Mês: dezembro 2014

Boa Sorte

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  • Ano de Lançamento: 2014
  • País: Brasil
  • Língua: Português
  • Título Original: “Boa Sorte”
  • Diretor:  Carolina Jabor
  • Avaliação: Qual era mesmo?

A proposta de Boa Sorte, primeiro longa de ficção da diretora Carolina Jabor, é interessante: o relacionamento entre dois pacientes em uma clínica de reabilitação. Judite, na casa dos trinta, HIV positiva, já fez uso de todos os tipos de droga no catálogo; João, aos dezessete, é viciado em uma mistura de calmante e Fanta laranja.

Baseado em um conto de Jorge Furtado, o filme acompanha de perto a paixão entre os dois pacientes. Enquanto Judite (Deborah Secco) se despede da vida, João (João Pedro Zappa) começa a entendê-la. Antes invisível (uma metáfora bastante explorada durante a trama) para a família e amigos, o garoto encontra na colega de internação a atenção que lhe fora negada. A intensidade da relação é atenuada pela realidade do confinamento em que vivem e as limitações que lhe são impostas.  O casal passeia pelos corredores melancólicos, tem longas conversas à beira de uma piscina imunda e observa as famílias caminharem pelo jardim nos dias de visita.

Déborah Secco mergulhou de cabeça na experiência. No processo de preparação, perdeu mais de dez quilos. Valeu a pena. A atriz tem uma das melhores performances de sua carreira na pele de Judite. Crível, Secco se despe de pudores (literalmente) para dar vida a uma personagem desafiadora, quiçá ainda mais complicada de se construir em tela do que a garota de programa Bruna Surfistinha, papel no sucesso homônimo de 2011.  

João Pedro Zappa deixa a desejar. No mar de possibilidades oferecidas por um personagem como João, o ator se manteve em uma linha constante, sem grandes oscilações. Nos momentos mais tensos, a atuação é exagerada. O protagonista foi ofuscado pelo excelente Pablo Sanábio, que interpreta Felipe, um dos residentes da clínica. Felipe carrega a carga cômica do filme e o faz com maestria. Sempre que aparece em tela, entretém o espectador com a dose certa de carisma e talento, coisa de quem sabe bem o que faz. Pena que desaparece por grande parte do filme.

Boa Sorte tem boas pretensões, e poderia ter dado certo se não fosse a terceira parte. O início promete algo que a trama não cumpre, pois se desvia da atmosfera dos primeiros momentos ao mergulhar em longos diálogos, clichês e explicações demais. A boa reflexão é diluída pelo roteiro mal trabalhado, que caminha pra um desfecho desastroso, comprometendo o projeto inteiro. 

A narrativa poderia ter se concentrado mais na linguagem visual do que verbal. Algumas das cenas são lindas, como o momento em que os pacientes dançam pelos corredores da clínica, uma das cenas mais bonitas que assisti esse ano. Porém, a trama é incapaz de manter esse nível, derrubada por comos, quandos e porquês desnecessários.

Entre mortos e feridos, salvam-se alguns. Boa Sorte é uma faísca, que nos faz pensar no potencial do cinema brasileiro atual como um todo. É o primeiro passo para um caminho promissor. Talvez precise seguir a protagonista e se despir, perceber que menos é mais. E que venha o próximo trabalho de Jabor, a quem eu desejo toda a sorte. 

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Interestelar

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Já com a carruagem andando, Christopher Nolan assumiu o lugar de Steven Spielberg no projeto audacioso que viria a se tornar Interestelar. O diretor de Amnésia e A Origem mexeu alguns pauzinhos em Hollywood para tocar em frente o trabalho já iniciado pelo irmão, o roteirista Jonathan Nolan, e o físico Kip Thorne.

Em um futuro distópico, a humanidade sofre com a escassez de alimentos e o ataque constante de pragas que dizimam as plantações. Do solo antes fértil, só restou a poeira. Os seres humanos voltaram a uma vida baseada na agricultura, vivendo sob a ameaça iminente da fome. É nesse cenário que Cooper (Matthew McConaughey), um antigo piloto, vive com o sogro (John Lithgowe os dois filhos, Murph (Mackenzie Foy, quando nova) e Tom (Timothée Chalamet, quando novo).

O ex-piloto sofre por ver a regressão da humanidade aos tempos de fazenda. A troca do avanço tecnológico por uma cultura de subsistência, criar os filhos em uma realidade onde o homem nega ter pisado na Lua e os pais se contentam em saber que as crianças são educadas somente para cultivar a terra, sem maiores ambições. 

A escassez de alimentos e a infertilidade do solo estabeleceram um prazo de validade para a existência do homem na Terra e – ao encontrar a ultrassecreta sede da NASA – Cooper é apresentado ao projeto da agência espacial para evitar a extinção: uma missão a fim de descobrir um planeta capaz de abrigar a espécie humana.

Nolan é ambicioso. Criou uma trama para instigar comparações ao maior clássico de ficção científica da história do cinema: 2001- Uma Odisseia No Espaço. Por mais que os paralelos sejam inevitáveis, a obra de Kubrick permanece intacta no primeiro lugar do pódio. Nolan tinha em mãos a faca e o queijo, e se perdeu ao explicar demais o que não precisava ser explicado. Enquanto Kubrick provoca a reflexão, Nolan escolhe uma abordagem quase didática, cimentando as brechas necessárias para interpretação da audiência.

Baseado em teorias da física quântica, Interestelar reuniu um time de especialistas que trouxe o espaço às telas de cinema sem uso de chroma key. O buraco negro da trama é ponto inicial de pesquisas acadêmicas, e até o mais leigo dos espectadores compreende o nível de estudo necessário para criar uma obra de tamanhas proporções. A avalanche de termos científicos nos envolve no raciocínio lógico que demanda, mas, joga um balde de água fria ao apelar para um sentimentalismo inconveniente.

Esqueça a gravidade, o espaço temporal, buraco negro, galáxias… É o amor a substância necessária para a conservação da humanidade. “O amor é a única coisa que transcende o tempo e o espaço”. A quintessência dos Nolan. Mágoa familiar, reconciliações em meio a desastres naturais e mensagens de vídeo chorosas. Uma mistura do melodrama de Impacto Profundo com questionamentos de Solaris.  

Bom… Verdade seja dita: Interestelar é um épico. Visualmente inacreditável, o filme é o resultado da ousadia de Christopher Nolan, da consistência da pesquisa, e da liberdade concedida ao diretor pela produtora. A escolha do elenco, capitaneado pelo excelente Matthew McConaughey (que entra com força na corrida pelo Oscar 2015), a trilha sonora impecável de Hans Zimmer e a direção de fotografia de Hoyte Van Hoytema transformam a obra em uma experiência memorável, ainda melhor em iMax.

Como uma nave espacial, Interestelar ganha impulso na decolagem, emplaca na subida e perde força na descida. O desfecho pode ser antecipado pelos atentos e não corresponde, nem de longe, ao frenesi causado nos primeiros minutos da trama. Nolan tergiversa sobre maneiras de salvar a humanidade e se esquece do que salva um filme: um bom roteiro.