Mês: setembro 2014

“La Sapienza”

  • Ano de Lançamento: 2014
  • País: França
  • Língua: Francês/Italiano
  • Título Original: “La Sapienza”
  • Diretor:  Eugène Green
  • Avaliação: A Arbez

Sair em viagem a fim de tentar resolver os problemas acumulados no cotidiano. É dessa premissa que partem dezenas de filmes e é dessa premissa que parte “La Sapienza”, novo filme do diretor Eugène Green.

Alexandre (Fabrizio Rongione), um arquiteto francês, frustra-se com as limitações impostas pelos desejos da arquitetura moderna. A esposa, Aliénor (Christelle Prot), arrasta-se pelos encontros de trabalho sem qualquer motivação. Os dois reúnem-se em jantares vazios e obrigações impostas por um casamento falido. Quando Alexandre resolve partir pela Itália em busca de inspiração nas obras de seus ídolos, Guarini e Borromini, Aliénor decide acompanha-lo e quebrar a rotina maçante do casal.

A primeira parada é a bucólica Stresa, uma pequena cidade à beira-mar. Lá, o casal esbarra com os irmãos Goffredo (Ludovico Succio) e Lavínia (Arianna Nastro), um futuro estudante de arquitetura e uma jovem enferma. A partir desse encontro, a viagem bifurca-se: Alexandre segue a viagem na companhia de Goffredo, mestre e aprendiz percorrendo os roteiros arquitetônicos italianos; Aliénor permanece em Stresa, atraída a compreender e acalentar a fragilidade de Lavínia.

A estética do filme de Green é primorosa. A composição simétrica, os personagens sempre em primeiro plano, no centro da tela, olhares voltados para o espectador. O trabalho de câmera, quase uma aula de cinema. O embasamento histórico é tão intrinsicamente ligado ao enredo que assume a forma de personagem.

As cidades italianas tiram o fôlego do espectador, assim como a fotografia muito bem conduzida pelo antigo parceiro do diretor, Raphaël O’Byrne. A trilha sonora veste as imagens como uma luva. Um filme produzido milimetricamente.

Além da construção imagética, “La Sapienza” conta com excelente elenco. A rigidez de Ronglone, contraposta à melancolia da belíssima Christelle Plot. Aliás, destaque para Prot, que prende os olhares do espectador cada vez que entra em cena. A aposta nos novatos Ludovico Succio e Arianna Nastro é inteligente, fresca e – por muitas vezes – capaz tanto de suavizar quanto de intensificar a interação entre a dupla de protagonistas.

Apesar da bela composição, “La Sapienza” tropeça no roteiro. A proposta inicial, relacionar a arquitetura, o aproveitamento do espaço e da luz, à sabedoria é interessante. Porém mal desenvolvida. A linha narrativa é inconstante e o filme alastra-se em diálogos longos recheados de clichês. A força da linguagem estética é diluída pela inconsistência da estória. O rigor com que são dirigidos os personagens é inicialmente incômodo e, seria digest se acompanhado por um bom texto, o que não acontece. Como diretor, Green entrega um belo filme, como roteirista, falha brutalmente.

“O que há além da beleza e da ciência?”, o filme propõe-se a responder. A beleza é inegavelmente vista em tela; a ciência está ali através da decomposição das obras dos grandes mestres barrocos. É. O que há, enfim, além da beleza e da ciência, Green? Talvez seja uma boa estória. 

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Festival do Rio 2014 – O que assistir?

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O Festival do Rio 2014 começa nesta quarta-feira, 24 de Setembro, e vai até o dia 8 de Outubro. Este ano o Festival traz obras de nomes como David Cronenberg, Richard Linklater, David Lynch e Xavier Dolán.

São quase 360 filmes, de mais de 60 países, organizados em torno de 20 mostras, por 30 salas de cinema do Rio de Janeiro. Abaixo, minhas dicas do que assistir durante as duas semanas de Festival: 

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Filmado ao longo de onze anos com o mesmo elenco, “Boyhood”, de Richard Linklater, conta a história de Mason da infância à adolescência. Ganhador do Prêmio de Melhor Diretor em Berlim, “Boyhood” resulta de uma experiência nunca antes realizada no cinema.

Baseado no best-seller de Gillian Flynn, “Garota Exemplar” é um suspense estrelado por Ben Affleck e dirigido por David Lynch. Aliás, por falar em David, “Mapas Para as Estrelas”, novo filme de David Cronenberg, é boa pedida para o Festival.  O filme rendeu Melhor Atriz em Cannes 2014 para Julianne Moore.

Do britânico Mike Leigh, “Mr. Turner” conta a conturbada trajetória de vida de um dos mais importantes pintores ingleses, J. M. W. Turner. Algumas das obras do pintor estão na National Gallery, em Londres, que é tema central do documentário “National Gallery”, do grande documentarista Frederick Wiseman.

Xavier Dolán assina “Mommy”, a história de uma viúva mãe de um adolescente com déficit de atenção. Win Wenders traz “Catedrais da Cultura – parte 1” e divide a direção com Juliano Ribeiro Salgado em “O Sal da Terra”, documentário sobre o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado. Eugène Green estará no Festival para apresentar “La Sapienza”.

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Ricardo Darín, astro argentino, estrela o suspense “Sétimo”, de Patxi Amezcua. Shirley MacLaine e Christopher Plummer protagonizam “Elsa & Fred”, um romance de Michael Radford. Michael Fassbender e Domhnall Gleeson estão juntos na simpática comédia dramática “Frank”, de Lenny Abrahamson. Os astros da comédia, Bill Hader e Kristen Wiig, dividem a tela em “The Skeleton Twins”, de Craig Johnson. Adam Driver (uma grande promessa, por sinal) é o protagonista do drama “Corações Famintos”.

