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(Festival do Rio 2015) The Lobster

Se tem uma palavra que não pode descrever Yorgos Lanthimos é convencional. Conhecido por levar aos limites as mais complicadas convenções sociais, o diretor grego sai do cinema independente da terra Natal rumo à estreia em Hollywood com o não menos controverso The Lobster, uma estória – distorcida – de amor.

Em um futuro distópico não situado cronologicamente, os seres humanos são forçados a viver em casais. Aqueles incapazes de encontrar um parceiro em sociedade, são encaminhados para um hotel onde, com a assistência de um grupo de funcionários e regras extremamente rígidos, convivem com outros solteiros por um determinado tempo à espera de encontrar um par adequado. Para que esses pares se formem, é necessário que duas pessoas compartilhem uma característica em especial, como sangramentos nasais espontâneos ou miopia. Aqueles que, ao final de um período específico não encontrarem um par, são transformados em um animal de sua escolha.

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(Festival do Rio 2015) Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer

Greg (Thomas Mann) é o típico deslocado do colégio: evita o holofote a qualquer custo, quase se afoga na baixa auto estima e não consegue produzir uma frase coesa quando é colocado frente a frente com uma garota popular. Ele e o melhor amigo, Earl (RJ Cyler), passam os dias em frente a uma tela qualquer assistindo filmes estrangeiros e idolatrando Herzog. Juntos, os dois produzem versões caseiras de grandes clássicos do cinema, hobby que compartilham há tempo suficiente pra possuir uma pequena cinemateca.

Quando a mãe de Greg (Connie Britton) descobre que a filha da vizinha está com leucemia, manda o filho passar um tempo com a moça, boa ação da qual o jovem não pode escapar. Como já era de se esperar, a partir dessa ordem materna Greg, Rachel (Olivia Cooke)– e, de vez em quando, Earl – não se desgrudam mais.

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(Festival do Rio 2015) Terão De Nos Matar Primeiro

  • Ano de Lançamento: 2015
  • País: Reino Unido
  • Língua: Francês
  • Título Original: They Will Have To Kill Us First
  • Diretor: Johanna Schwartz
  • Avaliação: A arbez

Em uma sequência inicial promissora, o documentário financiado através do Kickstarter Terão de Nos Matar Primeiro é claro no tema que pretende abordar: a música. Através de um rap em francês, o filme situa o espectador no cenário atual de Mali, cuja região Norte vem sendo palco de conflitos políticos nos últimos quatro anos.

O povo maliano, como muitos outros povos africanos, tem uma relação intrínseca com a música. Como dito em um dos depoimentos no filme, a música acompanha a gente de Mali nos momentos de celebração e luto, alegria e tristeza. Porém, um dos frutos dos conflitos nortenhos em Mali foi a proibição da música na região, decisão que afetou profundamente os locais. O documentário se utiliza de músicos de algumas cidades do Norte, como Timbuktu, para ilustrar o efeito da proibição e quais as maneiras encontradas pelo povo para combatê-la.

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(Festival do Rio 2015) Dora Ou As Neuroses Sexuais De Nossos Pais

  • Ano de Lançamento: 2015
  • País: Alemanha
  • Língua: Alemão
  • Título Original: Dora oder Die sexuellen Neurosen unserer Eltern
  • Diretor: Stina Werenfels
  • Avaliação: Qual era mesmo?

Ao atingir a maioridade, Dora (Victoria Schulz) começa a experimentar a sensação dos primeiros desejos sexuais. Essa manifestação um pouco tardia se deve ao fato de Dora ser portadora de deficiência mental e estar – pela primeira vez na vida – livre das algemas dos comprimidos, cortados pela mãe (Jenny Schilylogo após o aniversário da menina.

Ao flagrar os pais na cama, Dora é apresentada pela primeira vez ao conceito de sexo, ou “pipi na pepeca”, eufemismo concebido pela menina. A partir daí, a moça desenvolve uma certa obsessão pelo assunto, correndo aos prantos ao perceber que os colegas mais próximos namoram, mas ela não; masturbando-se na banheira em frente à mãe e tentando beijar o pai.

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“La Sapienza”

  • Ano de Lançamento: 2014
  • País: França
  • Língua: Francês/Italiano
  • Título Original: “La Sapienza”
  • Diretor:  Eugène Green
  • Avaliação: A Arbez

Sair em viagem a fim de tentar resolver os problemas acumulados no cotidiano. É dessa premissa que partem dezenas de filmes e é dessa premissa que parte “La Sapienza”, novo filme do diretor Eugène Green.

Alexandre (Fabrizio Rongione), um arquiteto francês, frustra-se com as limitações impostas pelos desejos da arquitetura moderna. A esposa, Aliénor (Christelle Prot), arrasta-se pelos encontros de trabalho sem qualquer motivação. Os dois reúnem-se em jantares vazios e obrigações impostas por um casamento falido. Quando Alexandre resolve partir pela Itália em busca de inspiração nas obras de seus ídolos, Guarini e Borromini, Aliénor decide acompanha-lo e quebrar a rotina maçante do casal.

A primeira parada é a bucólica Stresa, uma pequena cidade à beira-mar. Lá, o casal esbarra com os irmãos Goffredo (Ludovico Succio) e Lavínia (Arianna Nastro), um futuro estudante de arquitetura e uma jovem enferma. A partir desse encontro, a viagem bifurca-se: Alexandre segue a viagem na companhia de Goffredo, mestre e aprendiz percorrendo os roteiros arquitetônicos italianos; Aliénor permanece em Stresa, atraída a compreender e acalentar a fragilidade de Lavínia.

A estética do filme de Green é primorosa. A composição simétrica, os personagens sempre em primeiro plano, no centro da tela, olhares voltados para o espectador. O trabalho de câmera, quase uma aula de cinema. O embasamento histórico é tão intrinsicamente ligado ao enredo que assume a forma de personagem.

As cidades italianas tiram o fôlego do espectador, assim como a fotografia muito bem conduzida pelo antigo parceiro do diretor, Raphaël O’Byrne. A trilha sonora veste as imagens como uma luva. Um filme produzido milimetricamente.

Além da construção imagética, “La Sapienza” conta com excelente elenco. A rigidez de Ronglone, contraposta à melancolia da belíssima Christelle Plot. Aliás, destaque para Prot, que prende os olhares do espectador cada vez que entra em cena. A aposta nos novatos Ludovico Succio e Arianna Nastro é inteligente, fresca e – por muitas vezes – capaz tanto de suavizar quanto de intensificar a interação entre a dupla de protagonistas.

Apesar da bela composição, “La Sapienza” tropeça no roteiro. A proposta inicial, relacionar a arquitetura, o aproveitamento do espaço e da luz, à sabedoria é interessante. Porém mal desenvolvida. A linha narrativa é inconstante e o filme alastra-se em diálogos longos recheados de clichês. A força da linguagem estética é diluída pela inconsistência da estória. O rigor com que são dirigidos os personagens é inicialmente incômodo e, seria digest se acompanhado por um bom texto, o que não acontece. Como diretor, Green entrega um belo filme, como roteirista, falha brutalmente.

“O que há além da beleza e da ciência?”, o filme propõe-se a responder. A beleza é inegavelmente vista em tela; a ciência está ali através da decomposição das obras dos grandes mestres barrocos. É. O que há, enfim, além da beleza e da ciência, Green? Talvez seja uma boa estória.