Boa Sorte

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  • Ano de Lançamento: 2014
  • País: Brasil
  • Língua: Português
  • Título Original: “Boa Sorte”
  • Diretor:  Carolina Jabor
  • Avaliação: Qual era mesmo?

A proposta de Boa Sorte, primeiro longa de ficção da diretora Carolina Jabor, é interessante: o relacionamento entre dois pacientes em uma clínica de reabilitação. Judite, na casa dos trinta, HIV positiva, já fez uso de todos os tipos de droga no catálogo; João, aos dezessete, é viciado em uma mistura de calmante e Fanta laranja.

Baseado em um conto de Jorge Furtado, o filme acompanha de perto a paixão entre os dois pacientes. Enquanto Judite (Deborah Secco) se despede da vida, João (João Pedro Zappa) começa a entendê-la. Antes invisível (uma metáfora bastante explorada durante a trama) para a família e amigos, o garoto encontra na colega de internação a atenção que lhe fora negada. A intensidade da relação é atenuada pela realidade do confinamento em que vivem e as limitações que lhe são impostas.  O casal passeia pelos corredores melancólicos, tem longas conversas à beira de uma piscina imunda e observa as famílias caminharem pelo jardim nos dias de visita.

Déborah Secco mergulhou de cabeça na experiência. No processo de preparação, perdeu mais de dez quilos. Valeu a pena. A atriz tem uma das melhores performances de sua carreira na pele de Judite. Crível, Secco se despe de pudores (literalmente) para dar vida a uma personagem desafiadora, quiçá ainda mais complicada de se construir em tela do que a garota de programa Bruna Surfistinha, papel no sucesso homônimo de 2011.  

João Pedro Zappa deixa a desejar. No mar de possibilidades oferecidas por um personagem como João, o ator se manteve em uma linha constante, sem grandes oscilações. Nos momentos mais tensos, a atuação é exagerada. O protagonista foi ofuscado pelo excelente Pablo Sanábio, que interpreta Felipe, um dos residentes da clínica. Felipe carrega a carga cômica do filme e o faz com maestria. Sempre que aparece em tela, entretém o espectador com a dose certa de carisma e talento, coisa de quem sabe bem o que faz. Pena que desaparece por grande parte do filme.

Boa Sorte tem boas pretensões, e poderia ter dado certo se não fosse a terceira parte. O início promete algo que a trama não cumpre, pois se desvia da atmosfera dos primeiros momentos ao mergulhar em longos diálogos, clichês e explicações demais. A boa reflexão é diluída pelo roteiro mal trabalhado, que caminha pra um desfecho desastroso, comprometendo o projeto inteiro. 

A narrativa poderia ter se concentrado mais na linguagem visual do que verbal. Algumas das cenas são lindas, como o momento em que os pacientes dançam pelos corredores da clínica, uma das cenas mais bonitas que assisti esse ano. Porém, a trama é incapaz de manter esse nível, derrubada por comos, quandos e porquês desnecessários.

Entre mortos e feridos, salvam-se alguns. Boa Sorte é uma faísca, que nos faz pensar no potencial do cinema brasileiro atual como um todo. É o primeiro passo para um caminho promissor. Talvez precise seguir a protagonista e se despir, perceber que menos é mais. E que venha o próximo trabalho de Jabor, a quem eu desejo toda a sorte. 

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