“Planeje para poder ser espontâneo” – Sarah Warren sobre a produção de MLE

Captura de Tela 2015-06-06 às 17.07.28

Se tem algo que a cineasta canadense Sarah Warren possui é determinação. Após mudar-se recentemente para o Reino Unido, Warren conseguiu vinte mil libras através do Kickstarter para financiar seu primeiro longa-metragem. Poucos meses depois disso, MLE – uma comédia sobre uma espiã da vida real – surgiu. Sarah escreveu, dirigiu e estrelou o filme. Eu tive o prazer de conversar com ela sobre todo o processo.

Você teve uma campanha muito criativa no Kickstarter. Como você desenvolveu essa ideia? Você imaginava que a campanha seria tão bem sucedida?

Obrigada por dizer isso sobre a nossa campanha. O Kickstarter é uma daquelas plataformas que nos proporcionam um momento “Uau, tecnologia!”. É onde muitos inovadores tentam uma ideia e as pessoas tem a chance de dizer sim ou não. Eu pesquisei muitas campanhas no Kickstarter antes de criar a nossa.

Algumas das conclusões a que eu cheguei foram: eu queria passar um mês inteiro me dedicando inteiramente à preparação da campanha – o layout, os incentivos e, é claro, o vídeo. O vídeo foi onde (na minha humilde opinião) algumas outras campanhas no Kickstarter tropeçaram (ou triunfaram). Talvez eu preste muita atenção nisso porque eu sou uma cineasta/atriz então eu estou acostumada a apresentar um pitching. A maioria dos vídeos no Kickstarter foram gravados em quartos mal iluminados, sem se preocupar com noções de plano e um discurso improvisado (sem humor algum) sobre o porquê você deveria lhes dar dinheiro. Sem querer soar cruel, mas isso não funcionava pra mim.

Nós não sabíamos se a campanha iria ser um sucesso, mas eu queria criar um personagem que encantaria a audiência, escrever um roteiro certinho, gravar o áudio com cuidado. Eu concluí que, se as pessoas gostassem do vídeo, elas gostariam da vibe do filme que a gente planejava fazer.

Foi importante pra mim ter uma certa continuidade do vídeo do Kickstarter até a produção do filme. Esse boneco, o ‘Makie’ (do Makie Labs, em Londres) é o brinquedo com o qual a protagonista, Julie Roberts, ama brincar, mas sua melhor amiga acha completamente imaturo. Um desses bonecos foi o personagem principal do nosso vídeo no Kickstarter, No vídeo do Kickstarter eu tenho uma pequena discussão com ele sobre cinema e essa relação cômica entre a dupla na verdade reflete algo muito mais sério – a objetificação das mulheres na indústria do entretenimento. Bom… Se o nosso filme fosse um mega blockbuster e não um indie de pequeno orçamento, talvez a audiência pudesse ter seus próprios bonecos personalizados. Quem sabe?

Nós ficamos em êxtase ao atingir a nossa meta e passar das vinte mil libras. Nós somos incrivelmente gratos aos nossos apoiadores, e mantivemos contato com eles durante toda a pré-produção, filmagem e pós-produção – alguns deles até vieram do Canadá para a première em Londres.

Kickstarter é uma comunidade, e é a primeira audiência de um cineasta, os primeiros fãs leais. Temos que tratá-los direito, certo? Lançar uma campanha é uma montanha-russa, especialmente com o Kickstarter porque, claro, se você não atinge a sua meta, não tem grana! O que mais nos comoveu durante o processo foram as dezenas de estranhos que doaram, alguns de lugares como a Noruega, e um senhor americano que nos enviou HD externos pra nos ajudar. Seres humanos podem ser incríveis.

Você trouxe os bonecos de volta para o filme, um toque muito interessante. Isso foi algo planejado ou a ideia veio já durante o processo de produção?

