Relato de uma cinéfila em Londres

Passei o primeiro semestre de 2015 em Londres, um sonho antigo. Já tinha visitado a cidade por outras duas vezes, e – mesmo ficando poucos dias – fiz questão de dar umas voltas pelos cinemas da cidade. Turistando, meio sem grana e sem tempo, conheci o básico do básico, mas quando pintou a chance de morar lá por um tempinho agarrei a oportunidade de perambular por entre os cinemas independentes, os cineclubes e pequenas salas escondidas em grandes campus de faculdades.

No meu segundo dia na cidade, já tinha meu cartão de afiliação do Prince Charles Cinema, de longe meu cinema favorito em Londres. Uma membership no PCC custa dez libras anuais ou cinquenta vitalícias e garante filmes semanais por uma libra, além de sessões diárias por quatro. O cinema tem jeito de casa e uma programação espetacular, com maratonas que duram uma noite, festas do pijama e sing-alongs. Além disso, a equipe é super atenciosa, a ponto de colocar seu filme favorito na telona caso você mande um email legal.

The day I got to see my favourite film on the big screen: an ode to the PCC

image

The first time I watched my favourite film I was around eight-years-old. It was a curious age considering that my favourite film is Harold and Maude, a love story between a 17 year-old guy and an 80 year-old lady. My then still pure mind found that story the most beautiful thing in the world and since that day I’ve been watching it at least once a month. What my eight-year-old self didn’t realise back then was that Harold and Maude was released in the 70’s, which means – in Brazil, at least – I would probably never get to see it on the big screen.

“A Recompensa”

image

  • Ano de lançamento: 2013
  • País: Reino Unido
  • Língua: Inglês
  • Título original: “Dom Hemingway”
  • Diretor: Richard Shepard
  • Avaliação: Qual era mesmo?

“Dom Hemingway” chega ao Brasil como “A Recompensa”. Uma pena. O longa, escrito e dirigido por Richard Shepard, não poderia perder seu título original. O filme conta a história de Dom Hemingway (Jude Law), excêntrico pilantra que passou doze anos preso por escolher não delatar um poderoso mafioso russo.

Ao sair da prisão após longos doze anos, Dom Hemingway se vê fora de forma, não tão ágil quanto nos anos de ouro, viúvo de uma esposa vítima de câncer e desprezado pela filha única. O único consolo do trapaceiro é a recompensa que espera de Mr. Fontaine (Demian Bichir), chefe da máfia para quem trabalhava e responsável pelos anos que passou na cadeia.

Ao lado do melhor amigo e parceiro, Dickie (Richard E. Grant), Dom vai à França, rumo à mansão do antigo chefe, pra buscar o dinheiro que lhe foi prometido. É aí que tem início seu festival de azares. Uma crise emocional, um acidente de carro e um furto infeliz. Desolado, Dom retorna à Londres natal, disposto a encontrar uma maneira de fazer as pazes com a filha que não vê desde que foi preso.

“A Recompensa” é divertido, mas longe de ser brilhante. O roteiro tenta construir um circo à altura do personagem principal, mas acaba por entregar um pout-pourri de situações mirabolantes e por muitas vezes mal resolvidas. Quando o filme parece assumir um caminho, se desvia rapidamente para o próximo conflito, deixando o anterior inconcluso. Shepard escorrega também em certas escolhas de direção, como a divisão do filme em capítulos, opção curiosa e que não cai muito bem à trama.  

Ainda que falho, o filme ganha pela sensacional atuação de Jude Law. A primeira cena, um monólogo de mais de três minutos sobre a perfeição do próprio pênis, é o aperitivo ideal para um cardápio completo de bizarrices acerca do protagonista. Se em “Alfie” outro filme em que interpreta o personagem-título, Law é um galã sedutor e envolvente, em “A Recompensa” o ator se transveste por inteiro, entregando ao espectador um esdrúxulo canastrão, orgulhoso não só da genitália, mas da calvície aparente e da barriguinha saliente que ostenta. Ao lado de Law está um ótimo Richard E. Grant. Coeso, o ator contrabalança a extravagância de Hemingway na pele do racional (na medida do possível) Dickie.

“A Recompensa” é o tipo de filme que não machuca ninguém, bom pra se assistir em uma sexta-feira com amigos. Construído por uma série de itens com gosto de “já vi antes”, a trama não vai muito além do arroz com feijão cinematográfico. Apesar do roteiro fraco e da direção duvidosa, Dom Hemingway acaba por nos entregar enfim, uma recompensa: Jude Law. Não posso reclamar.