festival do rio 2014

“O Juiz”

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Susan Downey deixou o posto de Co-Presidente da Dark Castle Entertainment e VP Executiva de Produção na Silver Pictures para trabalhar mais perto do marido, Robert Downey Jr. Juntos, fundaram a Team Downey, produtora que lança agora o primeiro filme, O Juiz, drama que procura retomar a glória dos saudosos filmes de tribunal.

A trama segue a relação conturbada entre o advogado de sucesso Hank Palmer (Robert Downey Jr.), e seu pai, Joseph Palmer (Robert Duvall), o prestigiado juiz de uma cidadezinha de interior nos Estados Unidos. Quando a matriarca dos Palmer morre, o filho distante retorna à pequena cidade natal e tem de enfrentar os antigos conflitos familiares. O que era pra ser uma breve estadia se estende quando o juiz é acusado em um complicado caso de assassinato, e vê no filho a única chance de absolvição.

Nos cartazes de divulgação, O Juiz é pintado como o típico filme de tribunal, queridinho dos americanos em tempos passados. Porém, ao sentarmos na poltrona do cinema, logo percebemos que estamos diante de uma mescla de vários subgêneros: o drama familiar, o filho pródigo, e a caricatura do perfil americano de sucesso.

Esculpido em busca de algumas nomeações para o Oscar 2015, a trama tem nas atuações seu grande mérito. O Team Downey acertou em cheio ao escalar Robert Duvall no papel do rigoroso Juiz Palmer. O ganhador do Oscar por A Força do Carinho entrega uma atuação digna de uma sétima indicação ao prêmio. Duvall alcança o espectador ao retratar o processo de degradação física e mental daquele que um dia possuiu uma cidade inteira em suas mãos. O austero Juiz Palmer sai das bancadas para uma banheira, imundo, vencido, em uma batalha que vai muito além dos tribunais.

Robert Downey Jr. é… Robert Downey Jr. O ator vem se especializando há algum tempo em um tipo pré-moldado de personagem. E funciona. O espectador espera da estrela de Hollywood uma atuação recheada de ironias, piadas sarcásticas e humor ácido, e é isso o que ele entrega, mais uma vez. Em uma versão ligeiramente mais sensível de Tony Stark, Downey mostra uma química certeira com Duvall em tela. As cenas dos dois são de longe as melhores do filme. 

O restante do elenco completa um time muito bem escolhido. Vera Farmiga, na pele de um amor antigo de Hank, é um dos personagens mais gostosos de assistir. Vincent D’Onofrio e Jeremy Strong, os irmãos do advogado, formam uma dupla cativante, em papéis essenciais para uma compreensão total dos dilemas do protagonista. Billy Bob Thornton até tenta, mas não encontra o espaço necessário para se destacar em meio ao conjunto.

O roteiro oscila entre clichês, passagens cômicas e momentos de carga dramática, sem nunca realmente fazer com que o espectador se remexa na cadeira. Sem sair da zona de conforto, O Juiz nos deixa com aquele gostinho de já vi em algum lugar. A estória, vai facilmente cair em lugar comum na nossa memória, mas o trabalho de Duvall, esse vai ser difícil de esquecer.  

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“Garota Exemplar”

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  • Ano de Lançamento: 2014
  • País: Estados Unidos
  • Língua: Inglês
  • Título Original: “Gone Girl”
  • Diretor:  David Fincher
  • Avaliação: Pega a estatueta!

Baseado em um dos best sellers de maior sucesso do últimos tempos, o suspense “Garota Exemplar” caiu como uma luva nas mãos de David Fincher. Na lista dos filmes mais esperados do ano, chegou aos Estados Unidos como líder absoluto de bilheteria, além de ser um sucesso de crítica em Festivais ao redor do mundo.

Nick (Ben Afflecke Amy (Rosamund PikeDunne formavam o casal perfeito: bonitos, jovens, bem sucedidos, morando em um apartamento confortável em Nova Iorque. Quando a mãe de Nick adoece por conta de um câncer, Amy se vê em um carro rumo a uma nova vida no Missouri, terra natal do marido. A partir daí, o relacionamento dos dois se desgasta. No quinto aniversário de casamento, Nick chega em casa para encontrar um lar revirado e uma esposa desaparecida.

O desaparecimento de Amy comove o país. Logo, a garota exemplar se torna a queridinha da América, razão de vigílias, centros de voluntários e especiais de televisão. Nick se vê perdido no olho do furacão Amy. Catártico, sem aparentar grande entusiasmo com o sumiço da esposa, ele veste a carapuça de marido assassino e se torna o principal suspeito do caso.

