movie review

Trainspotting 2

Trainspotting-2-

A juventude é desperdiçada nos jovens, já dizia o ditado. Quanto mais jovens, mais temos a impressão de que nossos atos não terão consequências a serem sentidas pelas versões mais velhas de nós mesmos, uma vez que estas são sombras pairando ao longe, onde os olhos ainda não podem enxergar. Acreditamos que temos todo o tempo do mundo para fazer as escolhas mais idiotas ao nosso alcance, viver enquanto somos jovens, como diz um outro ditado. Trainspotting, de Danny Boyle, é uma obra prima quando se pensa no retrato da juventude. Pelas ruas de Edimburgo, amigos de infância picam as veias saltadas com seringas entupidas de heroína de qualidade duvidosa. Levados pela adrenalina, cometem pequenos delitos, sempre em busca de juntar mais uns trocados e – consequentemente – voltar ao quarto sujo onde encontram suas agulhas.

(mais…)

Anúncios

Para Sempre Alice

Jovem, no auge da carreira e consagrada pela publicação de pilares da Linguística americana, Alice Howland (Julianne Moore) descobre ser portadora do Mal de Alzheimer. A segurança, obtida através de uma vida de conquistas, é substituída pelo medo constante do esquecer.

Ainda agarrando-se ao que resta da racionalidade, Alice tenta planejar os dias com a ajuda de aparelhos eletrônicos e qualquer pedaço de rotina que possa conservar. A família, americana até dizer chega, consiste de um marido carinhoso e três filhos, completamente diferentes entre si. A chegada da doença da matriarca desenterra problemas antigos e desencadeia uma série de conflitos na casa dos Howland.

(mais…)

Sniper Americano

Image and video hosting by TinyPic

Do cano da arma de Chris Kyle, saíram as balas responsáveis por matar cerca de cento e sessenta pessoas, tornando-o o franco atirador mais letal da história do exército americano. A lenda, como ficou conhecido na força de operações especiais da Marinha dos Estados Unidos, narrou suas memórias no livro Sniper Americano, levado às telas por Clint Eastwood.

(mais…)

A Teoria de Tudo

image

De desenho animado em Futurama à artista convidado em séries como The Big Bang Theory, Stephen Hawking é uma figura familiarizada com o mundo do entretenimento. A história de um dos maiores nomes da Física já foi tema de documentários, especiais e telefilmes. The Theory of Everything (“A Teoria de Tudo”, no Brasil) é mais um projeto baseado na vida do pensador.

Aluno promissor em Cambridge, Hawking (Eddie Redmayne) descobriu, no auge dos vinte e poucos anos, ser portador de Esclerose Lateral Amiotrófica, uma doença degenerativa. De acordo com os médicos, lhe restavam dois anos de vida. Desafiando todas as estimativas, Stephen não só sobreviveu, como produziu algumas das maiores obras da ciência contemporânea. 

A Teoria de Tudo retrata o cientista através dos anos em que passou casado com Jane Hawking (Felicity Jones), namorada dos tempos de estudante. Jane, que conheceu o teórico antes do diagnóstico, foi parte fundamental do processo de adaptação de Stephen à doença, dividindo-se entre dedicar-se ao marido e criar os filhos.

A ideia de traçar a cinebiografia por meio da relação do casal é interessante. No entanto, o roteiro, baseado em Travelling to Infinity, livro escrito por Jane, enfrenta dificuldades para sair da zona de conforto. Rasa, a abordagem de questões como sexo, gravidez e adultério deixa a desejar, criando a sensação de que a dupla vive em um paraíso inabalável onde qualquer problema é resolvido sem maiores conflitos. 

Quem vai ao cinema em busca de uma análise profunda sobre como o escritor lidou com um corpo que aos poucos lhe deixara pra trás pode se decepcionar. Construído majoritariamente através do ponto de vista de Jane, a trama não explora as lutas internas de Hawking. Ao invés disso, a narração foca na deterioração do relacionamento, nos romances extra-conjugais e no papel da esposa durante a ascensão do marido. 

