(Festival do Rio 2015) The Lobster

Se tem uma palavra que não pode descrever Yorgos Lanthimos é convencional. Conhecido por levar aos limites as mais complicadas convenções sociais, o diretor grego sai do cinema independente da terra Natal rumo à estreia em Hollywood com o não menos controverso The Lobster, uma estória – distorcida – de amor.

Em um futuro distópico não situado cronologicamente, os seres humanos são forçados a viver em casais. Aqueles incapazes de encontrar um parceiro em sociedade, são encaminhados para um hotel onde, com a assistência de um grupo de funcionários e regras extremamente rígidos, convivem com outros solteiros por um determinado tempo à espera de encontrar um par adequado. Para que esses pares se formem, é necessário que duas pessoas compartilhem uma característica em especial, como sangramentos nasais espontâneos ou miopia. Aqueles que, ao final de um período específico não encontrarem um par, são transformados em um animal de sua escolha.

Quando David (Colin Farrell) é surpreendido pelo pedido de divórcio da esposa, se vê na complicada situação de encarar esse processo como um homem de meia idade. Descrente, vê os dias passarem sem grande sinal de sucesso. Em seus dias finais, comete um ato de desespero e a reviravolta por ele provocada o leva a viver com os solitários – aqueles que por escolha própria decidem viver sozinhos, quebrando as leis e obrigados ao exílio – dentro da floresta nos arredores do hotel.

O mundo arquitetado por Lanthimos é, simultaneamente, fantasioso e tangível. As críticas traçadas pelo diretor ao modo como vivemos em sociedade são frescas, bem construídas e ornamentadas com o tipo certo de humor, ponto em que The Lobster mais difere dos trabalhos anteriores do grego. Do mais absurdo saem as gargalhadas mais profusas da plateia, não pelo insensato, mas pela facilidade que se tem em reconhecer o que está em tela.

O roteiro é bem amarrado, sem perder o espectador por entre as especificidades da realidade apresentada na trama. Os diálogos, muito bem construídos, são o ponto forte do filme. A interpretação dura, característica dos atores dirigidos por Lanthimos, enfatiza o que se é dito e o resultado é primordial. O mérito de Lanthimos – e do roteiro – é nos imergir sem grandes dúvidas e questionamentos nesse mundo paralelo e ainda conseguir que torçamos por seus protagonistas, no mínimo, complicados.

O elenco é sensacional. The Lobster mescla os grandes de duas ou três gerações muito competentemente. Lanthimos pesca atores gregos com quem trabalhou em filmes passados, traz de volta nomes que andavam meio apagados e monta um panorama do cinema atual ao contar com atores como Ben Whishaw, Léa Seydoux e Ariane Labed. Vale destacar as atuações de John C. Reilly, Wishaw e Olivia Colman.

Esperei muito por The Lobster, e minhas expectativas foram mais do que atendidas. Lanthimos mergulha em Hollywood sem perder a essência que o consagrou. Soube jogar o jogo sem abrir mão das próprias peças e o fez bem demais. The Lobster é filme pra se guardar na memória. Aliás, deixa pra lá. Duvido você esquecer.

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