O Regresso

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O Regresso, ou O Calvário Do Mais Azarado Dos Caçadores Americanos, novo filme de Alejandro Iñárritu baseado no livro de Michael Punke, é a narrativa visual da saga do caçador Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), que percorre as geladas florestas dos Estados Unidos em busca de vingança. O caçador, deixado à beira da morte pelos companheiros de expedição, precisa lutar contra as limitações do corpo dilacerado por um urso selvagem e os obstáculos impostos pela natureza, numa espécie de mistura entre Into The Wild e Os Oito Odiados.

As redes sociais adotaram DiCaprio e reivindicam a estatueta do ator como se esta fosse a maior injustiça já cometida pela Academia. Eventos no Facebook combinam um encontro na Avenida Atlântica caso o americano leve o Oscar este ano. Uma comoção internacional de proporções inéditas. Pena que essa mobilização se dê justo no ano em que DiCaprio apresenta a mais medíocre de suas performances recentes. Não me entenda mal, Leo é notável. Faz com que torçamos por longos silêncios melancólicos em um blockbuster hollywoodiano, mas, o que apresenta aqui não chega aos pés do que vimos em O Lobo de Wall Street (papel que também lhe rendeu uma indicação) ou Django Livre. Se levar, não é injusto, é somente o carimbo da Academia ao final da página de um atestado antigo de que premia atores certos pelos papéis errados.

Brooklyn

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  • Ano de Lançamento: 2016
  • País: Reino Unido
  • Língua: Inglês
  • Título Original: Brooklyn
  • Diretor: John Crowley
  • Avaliação: Pega a estatueta!

Financiada pela igreja, Eillis (Saoirse Ronandeixa Enniscorthy na Irlanda rumo à Nova Iorque em busca de oportunidades que não encontrara em sua cidade natal. No Brooklyn, bairro adotado pelos irlandeses, a jovem descobre os contratempos de viver como um expatriado, assombrada pela saudade da família e a dificuldade de se adaptar às diferenças culturais.

Não demora muito para que a moça comece a encontrar seu caminho na nova cidade. Estudiosa, leva a sério a oportunidade – também lhe fornecida com a ajuda da Igreja –  de assistir aulas de Contabilidade, e se empenha no emprego em uma loja de departamentos. Tudo entra de vez nos eixos quando Eillis conhece Tony (Emory Cohen), um ítalo-americano por quem se apaixona.

Ex Machina

  • Ano de Lançamento: 2015
  • País: Reino Unido
  • Língua: Inglês
  • Título Original: “Ex Machina”
  • Diretor: Alex Garland
  • Avaliação: Pega a estatueta

Dos conflitos primordiais da esfera humana planta-se a raiz do artificial. Um tema recorrente no cinema volta à tona pelos olhos do diretor estreante Alex Garland em uma espécie de distopia controlada. Um gênio milionário (Oscar Isaac), um tímido programador (Domhnall Gleeson) e Ava (Alicia Vikander), uma forma evoluída de inteligência artificial no molde de uma bela moça de vinte e poucos anos.

Para criar a mais sintética das invenções, Nathan se isola no meio da natureza quase virgem. Ava caminha pelos jardins internos do refúgio do cientista, o tronco mecânico emoldurado por folhas, galhos e raízes. O anfitrião circula do laboratório de paredes alvas e mais alta tecnologia ao pequeno sobrado construído em meio as montanhas, onde senta pra ver o cair das águas. É o natural versus artificial. Na nossa cara. O tempo todo. Só não vê quem não quer.

“Questão de Tempo”

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Responsável por assinar roteiros como “Um Lugar Chamado Notting Hill” e “Quatro Casamentos e um Funeral”, além da direção de filmes como “Simplesmente Amor”, o diretor e roteirista neozelandês Richard Curtis se aventura mais uma vez no gênero da comédia romântica em “Questão de Tempo”.

Tim (Domhnall Gleeson), um desajeitado rapaz sem muita sorte com as garotas, é chamado pelo pai (Bill Nighy) na manhã seguinte a uma frustrada festa de Reveillón. O que parece uma típica conversa entre pai e filho cursa um rumo completamente diferente quando seu pai revela que os homens da família têm a capacidade de viajar no tempo. Tudo o que ele tem de fazer é entrar em um local escuro, cerrar os punhos e imaginar o momento para onde quer voltar.

Após uma reação óbvia de incredulidade, Tim resolve testar seus supostos poderes e voltar à festa da noite passada. Ao abrir os olhos, está de volta ao clima agitado de comemoração, e disposto a consertar os erros que o frustraram no passado. Uma vez convencido, volta ao presente e é questionado por seu pai sobre como pretende usar sua nova habilidade. A resposta é simples e direta: “para conseguir uma garota”. A esta altura, o espectador já sabe que está diante de uma deliciosa comédia romântica a la Curtis.

O pedido do rapaz só é atendido quando, após mudar-se para Londres a fim de trabalhar em uma firma de advocacia, conhece Mary, uma simpática americana que lida com publicação de livros. Com a possibilidade de se redimir dos erros bobos de início de relacionamento, Tim usa suas vantagens para conquistar a americana.

Desde a simpática família de Tim, formada por figuras como a irmã mais nova Kit Kat (Lydia Wilson) e o ingênuo Tio D (Richard Cordery), até seu rabugento companheiro de casa em Londres (Tom Hollander); o filme apresenta personagens deliciosos, que fazem com que o roteiro, que poderia cair no clichê de filme-sessão-da-tarde, siga o caminho oposto, e envolva o espectador durante cada minuto de suas duas horas de duração.

A atuação de Gleeson é a melhor de sua carreira. O público se apaixona instantaneamente por Tim ao vê-lo em sua primeira cena, com uma auto-estima desgastada e um pôster de Amélie Poulain na parede do quarto. Bill Nighy encabeça o excelente elenco, no papel do divertido pai de Tim, responsável por equilibrar a moral da trama e o toque de ironia e humor tipicamente ingleses, construindo alguns dos melhores momentos do filme.

Apesar da temática tantas vezes trabalhada no cinema, “Questão de Tempo” adota uma abordagem natural sobre a viagem temporal. Acompanhamos o divertido protagonista entrar em armários escuros e voltar para momentos como a primeira noite com a garota dos seus sonhos e ajudar seu colega de quarto a vigorar no trabalho. A delícia do filme é descobrir – ao lado de Tim – o valor dos momentos mais ordinários, e atingir com ele a maturidade necessária para se desapegar do “como teria sido”.