Se há algo a ressaltar, é Eddie Redmayne. O ator caiu nas graças da crítica. Não sem motivo. A performance do britânico é daquelas pra levar na memória. Sem escorregar um minuto, Redmayne traz à tona um Hawking que não só faz jus ao original, como é infinitamente melhor que qualquer outra representação antes vista do físico. Figurinha confirmada na temporada de premiações.

James Marsh troca a irreverência que o consagrou em O Equilibrista pela segurança de um filme calculado. Tudo é bem trabalhado, da trilha sonora original à edição, porém, o diretor que brinca com a adrenalina em um dos documentários mais inquietantes dos últimos anos, deixa de lado a corda bamba e assume o volante de um utilitário (com air bag incluído).

Enquanto Hawking representa ir além do esperado, A Teoria de Tudo repousa no previsível. Emociona? Sim. Mas, pra quem tinha nas mãos o Universo, é uma pena que o produto final não seja mais do que algumas estrelas.

 

Boa Sorte

image

  • Ano de Lançamento: 2014
  • País: Brasil
  • Língua: Português
  • Título Original: “Boa Sorte”
  • Diretor:  Carolina Jabor
  • Avaliação: Qual era mesmo?

A proposta de Boa Sorte, primeiro longa de ficção da diretora Carolina Jabor, é interessante: o relacionamento entre dois pacientes em uma clínica de reabilitação. Judite, na casa dos trinta, HIV positiva, já fez uso de todos os tipos de droga no catálogo; João, aos dezessete, é viciado em uma mistura de calmante e Fanta laranja.

Baseado em um conto de Jorge Furtado, o filme acompanha de perto a paixão entre os dois pacientes. Enquanto Judite (Deborah Secco) se despede da vida, João (João Pedro Zappa) começa a entendê-la. Antes invisível (uma metáfora bastante explorada durante a trama) para a família e amigos, o garoto encontra na colega de internação a atenção que lhe fora negada. A intensidade da relação é atenuada pela realidade do confinamento em que vivem e as limitações que lhe são impostas.  O casal passeia pelos corredores melancólicos, tem longas conversas à beira de uma piscina imunda e observa as famílias caminharem pelo jardim nos dias de visita.

Déborah Secco mergulhou de cabeça na experiência. No processo de preparação, perdeu mais de dez quilos. Valeu a pena. A atriz tem uma das melhores performances de sua carreira na pele de Judite. Crível, Secco se despe de pudores (literalmente) para dar vida a uma personagem desafiadora, quiçá ainda mais complicada de se construir em tela do que a garota de programa Bruna Surfistinha, papel no sucesso homônimo de 2011.  

João Pedro Zappa deixa a desejar. No mar de possibilidades oferecidas por um personagem como João, o ator se manteve em uma linha constante, sem grandes oscilações. Nos momentos mais tensos, a atuação é exagerada. O protagonista foi ofuscado pelo excelente Pablo Sanábio, que interpreta Felipe, um dos residentes da clínica. Felipe carrega a carga cômica do filme e o faz com maestria. Sempre que aparece em tela, entretém o espectador com a dose certa de carisma e talento, coisa de quem sabe bem o que faz. Pena que desaparece por grande parte do filme.

Boa Sorte tem boas pretensões, e poderia ter dado certo se não fosse a terceira parte. O início promete algo que a trama não cumpre, pois se desvia da atmosfera dos primeiros momentos ao mergulhar em longos diálogos, clichês e explicações demais. A boa reflexão é diluída pelo roteiro mal trabalhado, que caminha pra um desfecho desastroso, comprometendo o projeto inteiro. 

A narrativa poderia ter se concentrado mais na linguagem visual do que verbal. Algumas das cenas são lindas, como o momento em que os pacientes dançam pelos corredores da clínica, uma das cenas mais bonitas que assisti esse ano. Porém, a trama é incapaz de manter esse nível, derrubada por comos, quandos e porquês desnecessários.

Entre mortos e feridos, salvam-se alguns. Boa Sorte é uma faísca, que nos faz pensar no potencial do cinema brasileiro atual como um todo. É o primeiro passo para um caminho promissor. Talvez precise seguir a protagonista e se despir, perceber que menos é mais. E que venha o próximo trabalho de Jabor, a quem eu desejo toda a sorte.