Tudo planejado, baby!
Sim. Eu acho que um bom diretor (algo que eu tento ser), planeja tudo, e qualquer coisa que apareça durante o caminho pode ser adicionada ao filme porque tudo já estava bem planejado antes, se isso faz sentido. Planeje para poder ser espontâneo.

Os bonecos tem cenas longas no roteiro e eu tive que cortar uma grande quantidade de diálogos para poder manter a comédia no ponto. Obrigada por dizer que foi interessante.

Quanto tempo você acha que levaria para produzir MLE sem o Kickstarter?

Pra sempre? Eu não sei. Bom… Eu vim pra Londres menos de dois anos atrás. Quando eu decidi vir pra cá, eu abandonei uma carreira em cinema no Canadá e eu queria deixar uma marca aqui como roteirista/diretora/atriz, além de mostrar um pouco da minha voz na Inglaterra – ou como eu vejo os ingleses (com humor e respeito, é claro). Eu também fiquei chocada com a escassez de mulheres fazendo comédia (eu acho que muitas mulheres se chocam com essa falta de representação. Que assuntos assustam tanto os ingleses? Sexo? Namoros? Estar na casa dos vinte e experimentar coisas novas?).

Nos Estados Unidos, eles tem Lake Bell (que acabou de lançar Man Up, vale a menção), Lena Dunham, Miranda July, Jenny Slate – só pra citar alguns nomes de roteiristas/diretoras/atrizes. Você consegue citar uma pessoa no Reino Unido fazendo o mesmo? Umazinha? Uma mulher dirigindo comédias? Acredite, eu pesquisei!

Quando as pessoas da indústria são surpreendidas com essa pergunta, eles somente dão de ombros. Enfim, como você pode ver pelo meu filme, eu não reclamo. Eu tento fazer com que as pessoas riam com o ridículo dessa indústria! Se você reclamar, ninguém vai ouvir, mas se você satirizar, você tem uma chance.
Voltemos à questão de quanto tempo levaria pra fazer o filme. Se eu não tivesse recorrido ao Kickstarter, talvez levasse em torno de cinco anos (através de financiamentos públicos ou investimento privado). Eu não era conhecida no Reino Unido, então, a única maneira de ganhar a credibilidade que eu precisava era fazer um filme. Então eu levantei a bunda da cadeira e arrecadei vinte mil libras em dois meses e dois meses depois disso eu fiz um longa-metragem com uma equipe talentosa de mais de cem pessoas. Viva o cinema! Nós estamos orgulhosos de dizer que esse foi um pequeno milagre, mas o que importa é o quão bom é o filme e – na nossa exibição mais recente – eu vi alguém cair da cadeira de tanto rir! Eles poderiam estar bêbados, mas caso não estivessem, foi o maior elogio que eu já recebi. Viva o cinema!

Você escreveu, dirigiu e estrelou o filme, que é baseado em uma história real da sua vida. Como você conseguiu se distanciar o suficiente de tudo isso para conseguir a perspectiva necessária para produzir MLE?

Tão boas perguntas… Ai. Eu acho que a resposta é: porque eu não me levo muito a sério, mas eu levo as coisas ao meu redor a sério. Eu lembro de tudo que as pessoas falam/aparentam ser/comem e eu analiso porque elas se comportam desse jeito. Apesar de fazer o que é aparentemente um filme prepotente, eu espero que as pessoas vejam que o que me interessa na verdade é a indústria do cinema, o mundo, questões de gênero, amizades, videogames e bolo, e que eu tenho uma paixão muito grande por tudo isso.

Eu dou aulas de atuação em nível universitário e eu vejo meus alunos cobrirem o rosto toda vez que eles tem que se ver em tela, dizendo “eu não consigo me assistir!”. Eu tenho tirar isso deles gentilmente. Como ator, você é um instrumento, um veículo e um produto. Isso pode soar duro, mas é a realidade. Você tem que olhar o produto nos olhos e analisá-lo do modo mais objetivo possível. Isso faz um bom cineasta (eu acho). Eu lembro de chocar o editor do filme várias vezes durante a pós-produção porque eu sou muito prática quando se trata de cortar as minhas cenas, especialmente os takes que são – perdoem o meu francês – uma merda. Eu estou evoluindo e trabalhando em muitas coisas, não só como artista mas como pessoa, mas eu sou muito focada. Eu acho que esse foco significa saber que não é mais sobre o seu ego – todo filme é sobre o filme e sobre a estória em si.

