pressas para uma cirurgia de emergência. Ao se recuperar do procedimento, a criança conversa com o pai sobre uma experiência que viveu durante a internação. Colton alega ter visitado o que, supostamente, seria o paraíso, inclusive pôde ver Jesus, anjos e animais. Ao ouvir o relato do filho, Burpo passa a repensar tudo aquilo em que acreditava.

O filme é uma alegoria religiosa preparada quase como um instrumento de evangelização. No roteiro, o que não falta são diálogos clichês sobre Deus, a fé e o amor. Os pequenos momentos em que a família ideal do pastor se desvirtua de sua excelência são forçados, como em uma cena em que a esposa decide quebrar um prato em um pseudo-surto-de-raiva ou quando a filha mais velha agride dois colegas de escola em defesa do irmão, deixando os pais – adivinhem? – orgulhosos.

O roteiro em si é uma bagunça. Um prólogo desnecessário, cenas aleatórias e contradições constantes. Uma hora o pastor é um beato completo, em outra é descrente e confuso, recorrendo a psicólogos e amigos próximos pra desabafar sobre suas dúvidas. O filme é clichê atrás de clichê, apelando pra cenas com uma carga dramática duvidosa em busca de lágrimas do espectador.

Os questionamentos que poderiam ter sido bem trabalhados durante o filme acabam por perder significância em meio à superficialidade com a qual são tratados. A direção é insípida, incapaz de reverter os erros do roteiro. O elenco, que conta com nomes como Greg Kinnear e Margo Martindale, tem um nível razoável, mas é prejudicado por conta dos diálogos triviais.

“O Céu É de Verdade” é um filme de nicho, mas isso não é desculpa para tantas limitações. Talvez coubesse melhor na televisão, quem sabe. Se há um céu? Eu não sei… Mas com certeza há muitas maneiras melhores de se construir um filme.  

“Profissão de Risco”

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  • Ano de lançamento: 2014
  • País: Estados Unidos, Bahamas
  • Língua: Inglês
  • Título original: “The Bag Man”
  • Diretor: David Grovic
  • Avaliação: Pra levantar da cadeira

Uma missão simples: buscar e entregar uma mala ao dono, sem verificar o conteúdo. É dessa premissa que parte “Profissão de Risco”, primeiro filme do diretor David Grovic. Baseado no livro “The Cat: A Tale of Female Redemption”, de Marie-Louise von Franz, a trama é estrelada por John Cusack e Robert De Niro.

Em um jatinho de luxo, o mafioso Dragna (Robert De Nirodesigna ao assassino de aluguel Jack (John Cusack) um serviço um pouco suspeito: levar uma mala até um motel sujo de beira de estrada. A única condição imposta pelo magnata é que a mala não seja aberta em momento algum. Apesar da desconfiança gerada pelo pedido, Jack concorda em realizar a tarefa. Acompanhado de um dos capangas do chefe, o assassino parte em direção ao local de encontro.

Ao enumerar o que acontece a partir daí, poderíamos estar falando de qualquer besteirol americano de segundo escalão: personagens bizarros, diálogos rasos e situações no mínimo improváveis. O caminho do protagonista se cruza com o de uma prostituta de 1,80m que se veste de Mulher Maravilha, um cadeirante vingativo dono do motel e um invocado anão russo. 

Quiçá seja a inexperiência do diretor, ou a falta de competência do roteirista. Os erros são tantos que é difícil apontar um culpado. A proposta inicial se baseava na construção de uma espécie de filme noir contemporâneo, mas, o que é oferecido ao espectador nada mais é do que um suspense recheado de clichês. 

A fotografia é previsível. A pretensão em criar um noir fez com que o filme explorasse tons escuros, cenas nebulosas e cores quentes vibrantes. Nada demais. A trilha sonora também não se destaca.

É triste ver um grande nome do cinema como Robert De Niro envolvido em um projeto tão pouco ambicioso. O personagem vivido pelo ator é um estereótipo genérico de psicopata, totalmente caricato. Armado de uma peruca exagerada e óculos enormes, o mafioso de De Niro tende mais à comédia do que ao suspense. Cusack, por outro lado, entrega o que já é esperado: John Cusack. Nada espetacular, o ator não vai muito além do que veio apresentando em seus últimos trabalhos. A brasileira Rebecca Da Costa tem uma atuação morna, sem grandes ressalvas.

Fraco do começo ao fim, “Profissão de Risco” é um filme para se esquecer. Grovic constrói uma trama rasa, que não cativa nem o mais crédulo dos espectadores. Não somos inocentes a ponto de esperar um De Niro à la Taxi Driver mas, tão pouco somos alienados para nos contentar com o mafioso burlesco que vemos na tela.

 

“Amante a Domicílio”

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A confissão de uma dermatologista a seu paciente faz com que um livreiro à beira da falência e um florista se tornem, respectivamente, cafetão e gigolô. A sinopse de “Amante a Domicílio” não propunha nada especial, mas a direção e o roteiro assinados por John Turturro, somados a Woody Allen como co-protagonista, construíram certa expectativa acerca da produção.

Murray (Woody Allen), dono de uma livraria prestes a ser fechada, descobre que a médica que lhe atende deseja ter uma experiência sexual envolvendo ela, uma amiga e um homem desconhecido. Curioso com o comentário, o livreiro propõe ao melhor amigo, Fioravante (John Turturro), sair com a médica em troca de uma boa quantia de dinheiro.

Receoso de início, o florista amigo de Murray decide olhar para a proposta com outros olhos. Ao invés de gigolô, Fioravante decide se considerar responsável por levar um pouco mais de amor e alegria a mulheres solitárias. O florista começa então uma jornada envolvendo médicas ricas, mulheres carentes e até uma viúva judia que vive sob as rigorosas práticas da religião.

O roteiro oscila durante todo o filme, sem nunca alcançar grandes momentos. Turturro parece não dominar sua própria narrativa, e se perde ao desenhar personagens mal desenvolvidos e estórias sem acabamento. O foco inicial da trama se dissolve antes da metade do filme, sem coordenação alguma.

A antes até divertida crônica de um florista tímido e o melhor amigo descobrindo um universo novo se transforma em um romance insosso, recheado de clichês. John Turturro, brilhante em muitos papéis durante sua carreira, se apaga em um personagem sem personalidade definida. O espectador não consegue se apegar ao protagonista, muito menos entender a complexidade dos dilemas que este enfrenta.

Woody Allen, que raramente atua em filmes não dirigidos por ele, é o ponto mais forte da trama. Engraçado e desenvolto, Allen oferece ao público os melhores diálogos do filme. Uma pena que o personagem que encarna não tenha sido tão bem aproveitado, mergulhando em situações mirabolantes em busca de brechas para uma comédia quase forçada.

Turturro tentou construir uma atmosfera woodyallenística, regada por uma mistura de jazz e Nova Iorque, porém, passou longe de alcançar o resultado que procurava. A miscelânea de informações ( vide a família de Murray, os confrontos étnicos e religiosos e as clientes exóticas do florista) não deixa tempo suficiente para o espectador respirar e absorver a história ali contada.

Noventa minutos se arrastam, causando a impressão de estarmos diante de um filme de mais de duas horas. “Amante a Domicílio” é um exemplo de boas intenções, porém má execução. O diretor tinha a faca e o queijo nas mãos, mas não soube ligar os elos. Allen como o cafetão desinibido de um tímido Turturro poderia ter sido sensacional. Poderia.