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Garotas

Girlhood film - 2015

Em uma das cenas mais bonitas do cinema em 2014, quatro garotas dançam ao som de Rihanna em um quarto de motel barato iluminado em tons de azul. O rito de passagem marca o momento em que Marieme torna-se Vic, membro de uma gangue feminina de um conjunto habitacional francês.

Ao ser reprovada na escola pela terceira vez seguida, Marieme se vê presa em um beco sem saída. A família de quatro filhos e mãe solteira se amontoa em uma quantidade ínfima de metros quadrados cujo rei, o irmão mais velho, se mantém no trono de maneira abusiva. Quando um trio de garotas da área lhe estende a mão, a jovem se conforma com uma rotina de pequenos delitos em troca da aceitação sem grandes questionamentos.

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“La Sapienza”

  • Ano de Lançamento: 2014
  • País: França
  • Língua: Francês/Italiano
  • Título Original: “La Sapienza”
  • Diretor:  Eugène Green
  • Avaliação: A Arbez

Sair em viagem a fim de tentar resolver os problemas acumulados no cotidiano. É dessa premissa que partem dezenas de filmes e é dessa premissa que parte “La Sapienza”, novo filme do diretor Eugène Green.

Alexandre (Fabrizio Rongione), um arquiteto francês, frustra-se com as limitações impostas pelos desejos da arquitetura moderna. A esposa, Aliénor (Christelle Prot), arrasta-se pelos encontros de trabalho sem qualquer motivação. Os dois reúnem-se em jantares vazios e obrigações impostas por um casamento falido. Quando Alexandre resolve partir pela Itália em busca de inspiração nas obras de seus ídolos, Guarini e Borromini, Aliénor decide acompanha-lo e quebrar a rotina maçante do casal.

A primeira parada é a bucólica Stresa, uma pequena cidade à beira-mar. Lá, o casal esbarra com os irmãos Goffredo (Ludovico Succio) e Lavínia (Arianna Nastro), um futuro estudante de arquitetura e uma jovem enferma. A partir desse encontro, a viagem bifurca-se: Alexandre segue a viagem na companhia de Goffredo, mestre e aprendiz percorrendo os roteiros arquitetônicos italianos; Aliénor permanece em Stresa, atraída a compreender e acalentar a fragilidade de Lavínia.

A estética do filme de Green é primorosa. A composição simétrica, os personagens sempre em primeiro plano, no centro da tela, olhares voltados para o espectador. O trabalho de câmera, quase uma aula de cinema. O embasamento histórico é tão intrinsicamente ligado ao enredo que assume a forma de personagem.

As cidades italianas tiram o fôlego do espectador, assim como a fotografia muito bem conduzida pelo antigo parceiro do diretor, Raphaël O’Byrne. A trilha sonora veste as imagens como uma luva. Um filme produzido milimetricamente.

Além da construção imagética, “La Sapienza” conta com excelente elenco. A rigidez de Ronglone, contraposta à melancolia da belíssima Christelle Plot. Aliás, destaque para Prot, que prende os olhares do espectador cada vez que entra em cena. A aposta nos novatos Ludovico Succio e Arianna Nastro é inteligente, fresca e – por muitas vezes – capaz tanto de suavizar quanto de intensificar a interação entre a dupla de protagonistas.

Apesar da bela composição, “La Sapienza” tropeça no roteiro. A proposta inicial, relacionar a arquitetura, o aproveitamento do espaço e da luz, à sabedoria é interessante. Porém mal desenvolvida. A linha narrativa é inconstante e o filme alastra-se em diálogos longos recheados de clichês. A força da linguagem estética é diluída pela inconsistência da estória. O rigor com que são dirigidos os personagens é inicialmente incômodo e, seria digest se acompanhado por um bom texto, o que não acontece. Como diretor, Green entrega um belo filme, como roteirista, falha brutalmente.

“O que há além da beleza e da ciência?”, o filme propõe-se a responder. A beleza é inegavelmente vista em tela; a ciência está ali através da decomposição das obras dos grandes mestres barrocos. É. O que há, enfim, além da beleza e da ciência, Green? Talvez seja uma boa estória. 

“A Recompensa”

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  • Ano de lançamento: 2013
  • País: Reino Unido
  • Língua: Inglês
  • Título original: “Dom Hemingway”
  • Diretor: Richard Shepard
  • Avaliação: Qual era mesmo?

“Dom Hemingway” chega ao Brasil como “A Recompensa”. Uma pena. O longa, escrito e dirigido por Richard Shepard, não poderia perder seu título original. O filme conta a história de Dom Hemingway (Jude Law), excêntrico pilantra que passou doze anos preso por escolher não delatar um poderoso mafioso russo.

Ao sair da prisão após longos doze anos, Dom Hemingway se vê fora de forma, não tão ágil quanto nos anos de ouro, viúvo de uma esposa vítima de câncer e desprezado pela filha única. O único consolo do trapaceiro é a recompensa que espera de Mr. Fontaine (Demian Bichir), chefe da máfia para quem trabalhava e responsável pelos anos que passou na cadeia.

Ao lado do melhor amigo e parceiro, Dickie (Richard E. Grant), Dom vai à França, rumo à mansão do antigo chefe, pra buscar o dinheiro que lhe foi prometido. É aí que tem início seu festival de azares. Uma crise emocional, um acidente de carro e um furto infeliz. Desolado, Dom retorna à Londres natal, disposto a encontrar uma maneira de fazer as pazes com a filha que não vê desde que foi preso.

“A Recompensa” é divertido, mas longe de ser brilhante. O roteiro tenta construir um circo à altura do personagem principal, mas acaba por entregar um pout-pourri de situações mirabolantes e por muitas vezes mal resolvidas. Quando o filme parece assumir um caminho, se desvia rapidamente para o próximo conflito, deixando o anterior inconcluso. Shepard escorrega também em certas escolhas de direção, como a divisão do filme em capítulos, opção curiosa e que não cai muito bem à trama.  

Ainda que falho, o filme ganha pela sensacional atuação de Jude Law. A primeira cena, um monólogo de mais de três minutos sobre a perfeição do próprio pênis, é o aperitivo ideal para um cardápio completo de bizarrices acerca do protagonista. Se em “Alfie” outro filme em que interpreta o personagem-título, Law é um galã sedutor e envolvente, em “A Recompensa” o ator se transveste por inteiro, entregando ao espectador um esdrúxulo canastrão, orgulhoso não só da genitália, mas da calvície aparente e da barriguinha saliente que ostenta. Ao lado de Law está um ótimo Richard E. Grant. Coeso, o ator contrabalança a extravagância de Hemingway na pele do racional (na medida do possível) Dickie.

“A Recompensa” é o tipo de filme que não machuca ninguém, bom pra se assistir em uma sexta-feira com amigos. Construído por uma série de itens com gosto de “já vi antes”, a trama não vai muito além do arroz com feijão cinematográfico. Apesar do roteiro fraco e da direção duvidosa, Dom Hemingway acaba por nos entregar enfim, uma recompensa: Jude Law. Não posso reclamar.