Resumindo: todo filme deve ser sobre fazer o melhor filme, e o filme não é sobre uma só pessoa. Eu tento servir à estória. Você precisa de certa distância e objetividade se quiser se tornar um bom cineasta, mas, ao mesmo tempo não se distanciar ao ponto de fazer com que falte certa paixão ao seu filme. Tem que se ter a sensibilidade certa nos lugares certos, sobre as coisas certas.

Londres tem um papel muito significante no filme. É curioso ver como você retrata a cidade de um jeito tão íntimo, uma vez que você mora aqui há pouco tempo. Como foi o processo de escolha das locações?

Um aspecto único do filme é o meu olhar estrangeiro. As vezes, quando você está rodeado por algo, o seu olhar não capta os pequenos detalhes, as excentricidades. Eu amo Londres. Uma vez eu ouvi alguém dizer, “primeiro você ama Londres, depois Londres te ama de volta”. Essa cidade é uma luta, mas pode valer a pena, muito a pena. Basta andar de bicicleta por uma ponte pra entender o que eu estou dizendo. O que torna uma estória especial é perspectiva, e a minha perspectiva de Londres é hilária.

Eu escolhi locações através de uma combinação de East London/meus pequenos sonhos e, é claro, o que a gente podia pagar. Nem me faça dizer o quanto custa uma hora na piscina! Mas, ei, eu consegui a minha própria rua, isso é bem bacana.

Eu procurei pelas locações mais coloridas e com uma pegada mais local porque eu queria fazer uma comedia em Londres que envolvesse muito da vida em si e da alma da cidade. Londres é famosa pela sua dureza e na maioria dos filmes e programas de televisão a cidade é retratada como fria, cinza e sem vida. A gente queria mostrar uma Londres através da visão da protagonista (Julie), uma visão otimista, exploradora, etc. Esse contraponto é muito interessante quando se pena no cinismo londrino. Montar esse contraste foi algo muito importante pra mim, desde a primeira cena, e eu acho que é isso que prepara o espectador para o que a gente quer transmitir com o filme.

O que também é bem britânico em MLE é o humor, e humor é algo muito culturalmente estabelecido. Você já teve alguma chance de exibir o filme pros seus conterrâneos? Se sim, qual foi a reação obtida?

Esse é um dos maiores elogios que eu poderia pedir. Quando alguém diz ‘Sarah, isso é tão britânico”, eu fico muito feliz. Isso foi muito importante pra mim durante o processo de criação, e algo muito complicado também (fazer humor sem ofender, mostrar pequenas observações culturais e ao mesmo tempo conseguir fazer os britânicos rirem).

Em primeiro lugar, eu acho que todos os canadenses amam o Reino Unido. Eu fui criada vendo muitas comédias britânicas e eu amo o humor daqui cínico e sutil. Os britânicos tem um relacionamento e um respeito muito diferente pela estória do que os americanos, é maravilhoso.

Eu exibi o filme para muitas audiências ao redor do Reino Unido e nós estamos muito felizes com a resposta. As pessoas sentem que o filme tem uma “voz britânica” mas com uma perspectiva fresca, o que me deixa muito honrada.

Ryan Mercier foi escalado – pelo menos na página do Kickstarter – como Sebastian. Quando você decidiu adicionar Harry à estória?

Essa resposta é um pouco sem graça mas o Ryan sempre foi pensado como Harry. Eu só coloquei ele como Sebastian na página do Kickstarter porque é um personagem como um apelo maior. Harry sempre foi parte do filme e o personagem foi nomeado em homenagem a Harry Lloyd, um ator incrível, pessoa maravilhosa e alguém muito importante durante o processo de criação de MLE.

