Aquarius

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Uma saída de esgoto divide uma cidade. Os dejetos dos indivíduos marcam a barreira entre os que muito tem e os que nada tem. Emblemático como quase todos os detalhes talhados por Kleber Mendonça Filho em Aquarius, filme que vem consagrar de vez o diretor do grande O Som Ao Redor. É do pôster do clássico Barry Lyndon, de Stanley Kubrick, na parede do apartamento da protagonista Clara (Sonia Braga), até a forma como esta passa os dedos pelos cabelos compridos, símbolo de uma luta passada que não pode – e não quer – esquecer que o diretor apara ponta a ponta os fios que compõem o filme.

No bairro de Boa Viagem, na capital pernambucana, situa-se o Edifício Aquarius. É este o lar da jornalista e crítica musical Clara, que ali criou os três filhos e vive agora sozinha, com a companhia ocasional da doméstica – e amiga – Ladjane. A jornalista viu, um a um, os vizinhos partirem ao vender os apartamentos para uma grande construtora. A debandada fez de Clara a última moradora do edifício.

O tato é, em Aquarius, personagem coadjuvante. As mãos de Clara tocam os discos, organizados com primor em prateleiras pelo apartamento; tocam a pele dos filhos e sobrinho com um carinho elegante e tranquilo, sem pressa de se esvair em tela; tocam o corpo nu de um michê de última hora que lhe vem satisfazer os desejos carnais que não se apagam apesar dos anos e dos conflitos e, por fim, tocam as paredes do apartamento onde criou os filhos e sambou sorrindo noites adentro ao lado dos amigos e parentes, apartamento este que tornou-se solo onde a jornalista fincou raiz.

A estrutura narrativa de Mendonça Filho é refinada. Dividido em três partes, o filme aborda divergências familiares cotidianas através de longos diálogos intimistas e faz da música total soberana ao explorar os dilemas existenciais profundos de seus personagens, igualmente bem construídos. A direção do pernambucano mostra-se ainda mais madura em seu novo longa. Grande conhecedor de cinema, o diretor emprega uma quimera de referências na construção de Aquarius, transformando-as para criar uma identidade autoral estabelecida com a obra.

Sônia Braga chega ao auge da carreira na pele de Clara. A câmera de Mendonça segue a atriz de perto, quase sem tirá-la de cena por toda a duração do filme e – nos poucos segundos em que a perdemos de vista – desejamos tê-la de volta. A maturidade da atriz faz com que sejam igualmente intensas uma cena de orgia em colchões sujos e uma de contemplação perante ao mar.

Kleber Mendonça Filho lança mão dos superlativos e das hipérboles e faz do não dito as mais importantes linhas do roteiro. A obra abre com alicates os olhos daqueles que por ignorância ou teimosia se negam a validar uma verdade que já está por muito tempo vigente: é bom demais o cinema brasileiro.

 

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