Carol

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Que a intolerância ainda permeia a sociedade contemporânea é inegável. Em tempo de Trumps e Bolsonaros, narrativas que evocam a luta por igualdade e direitos civis são mais do que necessárias. O novo filme do diretor americano Todd Haynes conta a história de Carol (Cate Blanchett), mulher de classe média alta na Nova Iorque dos anos 50 que – durante as festividades natalinas – apaixona-se por Therese (Rooney Mara), uma vendedora de brinquedos.

A protagonista enfrenta um divórcio conturbado, uma briga judiciaria pela guarda da filha e os olhares desconfiados daqueles que ouviram os rumores de violações às condutas de moral da época. Ao decidir fugir com uma moça mais jovem, Carol vai contra não só o futuro ex-marido, mas todo o grupo social ao qual pertence. Therese, por sua vez, despacha o pretendente e o emprego medíocre em uma loja de departamentos para embarcar em uma viagem sem rumo certo ao lado de uma mulher que conhece há poucas semanas.

A jovem vendedora venera a amada. Ao fotografar a dona de casa constantemente, é como se Therese tornasse-se uma mera espectadora de um romance ao qual não acredita pertencer, incrédula da mulher que tem ao lado. Os longos olhares lançados pela jovem enfatizam essa sensação voyesrística. Os olhos de Mara adquirem um protagonismo importante para a compreensão dos papéis das duas dentro do relacionamento.

A trilha sonora de Burwell é um mimo, tão delicada quanto o tom assumido pelo filme. O compositor faz da música personagem onipresente e dominante. Em adição ao trabalho de Burwell, algumas músicas da época embalam o longa, tornando a ambientação de Carol ainda mais sólida. O trabalho de fotografia e direção de arte é impecável e a Nova Iorque de seis décadas atrás é quase tangível.

Estrelado por duas concorrentes ao Oscar deste ano, Carol vale a pena só pelo nível do elenco. Blanchett é absoluta, comandando a tela em todas as suas aparições. À personagem, a atriz adiciona a intensidade que lhe rendeu a estatueta por Blue Jasmine e é impossível não se render. Ao seu lado, Mara não deixa a desejar. Um dos grandes nomes da nova geração de queridinhos de Hollywood, a moça é o contrabalanço perfeito à supracitada intensidade de sua parceira.

Carol é singelo e singular e faz fazer cinema parecer fácil. A Nova Iorque dos anos 50, antes tão marcada por Tony e Maria, abre espaço para Carol e Therese, num romance pra se guardar com afeto. A narrativa construída por Haynes é orgânica e emociona sem coagir, dona de se seu próprio ritmo, tornando o apaixonar-se ainda mais poético do que manda a teoria. Amor. E que danem-se os Bolsonaros.

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