Sniper Americano

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Do cano da arma de Chris Kyle, saíram as balas responsáveis por matar cerca de cento e sessenta pessoas, tornando-o o franco atirador mais letal da história do exército americano. A lenda, como ficou conhecido na força de operações especiais da Marinha dos Estados Unidos, narrou suas memórias no livro Sniper Americano, levado às telas por Clint Eastwood.

Boa Sorte

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  • Ano de Lançamento: 2014
  • País: Brasil
  • Língua: Português
  • Título Original: “Boa Sorte”
  • Diretor:  Carolina Jabor
  • Avaliação: Qual era mesmo?

A proposta de Boa Sorte, primeiro longa de ficção da diretora Carolina Jabor, é interessante: o relacionamento entre dois pacientes em uma clínica de reabilitação. Judite, na casa dos trinta, HIV positiva, já fez uso de todos os tipos de droga no catálogo; João, aos dezessete, é viciado em uma mistura de calmante e Fanta laranja.

Baseado em um conto de Jorge Furtado, o filme acompanha de perto a paixão entre os dois pacientes. Enquanto Judite (Deborah Secco) se despede da vida, João (João Pedro Zappa) começa a entendê-la. Antes invisível (uma metáfora bastante explorada durante a trama) para a família e amigos, o garoto encontra na colega de internação a atenção que lhe fora negada. A intensidade da relação é atenuada pela realidade do confinamento em que vivem e as limitações que lhe são impostas.  O casal passeia pelos corredores melancólicos, tem longas conversas à beira de uma piscina imunda e observa as famílias caminharem pelo jardim nos dias de visita.

Déborah Secco mergulhou de cabeça na experiência. No processo de preparação, perdeu mais de dez quilos. Valeu a pena. A atriz tem uma das melhores performances de sua carreira na pele de Judite. Crível, Secco se despe de pudores (literalmente) para dar vida a uma personagem desafiadora, quiçá ainda mais complicada de se construir em tela do que a garota de programa Bruna Surfistinha, papel no sucesso homônimo de 2011.  

João Pedro Zappa deixa a desejar. No mar de possibilidades oferecidas por um personagem como João, o ator se manteve em uma linha constante, sem grandes oscilações. Nos momentos mais tensos, a atuação é exagerada. O protagonista foi ofuscado pelo excelente Pablo Sanábio, que interpreta Felipe, um dos residentes da clínica. Felipe carrega a carga cômica do filme e o faz com maestria. Sempre que aparece em tela, entretém o espectador com a dose certa de carisma e talento, coisa de quem sabe bem o que faz. Pena que desaparece por grande parte do filme.

Boa Sorte tem boas pretensões, e poderia ter dado certo se não fosse a terceira parte. O início promete algo que a trama não cumpre, pois se desvia da atmosfera dos primeiros momentos ao mergulhar em longos diálogos, clichês e explicações demais. A boa reflexão é diluída pelo roteiro mal trabalhado, que caminha pra um desfecho desastroso, comprometendo o projeto inteiro. 

A narrativa poderia ter se concentrado mais na linguagem visual do que verbal. Algumas das cenas são lindas, como o momento em que os pacientes dançam pelos corredores da clínica, uma das cenas mais bonitas que assisti esse ano. Porém, a trama é incapaz de manter esse nível, derrubada por comos, quandos e porquês desnecessários.

Entre mortos e feridos, salvam-se alguns. Boa Sorte é uma faísca, que nos faz pensar no potencial do cinema brasileiro atual como um todo. É o primeiro passo para um caminho promissor. Talvez precise seguir a protagonista e se despir, perceber que menos é mais. E que venha o próximo trabalho de Jabor, a quem eu desejo toda a sorte. 

“Trash: A Esperança Vem do Lixo”

  • Ano de Lançamento: 2014
  • País: Brasil/Reino Unido
  • Língua: Português/Inglês
  • Título Original: “Trash: A Esperança Vem do Lixo”
  • Diretor:  Stephen Daldry
  • Avaliação: Pra parar e refletir

É em meio à imundice de Behala, um lixão em uma cidade fictícia, que Andy Mulligan ambienta o suspense literário “Trash”. Stephen Daldry não dá nome aos bois, mas faz do Rio de Janeiro sua Behala, em “Trash: A Esperança Vem do Lixo”, adaptação encarregada de encerrar o Festival do Rio 2014.

É no meio de mais um dia de trabalho no lixão que Raphael (Rickson Tevez), um garoto de 14 anos, encontra uma carteira perdida. Dentro dela, o menino encontra não só dinheiro, como a pista inicial para uma caça ao tesouro. Junto aos amigos Gardo (Eduardo Luis) e Rato (Gabriel Weinstein), Raphael parte em busca de terminar o que José Angelo (Wagner Moura), dono da carteira, começou.

A busca passa de curiosidade à situação de perigo quando o policial Frederico (Selton Mello) demonstra um interesse especial pelos três meninos. Logo, o trio descobre que tem em mãos a chave para desvendar um caso de corrupção envolvendo o então candidato a prefeito do Rio de Janeiro, Antonio Santos (Stepan Nercessian). Decididos a “fazer o certo”, os meninos seguem as pistas encontradas na carteira rumo a prisões, estações de trem movimentadas e cemitérios.

O livro narra uma aventura protagonizada por três meninos que se tornam heróis diante de circunstâncias anormais, já o filme adapta a estória para uma trama de escândalos políticos e corrupção. O papel de herói passa a ser de José Angelo, que pouco aparece em cena, mas é quase canonizado pela narração. É inegável, no entanto, que a escolha do trio de protagonistas foi muito bem executada. A decisão, à lá Fernando Meirelles (não à toa, já que o filme é uma co-produção da O2, de Meirelles), de estrelar o filme com três atores de primeira viagem é interessante, e o resultado funciona.

O elenco conta com dois grandes brasileiros: Wagner Moura e Selton Mello. Moura absurdamente melhor que Mello, apesar da diferença de tempo em cena. Em alguns momentos é difícil não se perguntar se a inversão dos papéis não seria uma escolha mais inteligente. Talvez fosse… Ou talvez produzisse um Capitão Nascimento: Reloaded. Quem sabe. A promissora Rooney Mara (espetacular em “Millenium”) e o grande Martin Sheen são presos a dois papéis insossos, sem muita abertura para grandes interpretações.

A direção de arte é minuciosa. Toda a área do lixão foi criada exclusivamente para o filme. O produto apresentado em tela impressiona. A trilha sonora não foge do be-a-bá-filme-rodado-no-Brasil, triste, pois o suspense poderia ter sido embalado por uma série de canções mais bem pensadas.

É inegável a absurda falta de trabalho do roteiro. Nas mãos de Richard Curtis – consagrado por obras como “Simplesmente Amor” e “Um Lugar Chamado Notting Hill” – e do brasileiro Felipe Braga, o roteiro se perde pra se perder de novo, em uma sucessão de clichês rasos e brechas para questionamentos do espectador. Os quinze minutos finais são um espetáculo do improvável, dignos de gargalhadas desconfortáveis.

Apesar dos pesares, “Trash: A Esperança Vem Do Lixo” é filme pra se ver. Exemplifica o que o Festival do Rio nos disse esse ano: “todos os olhares do mundo no Rio”. Um olhar estrangeiro sobre tudo aquilo que já nos é intrínseco, e que assistimos e assistimos em filmes como “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”. É… O produto nacional é melhor que o importado, mas essa já é outra discussão.