O filme é contado sob duas perspectivas. O presente é narrado por Nick, enquanto este tenta equilibrar os malabares da opinião pública e policial para provar sua inocência; o passado é narrado pelo diário de Amy, que leva o espectador através da montanha-russa que é seu casamento, do conto de fadas ao thriller psicológico. O jogo de ele-disse-ela-disse cria a atmosfera de tensão necessária para ambientar o suspense.

Ter Gillian Flynn, autora do livro, como roteirista, é inteligente. As reviravoltas do best seller são mantidas na adaptação, guiadas pelo olhar de Fincher. O diretor une-se mais uma vez ao editor Kirk Baxter, resultando em uma montagem espetacular. O trabalho de edição é primoroso, mesclando as duas narrações sem perder quem assiste, criando uma linha do tempo bastante eficaz.

Ben Affleck é o Nick ideal. O comportamento passivo do marido pede por um ator como Affleck, que mostra pouca (ou nenhuma) expressividade facial, resignado na medida do personagem. O perfeito marido emasculado. Rosamund Pike tem em Amy o papel de sua carreira. A esposa carinhosa, a mulher sensual, a pior inimiga. Todos os papéis dentro de uma mesma personagem interpretados magistralmente. Não me surpreenderia ver o nome de Pike nas grandes premiações em 2015.

Me fez falta a potência visual característica de Fincher. “Garota Exemplar” é milimetricamente calculado, mas sem grandes ousadias. A fotografia acompanha as fases do casal, tons frios para os momentos de distância, tons quentes para o romance aparentemente inabalável. Tudo muito bem feito, mas quando o nome de Fincher está no meio de um projeto, se espera muito mais.

Não existe casal perfeito. O relacionamento de Nick e Amy Dunne é desconstruído em tela para mostrar que nem mesmo um par com tudo pra dar certo escapa dos problemas típicos do matrimônio. David Fincher nos guia através de uma jornada pelos instintos humanos em uma trama que faz com que o espectador se remexa na poltrona. Talvez o que nos inquiete afinal de contas seja saber que, dos insucessos da vida, todos somos reféns. 

“Trash: A Esperança Vem do Lixo”

  • Ano de Lançamento: 2014
  • País: Brasil/Reino Unido
  • Língua: Português/Inglês
  • Título Original: “Trash: A Esperança Vem do Lixo”
  • Diretor:  Stephen Daldry
  • Avaliação: Pra parar e refletir

É em meio à imundice de Behala, um lixão em uma cidade fictícia, que Andy Mulligan ambienta o suspense literário “Trash”. Stephen Daldry não dá nome aos bois, mas faz do Rio de Janeiro sua Behala, em “Trash: A Esperança Vem do Lixo”, adaptação encarregada de encerrar o Festival do Rio 2014.

É no meio de mais um dia de trabalho no lixão que Raphael (Rickson Tevez), um garoto de 14 anos, encontra uma carteira perdida. Dentro dela, o menino encontra não só dinheiro, como a pista inicial para uma caça ao tesouro. Junto aos amigos Gardo (Eduardo Luis) e Rato (Gabriel Weinstein), Raphael parte em busca de terminar o que José Angelo (Wagner Moura), dono da carteira, começou.

A busca passa de curiosidade à situação de perigo quando o policial Frederico (Selton Mello) demonstra um interesse especial pelos três meninos. Logo, o trio descobre que tem em mãos a chave para desvendar um caso de corrupção envolvendo o então candidato a prefeito do Rio de Janeiro, Antonio Santos (Stepan Nercessian). Decididos a “fazer o certo”, os meninos seguem as pistas encontradas na carteira rumo a prisões, estações de trem movimentadas e cemitérios.

O livro narra uma aventura protagonizada por três meninos que se tornam heróis diante de circunstâncias anormais, já o filme adapta a estória para uma trama de escândalos políticos e corrupção. O papel de herói passa a ser de José Angelo, que pouco aparece em cena, mas é quase canonizado pela narração. É inegável, no entanto, que a escolha do trio de protagonistas foi muito bem executada. A decisão, à lá Fernando Meirelles (não à toa, já que o filme é uma co-produção da O2, de Meirelles), de estrelar o filme com três atores de primeira viagem é interessante, e o resultado funciona.

O elenco conta com dois grandes brasileiros: Wagner Moura e Selton Mello. Moura absurdamente melhor que Mello, apesar da diferença de tempo em cena. Em alguns momentos é difícil não se perguntar se a inversão dos papéis não seria uma escolha mais inteligente. Talvez fosse… Ou talvez produzisse um Capitão Nascimento: Reloaded. Quem sabe. A promissora Rooney Mara (espetacular em “Millenium”) e o grande Martin Sheen são presos a dois papéis insossos, sem muita abertura para grandes interpretações.

