Divertida Mente

Dos questionamentos mais complexos a Pixar apresenta as respostas mais simples. O que forma a nossa personalidade? Memórias especiais que rolam por nosso subconsciente em uma canaleta colorida tornando-se uma ilha mirabolante ao atingirem seu destino final. As memórias que já não mais precisamos são descartadas por uma pragmática equipe de arquivistas e nossos sonhos são encenados por um departamento Broadwayziano cuja estrela principal é um unicórnio de tons arco-íris.

Nos primeiros segundos do filme, somos perguntados sobre a vontade inerente ao ser humano de ler a mente do próximo. Mel Gibson conquistou o mundo dos negócios ao ganhar acesso aos pensamentos das mulheres e o mais poderoso (e o grande líder) dos famosos mutantes da Marvel é justamente um telepata. Em Divertida Mente, temos acesso garantido e ilimitado ao consciente de Riley (Kaitlyn Dias), uma menina de 11 anos, durante sua mudança da gelada Minnesota à cosmopolita São Francisco.

Se o filme é divertido? Muito. Criativo? Sem dúvidas. Mas bem que poderia ter meia hora a menos. O início é uma dose de adrenalina, criando expectativas não correspondidas durante o desenrolar da trama. Queremos ver a sala de comando em ação durante os novos desafios enfrentados por Riley mas, passamos mais da metade do filme seguindo Alegria (Amy Poehlere Tristeza (Phyllis Smithem uma jornada deveras longa. A saga das duas por tanto se arrasta que quase beira a monotonia.

Alegria, a espevitada-auto-intitulada-chefe prova ao espectador que ser só alegre deve ser um… Porre. Após dez minutos ouvindo a moça tagarelar sobre a importância de tudo o que nos faz felizes, cruzamos os dedos pra que apareça algum dos outros sentimentos pra bagunçar um pouco o reino perfeito da capitã. Tristeza é a personificação de uma visão preconceituosa que permeia os dias de hoje: gordinha, de óculos, suéter de gola rolê, choramingando a falta de amigos e habilidades sociais. Mas, após superar esse tropeço da Pixar, passamos a prestar atenção na personagem, nos afeiçoando até alcançar o estágio em que torcemos por ela e pelas míseras memórias azuis que flutuam pelo subconsciente de Riley. Uma pena que os outros três sentimentos sejam tão coadjuvantes, uma vez que é deles alguns dos melhores momentos da trama. Nojinho (Mindy Kaling) é, de longe, minha favorita.

Divertida Mente é uma espécie de mistura entre Branca de Neve e A Origem, com sentimentos personificados em uma realidade paralela em constante desconstrução. É fresco, inovador e visualmente espetacular, embora nem de longe supere Up! Altas Aventuras, o último grande sucesso da Pixar. Saímos do cinema analisando nossos próprios pensamentos e nos perguntando quem será que está com a mão no volante dessa vez. Fica de lição o adeus à máxima. Nem sempre o que importa é ser feliz.

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