Mês: novembro 2014

“O Juiz”

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Susan Downey deixou o posto de Co-Presidente da Dark Castle Entertainment e VP Executiva de Produção na Silver Pictures para trabalhar mais perto do marido, Robert Downey Jr. Juntos, fundaram a Team Downey, produtora que lança agora o primeiro filme, O Juiz, drama que procura retomar a glória dos saudosos filmes de tribunal.

A trama segue a relação conturbada entre o advogado de sucesso Hank Palmer (Robert Downey Jr.), e seu pai, Joseph Palmer (Robert Duvall), o prestigiado juiz de uma cidadezinha de interior nos Estados Unidos. Quando a matriarca dos Palmer morre, o filho distante retorna à pequena cidade natal e tem de enfrentar os antigos conflitos familiares. O que era pra ser uma breve estadia se estende quando o juiz é acusado em um complicado caso de assassinato, e vê no filho a única chance de absolvição.

Nos cartazes de divulgação, O Juiz é pintado como o típico filme de tribunal, queridinho dos americanos em tempos passados. Porém, ao sentarmos na poltrona do cinema, logo percebemos que estamos diante de uma mescla de vários subgêneros: o drama familiar, o filho pródigo, e a caricatura do perfil americano de sucesso.

Esculpido em busca de algumas nomeações para o Oscar 2015, a trama tem nas atuações seu grande mérito. O Team Downey acertou em cheio ao escalar Robert Duvall no papel do rigoroso Juiz Palmer. O ganhador do Oscar por A Força do Carinho entrega uma atuação digna de uma sétima indicação ao prêmio. Duvall alcança o espectador ao retratar o processo de degradação física e mental daquele que um dia possuiu uma cidade inteira em suas mãos. O austero Juiz Palmer sai das bancadas para uma banheira, imundo, vencido, em uma batalha que vai muito além dos tribunais.

Robert Downey Jr. é… Robert Downey Jr. O ator vem se especializando há algum tempo em um tipo pré-moldado de personagem. E funciona. O espectador espera da estrela de Hollywood uma atuação recheada de ironias, piadas sarcásticas e humor ácido, e é isso o que ele entrega, mais uma vez. Em uma versão ligeiramente mais sensível de Tony Stark, Downey mostra uma química certeira com Duvall em tela. As cenas dos dois são de longe as melhores do filme. 

O restante do elenco completa um time muito bem escolhido. Vera Farmiga, na pele de um amor antigo de Hank, é um dos personagens mais gostosos de assistir. Vincent D’Onofrio e Jeremy Strong, os irmãos do advogado, formam uma dupla cativante, em papéis essenciais para uma compreensão total dos dilemas do protagonista. Billy Bob Thornton até tenta, mas não encontra o espaço necessário para se destacar em meio ao conjunto.

O roteiro oscila entre clichês, passagens cômicas e momentos de carga dramática, sem nunca realmente fazer com que o espectador se remexa na cadeira. Sem sair da zona de conforto, O Juiz nos deixa com aquele gostinho de já vi em algum lugar. A estória, vai facilmente cair em lugar comum na nossa memória, mas o trabalho de Duvall, esse vai ser difícil de esquecer.  

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“Festa no Céu”

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Salvo pelas mãos de Guillermo Del Toro, “Festa no Céu” é um projeto do mexicano Jorge R. Gutiérrez. Del Toro apostou na proposta do conterrâneo – trazer às telas do cinema um pouco da tradição mexicana a respeito da morte – e assina a produção do longa até então engavetado pela DreamWorks. 

Em uma espécie de malabarismo muito bem orquestrado, Gutiérrez conta a estória em três universos diferentes. Uma guia conduz um grupo de crianças até uma espécie de sala secreta durante uma visita ao museu, lá, ela abre o chamado Livro da Vida (título original do filme), documento que contém os registros da existência de todos os seres humanos. Com o livro em mãos, a guia passa a narrar a disputa do ex-casal La Muerte (Kate del Castillo), a governante do Reino dos Lembrados, e Xibalba (Ron Perlman), governante do Reino dos Esquecidos.

Em busca de governar o alegre Reino dos Lembrados, Xibalba propõe uma aposta à La Muerte. O ganhador seria aquele que acertasse quem levaria o coração da jovem Maria (Zoe Saldana), filha do chefão da cidade de San Juan. No duelo estavam o doce Manolo (Diego Luna), escolhido de La Muerte, e o ambicioso Joaquin (Channing Tatum), escolhido de Xibalba.

O título brasileiro cai muito bem ao filme. Uma festa. Festa de personagens, de estórias, de cores, de música. Gutiérrez conduz o espectador pelo mundo mágico do pós-morte, uma fantasia alegórica arquitetada através dos costumes e tradições mexicanas. A estética é um primor, adotando uma linguagem visual diferente para cada um dos mundos apresentados. 

A construção dos personagens é interessante. Em um filme voltado para o público infantil, o roteiro trabalha conceitos do feminismo, através da forte protagonista Maria. O dilema vivido por Manolo o coloca entre o sonho de seguir a música e a aceitação da família, o que resulta em uma mensagem de “siga seus sonhos, seja quem você é”. Trabalham-se também alguns estigmas, como a matança de animais em touradas. Há ainda figuras como a vovó politicamente incorreta e um simpático porquinho de estimação. 

A trilha sonora é um quê a parte. Uma pena que a versão brasileira não tenha sido tão competente, apresentando algumas traduções e algumas canções legendadas, sem escolher lá ou cá. Manolo perambula com o violão pelas ruas de San Juan, cantando músicas como “Creep” do Radiohead. Uma escolha inusitada pra um filme do gênero, mas que funciona.

A tal festa no céu faz com que seja inevitável pensar em Tim Burton e seu “A Noiva Cadáver”, mas constrói os próprios méritos ao mesclar uma boa estória e uma estética original. É ousado ao dizer às crianças que é possível viver em eterna alegria após a morte, desde que se mantenha presente na memória dos vivos. Uma coisa é certa, “Festa no Céu” tem tudo pra permanecer no Reino dos Lembrados.