Eu queria mostrar uma comédia estrelada por uma mulher que não fosse uma comédia romântica clichê. Se existe um romance, ele é entre Julie e sua melhor amiga. Nós tivemos algumas escolhas intencionais, como a hora mágica e slow motion, na maioria das cenas entre a minha personagem e Joy. Essa configuração é geralmente vista em cenas românticas. Eu sempre achei muito importante, sem fazer um grande ensaio, ter um filme onde a protagonista se preocupasse mais com salvar uma amizade do que colocar a vida amorosa em dia. O relacionamento entre Harry e Julie é só uma pequena parte da estória, como seria na maioria dos filmes com um protagonista masculino. O resultado é: nós somos aprovados no Bechdel Test.

Você convenceu Paul Haggis e Mike Figgis a atuarem em MLE. Como isso aconteceu?

Essa pode ser uma boa história pra uma cerveja. Brincadeira. Eu amo a ideia de ter cameos de diretores famosos que eu admiro.

Mike Figgis é amigo do editor, e foi maravilhoso trabalhar com ele. Paul Haggis entrou em contato comigo durante a campanha do Kickstarter para falar sobre a minha atuação e foi gentil o suficiente em concordar em ser parte do nosso elenco. Pequeno fato dos bastidores: nós filmamos a cena do Paul Haggis em seu quarto de hotel e o nosso produtor executivo Simon Shore, serviu como dublê para todas as cenas adicionais, gravadas seis semanas depois. Eu estudei todos os movimentos do Paul para que o Simon pudesse copiá-los, e depois cuidei da cor e dos ajustes – obviamente – na pós-produção.

Atom Egoyan foi seu professor e ainda é parte muito presente da sua carreira, uma espécie de mentor. Como isso te influenciou como cineasta?

Atom foi meu professor em uma turma de dez pessoas em um curso de arte na Universidade de Toronto. Ele só lecionou lá durante três anos e trabalhou com pouquíssimos atores, cineastas, músicos e artistas. Eu fiquei em absoluto êxtase ao ser escolhida como uma das atrizes do programa (eu estudava Teatro na época).

Nós trabalhamos com ele durante quase um ano, cada um de nós desenvolvendo uma peça interdisciplinar. Nós também tivemos a chance de visitar o set de Adoration. Atom é um homem muito sério, e ainda assim foi ele o responsável por encontrar a minha voz cômica. Eu sou completamente honrada por ainda poder contar com o apoio dele.

Durante o curso, e particularmente ao assistir aos filmes que ele fez ao longo da carreira, como Calendar, eu percebi que eu sempre vi o mundo com os olhos de uma cineasta (pensando em ângulos, diálogos e contexto). Eu perguntei a Atom como fazer a transição – sair do teatro e entrar em cinema – e ele me disse: “compre uma câmera e faça um filme”. Eu não tenho certeza se ele esperava que eu fizesse isso, mas no dia seguinte eu encontrei um produtor com uma câmera e vendi um projeto a ele.

No verão seguinte nós produzimos meu longa-metragem estudantil, chamado Moments Before, uma série de pequenas estórias conectadas sobre o momento antes de dizermos ‘eu te amo’ pela primeira vez (fazer o que, eu era obcecada por Magnolia e Paris Jet’aime). Um ano depois, antes de embarcar pra Cannes, Atom assistiu ao filme, conversou comigo sobre as qualidades cinematográficas e sugeriu que o meu próximo roteiro fosse algo bem estruturado, pessoal e cômico. Assim surgiu MLE.

Em três momentos durante a minha carreira eu pensei “é agora! Essa é a minha hora!”, eles foram: Atom Egoyan, Paul Haggis e um membro da família de Katherine Hepburn. Mas essas estórias são mesmo pra uma cerveja. Tchau!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s