Garotas

Girlhood film - 2015

Em uma das cenas mais bonitas do cinema em 2014, quatro garotas dançam ao som de Rihanna em um quarto de motel barato iluminado em tons de azul. O rito de passagem marca o momento em que Marieme torna-se Vic, membro de uma gangue feminina de um conjunto habitacional francês.

Ao ser reprovada na escola pela terceira vez seguida, Marieme se vê presa em um beco sem saída. A família de quatro filhos e mãe solteira se amontoa em uma quantidade ínfima de metros quadrados cujo rei, o irmão mais velho, se mantém no trono de maneira abusiva. Quando um trio de garotas da área lhe estende a mão, a jovem se conforma com uma rotina de pequenos delitos em troca da aceitação sem grandes questionamentos.

É curioso que, em um filme estrelado por não-atores, a atuação seja o destaque principal. Em seu terceiro longa, Sciamma começa a fazer nome como diretora de atores, arrancando performances memoráveis de seus pupilos. A diretora colheu os louros da aposta e a química entre o quarteto de protagonistas torna o filme ainda mais crível. Karidja Touré transforma-se em tela, adaptando seus trejeitos conforme a metamorfose de sua personagem.

A fotografia navega por entre tons refletidos no rosto de Vic, constantemente em primeiro plano. Vemos a moça iluminada pelos raios de Sol enquanto dança com as colegas de bairro e a acompanhamos enquanto sua pele torna-se fluorescente em tons de azul, quando caminha sozinha por entre as ruelas escuras do complexo, ajustando-se a uma realidade cada vez mais obscura.

A trama aposta na simplicidade pra construir um retrato nada simples do que é ser mulher. A reflexão é evocada sem apelar pro didático, mérito do roteiro que reflete o amadurecimento de Sciamma não só como escritora, mas como cineasta disposta a lidar com questões de identidade de gênero, como fez em Tomboy (2011) e Lírios D`Água (2007).

Garotas não é grandioso. E nem almeja ser. Entrega o que promete sem rebuliços e, por isso, vale a pena. Em um ano em que muito se falou sobre direitos da mulher, a trama reflete uma geração que nasce em busca de derrubar conformidades. Nos segundos finais, constrói-se uma heroína com traços de Beauvoir e, no quarto iluminado por azul, o filme se consagra. Ali, a representação do que é se encontrar, tal qual uma batida de pop. Simples.

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