“Chef”

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Jon Favreau construiu uma bela carreira ao longo dos últimos anos. A frente do sucesso estrondoso “Homem de Ferro”, o ator/diretor/roteirista/produtor, colocou seu nome sob os holofotes de Hollywood. Em “Chef”, Favreau deixa de lado os grandes blockbusters e se aventura em uma comédia leve e intimista. A aposta estreou no Festival de Tribeca, e teve uma das melhores bilheterias para filmes independentes.

Quando um famoso crítico gastronômico (Oliver Platt) decide visitar o Riva, restaurante onde trabalha o chef Carl Casper (Jon Favreau) a equipe da cozinha investe em um menu diferente para agradar o escritor. No entanto, Riva (Dustin Hoffman), o dono do restaurante, corta as asas do chef e demanda que o menu seja o tradicional be-a-bá do local. A visita do crítico acaba em desastre com um texto detonando a falta de criatividade do menu e o estado de conforto de Casper.

Ao tentar responder o crítico, Carl acaba se tornando um viral na internet. O chef perde o emprego, o restaurante, e o equilíbrio. É então que sua ex-mulher, Inez (Sofía Vergara), o convida a acompanha-la em uma viagem a Miami com o filho do casal, Percy (Emjay Anthony). Inez crê que, ao voltar para a cidade onde começou a carreira, Casper possa encontrar uma maneira de seguir em frente.

Durante a viagem, Carl é exposto à cultura cubana, de presença forte na cidade. Não só a comida, como a música, tornam-se grandes influências para o chef (e para o filme em geral), que decide aceitar a proposta antiga de Inez: abrir um food truck. Surge então o El Jefe, trailer que serve fast food de comida cubana.

A partir daí o filme torna-se um road movie. Carl, Martin (John Leguizamo) – parceiro de longa data do chef – e Percy levam o trailer de cidade a cidade e veem o negócio se tornar um sucesso rapidamente.

É na estrada que os problemas de Casper se resolvem, como manda p ABC de um road movie. O pai ausente aprende a conhecer melhor o filho, o homem que perdeu a mulher tenta reacender o que havia no relacionamento, e o profissional frustrado se encontra. Clichê, verdade, mas não machuca ninguém.

Favreau montou um time de craques no elenco. Dustin Hoffman, Sofia Vergara, Scarlett Johansson e Olver Platt têm papéis pequenos, mas de grande contribuição para a estória. Fechando o time, Robert Downey Jr. aparece como o ex-marido de Inez, Marvin, personagem que traz à tela um pouco do sarcasmo cômico de Tony Stark.

Sem grandes malabarismos técnicos, o filme ganha na simplicidade. Uma fotografia que se divide em dois momentos: antes e depois do El Jefe. Tons escuros quando o chef está preso em um emprego que lhe bloqueia, e tons claros quando assume as rédeas do trailer. A trilha sonora é excelente, o toque latino é uma escolha certeira. A câmera, quase sempre fechada nos pratos montados por Casper, dá água na boca de quem vê.

“Chef” é leve, tranquilo, um filme que sabe a que veio e o lugar que deve ocupar. Sem grandes pretensões. Favreau oferece um prato cheio ao espectador, que me perdoem o trocadilho. É filme pra assistir no sofá, com a família ou os amigos, e não se torna menor por isso. Que “Chef” não é pra cardápio de restaurante fino, todos concordamos, mas é um belo prato de fast food.  

“O Grande Hotel Budapeste”

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  • Ano de lançamento: 2014
  • País: Estados Unidos
  • Língua: Inglês
  • Título original: “Grand Budapest Hotel”
  • Diretor: Wes Anderson
  • Avaliação: Pega a estatueta!

Wes Anderson é mais do que diretor. É marca registrada, assinatura, carimbo. Uma vez de frente pra um de seus trabalhos, é difícil não saber de quem se trata. Ao longo da carreira, Anderson dirigiu filmes como “O Fantástico Senhor Raposo”, “Os Excêntricos Tenembauns” e “Moonrise Kingdom”, alegorias que viriam a torná-lo um dos cineastas mais identificáveis do cenário. “O Grande Hotel Budapeste”, seu novo filme, é a consagração de seu estilo de cinema.

A história tem início nas memórias de um famoso escritor (Tom Wilkinson) que, para explicar o processo de escrita de um de seus maiores sucessos, vasculha uma viagem que fizera ao Grande Hotel Budapeste, na fictícia República de Zubrowka. Dentro das lembranças do autor, está um encontro que tivera com M. Moustafa (F. Murray Abraham), dono do hotel. No encontro, o magnata decide lhe contar como acabou herdando o local. É desse relato que surge a história de M. Gustave (Ralph Fiennes) e Zero (Tony Revolori), seu fiel escudeiro.

M. Gustave é o sedutor concierge do Hotel Budapeste, uma ilustre hospedagem nos Alpes europeus. Lá, Gustave é o grande maestro, responsável por satisfazer os clientes e organizar os funcionários. Ao seu lado, está o sempre prestativo Zero, o mensageiro do lugar. Com a morte de uma abastada cliente do hotel, por quem Gustave nutria sentimentos mais do que profissionais, ele e seu escudeiro partem em direção à mansão da falecida, a fim de prestar suas condolências (e algumas segundas intenções menos honráveis).

Quando Gustave chega à mansão, descobre ter herdado uma obra de valor inestimável, fato que a desregulada família da finada Madame D. (Tilda Swinton) não deixa passar em branco. O filho mais velho da ricaça, Dmitri (Adrien Brody), começa então uma caça ao concierge, A partir daí, a trama passa por prisões, tiroteios, fugas, conspirações e mistérios. Uma verdadeira montanha-russa, com direito a menções – sob um olhar crítico – sobre a Guerra, com um Edward Norton fardado adentrando trens.

