Locke

Estória. A base mais crua do cinema e a palavra que melhor define Locke. O segundo filme de Steven Knight é minimalista até dizer chega: um ator, um carro e uma estrada. Através de ligações telefônicas o diretor monta uma narrativa quase em tempo real, sem deixar cair a peteca.

Ao virar a chave do carro, Ivan Locke (Tom Hardy) tem a vida perfeita. Um excelente emprego, uma família em casa e o evento mais importante da carreira lhe esperando pela manhã. A estrada que o leva de Birmigham a Londres coloca a prova todas as relações na vida do engenheiro. Cada ligação recebida pelo bluetooth do carro aumenta a tensão do protagonista, ressuscitando receios passados.

O roteiro é praticamente impecável, pensado em cada detalhe. O concreto é símbolo de toda a solidez venerada por Ivan. Um pequeno deslize, um pequeno erro de cálculo, e o concreto racha. De rachadura a rachadura, se parte. O concreto aqui não é só retrato do comportamento do engenheiro, mas também espelho de quem é. Machucado, surrado pela vida, Locke racha aos poucos, caminhando rumo à epítome da fratura: a viagem de carro.

Ao construir as conversas entre Ivan e o pai morto através do retrovisor, Knight estabelece outra forte metáfora. Locke esbraveja para o próprio reflexo, grita para o medo que tem de tornar-se o pai, personificação de tudo que despreza. O construtor – mesmo quando sozinho – precisa da validação constante de que segue pelo caminho contrário ao genitor, sombra representada não só alegórica como graficamente na trama.

As vozes isoladas, sem rosto, imergem o espectador numa espécie de experiência ‘intracorpórea’, navegando pelo subconsciente de Ivan, ouvindo ecos constantes que nunca encontrarão uma representação visual. Cabe a quem assiste imaginar o que está acontecendo do outro lado da linha e, para isso, o trabalho de voz do elenco é impecável. O produto final é quase colaborativo.

Com só um ator em cena, a edição tem um papel decisivo em Locke. Os cortes dinâmicos e o malabarismo constante entre as três câmeras usadas por Knight dão o ritmo necessário ao filme, escapando da monotonia suposta por qualquer um ao ler a sinopse. O compasso é acentuado pelo modo como o diretor brinca com as luzes, os reflexos e o movimento do carro pela rodovia. É harmonia composta com primor.

Locke é a prova de que bom cinema não precisa de grandes malabarismos. Menos é mais. Steve Knight compõe o antídoto à ganância compulsiva hollywoodiana, um sopro de ar fresco. Bruto, puro, primordial. Tom Hardy cresce em tela na melhor atuação da carreira e dá gosto de ver. A trama nos deixa inseguros em nossas próprias seguranças, e faz com que questionemos as bases que construímos diariamente. Somos concreto ou rachadura?

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