A direção de arte é minuciosa. Toda a área do lixão foi criada exclusivamente para o filme. O produto apresentado em tela impressiona. A trilha sonora não foge do be-a-bá-filme-rodado-no-Brasil, triste, pois o suspense poderia ter sido embalado por uma série de canções mais bem pensadas.

É inegável a absurda falta de trabalho do roteiro. Nas mãos de Richard Curtis – consagrado por obras como “Simplesmente Amor” e “Um Lugar Chamado Notting Hill” – e do brasileiro Felipe Braga, o roteiro se perde pra se perder de novo, em uma sucessão de clichês rasos e brechas para questionamentos do espectador. Os quinze minutos finais são um espetáculo do improvável, dignos de gargalhadas desconfortáveis.

Apesar dos pesares, “Trash: A Esperança Vem Do Lixo” é filme pra se ver. Exemplifica o que o Festival do Rio nos disse esse ano: “todos os olhares do mundo no Rio”. Um olhar estrangeiro sobre tudo aquilo que já nos é intrínseco, e que assistimos e assistimos em filmes como “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”. É… O produto nacional é melhor que o importado, mas essa já é outra discussão.

“La Sapienza”

  • Ano de Lançamento: 2014
  • País: França
  • Língua: Francês/Italiano
  • Título Original: “La Sapienza”
  • Diretor:  Eugène Green
  • Avaliação: A Arbez

Sair em viagem a fim de tentar resolver os problemas acumulados no cotidiano. É dessa premissa que partem dezenas de filmes e é dessa premissa que parte “La Sapienza”, novo filme do diretor Eugène Green.

Alexandre (Fabrizio Rongione), um arquiteto francês, frustra-se com as limitações impostas pelos desejos da arquitetura moderna. A esposa, Aliénor (Christelle Prot), arrasta-se pelos encontros de trabalho sem qualquer motivação. Os dois reúnem-se em jantares vazios e obrigações impostas por um casamento falido. Quando Alexandre resolve partir pela Itália em busca de inspiração nas obras de seus ídolos, Guarini e Borromini, Aliénor decide acompanha-lo e quebrar a rotina maçante do casal.

A primeira parada é a bucólica Stresa, uma pequena cidade à beira-mar. Lá, o casal esbarra com os irmãos Goffredo (Ludovico Succio) e Lavínia (Arianna Nastro), um futuro estudante de arquitetura e uma jovem enferma. A partir desse encontro, a viagem bifurca-se: Alexandre segue a viagem na companhia de Goffredo, mestre e aprendiz percorrendo os roteiros arquitetônicos italianos; Aliénor permanece em Stresa, atraída a compreender e acalentar a fragilidade de Lavínia.

A estética do filme de Green é primorosa. A composição simétrica, os personagens sempre em primeiro plano, no centro da tela, olhares voltados para o espectador. O trabalho de câmera, quase uma aula de cinema. O embasamento histórico é tão intrinsicamente ligado ao enredo que assume a forma de personagem.

As cidades italianas tiram o fôlego do espectador, assim como a fotografia muito bem conduzida pelo antigo parceiro do diretor, Raphaël O’Byrne. A trilha sonora veste as imagens como uma luva. Um filme produzido milimetricamente.

Além da construção imagética, “La Sapienza” conta com excelente elenco. A rigidez de Ronglone, contraposta à melancolia da belíssima Christelle Plot. Aliás, destaque para Prot, que prende os olhares do espectador cada vez que entra em cena. A aposta nos novatos Ludovico Succio e Arianna Nastro é inteligente, fresca e – por muitas vezes – capaz tanto de suavizar quanto de intensificar a interação entre a dupla de protagonistas.

Apesar da bela composição, “La Sapienza” tropeça no roteiro. A proposta inicial, relacionar a arquitetura, o aproveitamento do espaço e da luz, à sabedoria é interessante. Porém mal desenvolvida. A linha narrativa é inconstante e o filme alastra-se em diálogos longos recheados de clichês. A força da linguagem estética é diluída pela inconsistência da estória. O rigor com que são dirigidos os personagens é inicialmente incômodo e, seria digest se acompanhado por um bom texto, o que não acontece. Como diretor, Green entrega um belo filme, como roteirista, falha brutalmente.

“O que há além da beleza e da ciência?”, o filme propõe-se a responder. A beleza é inegavelmente vista em tela; a ciência está ali através da decomposição das obras dos grandes mestres barrocos. É. O que há, enfim, além da beleza e da ciência, Green? Talvez seja uma boa estória.