A obra de Wes Anderson é calculada. Dividida em capítulos, épocas e janelas de projeção, o filme é pensado milimetricamente. Anderson administra um elenco estelar a lá Woody Allen. Grandes atores em papéis pequenos, porém indispensáveis. O companheiro de longa data do diretor, Bill Murray, aparece por poucos minutos, mas é responsável por um dos melhores momentos do filme. Difícil destacar alguém nesse timaço, que inclui Tilda Swinton, Willem Dafoe, Harvey Keitel, Jude Law e Adrien Brody.

Se for pra falar de algum dos nomes de peso da trama, que se fale de Ralph Fiennes. Um parágrafo só dele, que brilha cena após cena, fazendo com que o espectador clame por mais e mais dele. Fiennes conduz a narrativa com o talento de quem sabe o que faz, navegando entre os momentos de drama e comédia habilmente, criando o fluxo que o enredo pede.

O vencedor do urso de prata no Festival de Berlim 2014 tem, além de Anderson, duas pessoas a agradecer: Adam Stockhausen, diretor de arte, e Robert D. Yeoman, responsável pela fotografia. Durante todo o filme, somos expostos a uma gama de cores e detalhes impressionantes (sem falar na qualidade dos figurinos). A composição é certeira, ainda mais ao ser embalada pela trilha sonora de Alexandre Desplat.

“O Grande Hotel Budapeste” é um sopro fresco, um filme que incorpora o que o cinema deve ser. Anderson joga na panela um romance adorável entre um mensageiro e uma confeiteira, uma fuga atrapalhada da prisão e a nostalgia de um homem que vive de lembranças. Dentro de cada história há uma nova história, um novo personagem, uma nova forma de encantar e entreter. Como incluir tanto em cem minutos? Eu não sei, mas ele o faz. E como o faz.

“Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”

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  • Ano de lançamento: 2014
  • País: Brasil
  • Língua: Português
  • Título original: “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”
  • Diretor: Daniel Ribeiro
  • Avaliação: Pega a estatueta!

O curta “Eu Não Quero Voltar Sozinho”, de Daniel Ribeiro, encantou lá em 2010, quando foi lançado. Sucesso proliferado pelo YouTube (onde tem mais de 3 milhões de visualizações) o curta serviu de base para o primeiro longa-metragem do diretor: “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, ganhador do prêmio da crítica, e do Teddy Bear no Festival de Berlim, além do prêmio do público no Festival de Guadalajara.

Leonardo (Ghilherme Lobo) é um adolescente enfrentando a jornada de descobertas típica da adolescência. O primeiro beijo, os implicantes da sala de aula e as discussões com os pais. Tudo bem até então. Mas, Leonardo é cego. Além das buscas normais da fase, o menino tem que lidar com a superproteção dos pais e o preconceito que sofre na escola.

O garoto passa seus dias entre as aulas e a casa da melhor amiga Giovana (Tess Amorim), cúmplice e companheira constante. A rotina dos dois – escola, casa, escola – é quebrada quando um menino novo, Gabriel (Fabio Audi), começa a estudar na classe do casal de amigos. O novato é alvo da atenção de toda a turma, inclusive da dupla. Basta uma tarefa em grupo para que Gabriel passe a compor o, agora, trio.

Giovana, que antes levava Leonardo até a porta de casa todos os dias, agora vê Gabriel acompanhá-los e, aos poucos, a amizade se abala. A relação de Gabriel e Leonardo ganha espaço, e ofusca a parceira antiga. O garoto novo não trata a cegueira do amigo com não-me-toques, e oferece a Gabriel a chance de experimentar, se arriscar a fazer coisas que se julgava incapaz de fazer . A independência que o deficiente tanto buscava na relação com os pais, vem das mãos do novo amigo. 

Enquanto fogem escondidos à noite, dividem uma bicicleta e vão a uma festa de colegas, os garotos percebem estar vivendo algo diferente. É aí que “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” constrói seu grande mérito. É tudo natural. Da fotografia em tons pastéis, às tardes a beira da piscina, vemos os dois meninos se descobrirem juntos. O que poderia cair nos clichês, se desenvolve quase que organicamente. O espectador não é agredido pelo turbilhão de sentimentos vividos na tela, pelo contrário, é acariciado pela sutileza do romance que ali nasce.

O elenco é outro ponto forte. Ribeiro manteve o trio principal, apesar de três anos terem passado desde o lançamento do curta. Guilherme Lobo cria um protagonista além de convincente. O ator, que não é cego, apresenta uma performance pra lá de elogiável. A química ente Lobo e Fabio Rios é excepcional.

A trilha sonora é um quê a parte. O filme acerta em cheio ao mesclar as preferências pessoais dos personagens à composição da trilha. Leonardo é apaixonado por música clássica, já Gabriel é adepto ao indie, folk e alternativo. Seja ao colocar “There’s Too Much Love” de Belle & Sebastian para embalar a primeira dança, ou “Vagalumes Cegos” do brasileiro Cícero, de fundo para a primeira fuga juntos, enredo e música seguem de mãos dadas durante toda a trama.

Se em 2013, “Azul É A Cor Mais Quente” colheu seus louros ao dar uma roupagem natural ao amor entre duas mulheres, “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” não fica atrás. Somos levados pela leveza do amor entre Leonardo e Gabriel. Enquanto Adèle e Emma se debatem por entre os dilemas da relação, os dois estudantes procuram, com calma, aceitar o que lhes é oferecido. Ao lado de Léo e Gabriel, descobrirmos um amor sincero, com cara de amor, sem estigmas. Como deve ser.