Mês: outubro 2014

“Garota Exemplar”

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  • Ano de Lançamento: 2014
  • País: Estados Unidos
  • Língua: Inglês
  • Título Original: “Gone Girl”
  • Diretor:  David Fincher
  • Avaliação: Pega a estatueta!

Baseado em um dos best sellers de maior sucesso do últimos tempos, o suspense “Garota Exemplar” caiu como uma luva nas mãos de David Fincher. Na lista dos filmes mais esperados do ano, chegou aos Estados Unidos como líder absoluto de bilheteria, além de ser um sucesso de crítica em Festivais ao redor do mundo.

Nick (Ben Afflecke Amy (Rosamund PikeDunne formavam o casal perfeito: bonitos, jovens, bem sucedidos, morando em um apartamento confortável em Nova Iorque. Quando a mãe de Nick adoece por conta de um câncer, Amy se vê em um carro rumo a uma nova vida no Missouri, terra natal do marido. A partir daí, o relacionamento dos dois se desgasta. No quinto aniversário de casamento, Nick chega em casa para encontrar um lar revirado e uma esposa desaparecida.

O desaparecimento de Amy comove o país. Logo, a garota exemplar se torna a queridinha da América, razão de vigílias, centros de voluntários e especiais de televisão. Nick se vê perdido no olho do furacão Amy. Catártico, sem aparentar grande entusiasmo com o sumiço da esposa, ele veste a carapuça de marido assassino e se torna o principal suspeito do caso.

O filme é contado sob duas perspectivas. O presente é narrado por Nick, enquanto este tenta equilibrar os malabares da opinião pública e policial para provar sua inocência; o passado é narrado pelo diário de Amy, que leva o espectador através da montanha-russa que é seu casamento, do conto de fadas ao thriller psicológico. O jogo de ele-disse-ela-disse cria a atmosfera de tensão necessária para ambientar o suspense.

Ter Gillian Flynn, autora do livro, como roteirista, é inteligente. As reviravoltas do best seller são mantidas na adaptação, guiadas pelo olhar de Fincher. O diretor une-se mais uma vez ao editor Kirk Baxter, resultando em uma montagem espetacular. O trabalho de edição é primoroso, mesclando as duas narrações sem perder quem assiste, criando uma linha do tempo bastante eficaz.

Ben Affleck é o Nick ideal. O comportamento passivo do marido pede por um ator como Affleck, que mostra pouca (ou nenhuma) expressividade facial, resignado na medida do personagem. O perfeito marido emasculado. Rosamund Pike tem em Amy o papel de sua carreira. A esposa carinhosa, a mulher sensual, a pior inimiga. Todos os papéis dentro de uma mesma personagem interpretados magistralmente. Não me surpreenderia ver o nome de Pike nas grandes premiações em 2015.

Me fez falta a potência visual característica de Fincher. “Garota Exemplar” é milimetricamente calculado, mas sem grandes ousadias. A fotografia acompanha as fases do casal, tons frios para os momentos de distância, tons quentes para o romance aparentemente inabalável. Tudo muito bem feito, mas quando o nome de Fincher está no meio de um projeto, se espera muito mais.

Não existe casal perfeito. O relacionamento de Nick e Amy Dunne é desconstruído em tela para mostrar que nem mesmo um par com tudo pra dar certo escapa dos problemas típicos do matrimônio. David Fincher nos guia através de uma jornada pelos instintos humanos em uma trama que faz com que o espectador se remexa na poltrona. Talvez o que nos inquiete afinal de contas seja saber que, dos insucessos da vida, todos somos reféns. 

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“Trash: A Esperança Vem do Lixo”

  • Ano de Lançamento: 2014
  • País: Brasil/Reino Unido
  • Língua: Português/Inglês
  • Título Original: “Trash: A Esperança Vem do Lixo”
  • Diretor:  Stephen Daldry
  • Avaliação: Pra parar e refletir

É em meio à imundice de Behala, um lixão em uma cidade fictícia, que Andy Mulligan ambienta o suspense literário “Trash”. Stephen Daldry não dá nome aos bois, mas faz do Rio de Janeiro sua Behala, em “Trash: A Esperança Vem do Lixo”, adaptação encarregada de encerrar o Festival do Rio 2014.

É no meio de mais um dia de trabalho no lixão que Raphael (Rickson Tevez), um garoto de 14 anos, encontra uma carteira perdida. Dentro dela, o menino encontra não só dinheiro, como a pista inicial para uma caça ao tesouro. Junto aos amigos Gardo (Eduardo Luis) e Rato (Gabriel Weinstein), Raphael parte em busca de terminar o que José Angelo (Wagner Moura), dono da carteira, começou.

A busca passa de curiosidade à situação de perigo quando o policial Frederico (Selton Mello) demonstra um interesse especial pelos três meninos. Logo, o trio descobre que tem em mãos a chave para desvendar um caso de corrupção envolvendo o então candidato a prefeito do Rio de Janeiro, Antonio Santos (Stepan Nercessian). Decididos a “fazer o certo”, os meninos seguem as pistas encontradas na carteira rumo a prisões, estações de trem movimentadas e cemitérios.

O livro narra uma aventura protagonizada por três meninos que se tornam heróis diante de circunstâncias anormais, já o filme adapta a estória para uma trama de escândalos políticos e corrupção. O papel de herói passa a ser de José Angelo, que pouco aparece em cena, mas é quase canonizado pela narração. É inegável, no entanto, que a escolha do trio de protagonistas foi muito bem executada. A decisão, à lá Fernando Meirelles (não à toa, já que o filme é uma co-produção da O2, de Meirelles), de estrelar o filme com três atores de primeira viagem é interessante, e o resultado funciona.

O elenco conta com dois grandes brasileiros: Wagner Moura e Selton Mello. Moura absurdamente melhor que Mello, apesar da diferença de tempo em cena. Em alguns momentos é difícil não se perguntar se a inversão dos papéis não seria uma escolha mais inteligente. Talvez fosse… Ou talvez produzisse um Capitão Nascimento: Reloaded. Quem sabe. A promissora Rooney Mara (espetacular em “Millenium”) e o grande Martin Sheen são presos a dois papéis insossos, sem muita abertura para grandes interpretações.

A direção de arte é minuciosa. Toda a área do lixão foi criada exclusivamente para o filme. O produto apresentado em tela impressiona. A trilha sonora não foge do be-a-bá-filme-rodado-no-Brasil, triste, pois o suspense poderia ter sido embalado por uma série de canções mais bem pensadas.

É inegável a absurda falta de trabalho do roteiro. Nas mãos de Richard Curtis – consagrado por obras como “Simplesmente Amor” e “Um Lugar Chamado Notting Hill” – e do brasileiro Felipe Braga, o roteiro se perde pra se perder de novo, em uma sucessão de clichês rasos e brechas para questionamentos do espectador. Os quinze minutos finais são um espetáculo do improvável, dignos de gargalhadas desconfortáveis.

Apesar dos pesares, “Trash: A Esperança Vem Do Lixo” é filme pra se ver. Exemplifica o que o Festival do Rio nos disse esse ano: “todos os olhares do mundo no Rio”. Um olhar estrangeiro sobre tudo aquilo que já nos é intrínseco, e que assistimos e assistimos em filmes como “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”. É… O produto nacional é melhor que o importado, mas essa já é outra discussão.