Trainspotting 2

Trainspotting-2-

A juventude é desperdiçada nos jovens, já dizia o ditado. Quanto mais jovens, mais temos a impressão de que nossos atos não terão consequências a serem sentidas pelas versões mais velhas de nós mesmos, uma vez que estas são sombras pairando ao longe, onde os olhos ainda não podem enxergar. Acreditamos que temos todo o tempo do mundo para fazer as escolhas mais idiotas ao nosso alcance, viver enquanto somos jovens, como diz um outro ditado. Trainspotting, de Danny Boyle, é uma obra prima quando se pensa no retrato da juventude. Pelas ruas de Edimburgo, amigos de infância picam as veias saltadas com seringas entupidas de heroína de qualidade duvidosa. Levados pela adrenalina, cometem pequenos delitos, sempre em busca de juntar mais uns trocados e – consequentemente – voltar ao quarto sujo onde encontram suas agulhas.

O filme escocês tornou-se uma daquelas obras intocáveis, sem espaço para discussão. Quase sagrada. Como fazer então uma sequência capaz de manter a obra original imaculada, sem frustrar as expectativas de toda uma geração de fãs? Boyle é sóbrio e se arrisca na medida certa, sem medo de danificar o original. A sequência não é gratuita e não se limita a dar continuidade às tramas iniciadas no filme anterior. Funciona mesmo para aqueles que não viram o primeiro. Os paralelos construídos entre as duas tramas servem para fomentar a saudade, não para sustentar a narrativa, como acontece em muitas sequências frustradas.

Trainspotting 2 é alívio cômico. As gargalhadas são constantes, ainda mais quando misturadas à nostalgia presente nos reencontros. Não só dos amigos, mas de personagens e lugares. A sombra na parede da sala de jantar marca a ausência da mãe de Renton (Ewan McGregor), mas poderia também ser o fantasma que deixou a casa da família, ainda viciado e sem rumo certo, cuja vida só traria de volta à terra natal vinte anos depois. A comicidade dos encontros se dá não só pelo roteiro belamente escrito por John Hodge, baseado no livro “Pornô” de Irvine Welsh, mas pelo nível do elenco, cuja química faz com que duas horas voem. Menção honrosa para Robert CarlyleEwen Bremner (Franco/Begbie e Spud) que brilham quando sozinhos e são impecáveis quando contracenam.

O filme não tem medo de deixar explícito o product placement, seja pela jaqueta de malhar da Adidas vestida por Renton ou pelo Chromebook na bancada de Simon (Jonny Lee Miller). Assume uma atitude já dominada com maestria pelas grandes produtoras de audiovisual, como a Netflix. Aliás, vale a pena mencionar a maneira orgânica com que o filme aborda a mudança dos tempos e a chegada da era tecnológica. Uma das melhores cenas da trama acontece em um restaurante, quando Renton esbraveja um monólogo que nos leva de volta à 1996 ao mesmo tempo em que nos mergulha em uma consciência avassaladora das sequelas da geração tecnologia.

Ao som de Queen e Iggy Pop, Trainspotting 2 se desloca de suas raízes sem perder o que o que o tornou icônico, desapega do tergiversar sobre a existência e navega rumo à praticidade da vida adulta e à contemplação do possível, com os dois pés fincados ao real. Enquanto o primeiro filme bebia das águas de uma juventude sem rumo, cuja única – e as vezes última – esperança encontrava-se no entorpecer proporcionado pelas drogas, o segundo repousa na serenidade do contentar-se, presente na vida adulta. É a glorificação da consequência, o repouso de uma geração dormente que escolhe encarar seus atos. Escolhe a vida.

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