Vale a pena checar títulos como: “Metamorfoses”, suspense francês de Christophe Honoré, baseado no poema narrativo Metamorfoses, de Ovidio. “Ida”, drama polonês de Pawel Pawlinowski. “’71”, um drama de época que relata os conflitos da Irlanda do Norte em 1971, de Yann Demange. “Listen Up Philip”, um drama de Alex Ross Perry, estrelado por Elisabeth Moss e Jason Schwartzman. O holandês “Blind”, de Eskil Vogt, tem uma das sinopses mais interessantes do catálogo. 

Para explorar um pouco mais sobre povos, religões e culturas ao redor do mundo, minhas dicas são: “O País de Charlie”, de Rolf de Heer, um drama australiano que conta a história de um aborígene que sonha com a casa própria. “Timbuktu”, filme francês de Abderrahmane Sissako,  debate o extremismo religioso. “Viemos em Paz”, documentário de Hubert Sauper, que registra o momento político do Sudão, maior país do continente africano. “Pescando Sem Redes”, de Cutter Hodierne, retoma o tema da pirataria Somali de “Capitão Philips”.

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Bons títulos pra se apostar em terror são: “Corrente do Mal”, americano de David Robert Mitchell, e “Primavera”, de Justin Benson e Aaron Moorhead. Um suspense interessante, “Carvão Negro”, chinês de Diao Yinan, narra a investigação de um serial killer. O filme de Yinan levou o Urso de Ouro em Berlim 2014.

O Festival traz uma série de promissores documentários como “Altman: um cineasta americano”, de Ron Mann, que conta a história de Robert Altman, um dos grandes nomes do cinema americano; “The New York Review of Books: uma reflexão de 50 anos”, dirigido por Martin Scorsese e David Tedeschi, filme que comemora o aniversário de cinquenta anos da revista New York Review of Books; E o brasileiro “E agora? Lembra-me” de Joaquim Pinto, que acompanha a batalha do diretor contra o HIV e a hepatite C por longos vinte anos.

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A Premiére Brasil, mostra dedicada ao cinema brasileiro, reúne 69 títulos nacionais, entre longas, curtas, ficções e documentários. Irandhir Santos, um dos grandes nomes do cinema atual brasileiro (“O Som ao Redor”, “Tatuagem”), está em “Ausência”, de Chico Teixeira, “Permanência”, de Leonardo Lacca, “Obra”, de Gregorio Graziosi e “A Luneta do Tempo”, um drama musical que marca a estreia de Alceu Valença como diretor de cinema. “Campo de Jogo”, de Eryk Rocha, é um documentário sobre o futebol no bairro de Sampaio. “Favela Gay”, de Rodrigo Felha, mostra como é a vida da comunidade LGBT nas favelas do Rio de Janeiro. 

Este ano, o Festival traz retrospectivas de três grandes diretores do cinema mundial: Michael Cimino, Alfred Hitchcock e Roberto Rossellini. Qualquer escolha de título entre essas mostras não decepciona, mas, vale a pena abrir um espaço no cronograma para “O Franco Atirador”, “Viagem à Itália”, “Blackmail”, “Horas de Desespero” e o épico “O Portal do Paraíso”, um dos maiores fiascos da história do cinema.

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Pra fechar, o Festival traz a versão restaurada de “A Hard Day’s Night: Os Reis do iê iê iê”, de Richard Lester. Comédia musical de 1964 estrelada pelos Beatles, “A Hard Day’s Night” é considerado por muitos um dos melhores filmes de todos os tempos.

“Anjos da Lei 2”

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Baseado na série de TV americana homônima responsável por lançar Johnny Depp, “Anjos da Lei” foi um sucesso de crítica e bilheteria, consagrado uma das melhores comédias recentes. Com a missão de segurar a peteca do primeiro filme, “Anjos da Lei 2” chega aos cinemas investindo na mesma fórmula do filme anterior.

Na sequência, os detetives Jenko (Channing Tatum) e Schmidt (Jonah Hillsão encarregados, mais uma vez, de investigar um esquema de tráfico de drogas em um ambiente de estudo. Agora, a dupla é enviada para a faculdade a fim de estudar a distribuição de uma pílula estimulante que se espalhou rapidamente pelo campus.

Desde a primeira cena, o filme investe na auto referência, assumindo as origens da televisão e os clichês de comédia. De uma forma muito bem pensada, a passagem inicial tanto situa o espectador quanto concretiza a forma de humor que molda a trama daí pra frente.

Com o formato de uma comédia romântica, “Anjos da Lei 2” aposta em um retrato ambíguo da relação entre os protagonistas. Schmidt não contém os ciúmes ao ver Jenko com um novo amigo (loiro, alto, bonito e jogador de futebol), o desgaste da convivência leva os dois a sugerir uma “investigação aberta” e as discussões entre a dupla os leva a uma sessão de terapia de casal. São nesses momentos de interação entre os detetives que a comédia ganha força – e o público.

Aliás, os louros colhidos pelo filme são mérito da dupla Jonah Hill e Channing Tatum. Ainda mais afiados do que no filme anterior, os atores mostram um entrosamento invejável em tela. Confortáveis em papéis que aprenderam a dominar, a dupla conquista quem assiste e arranca risadas fáceis da plateia.

O roteiro poderia ter sido mais trabalhado. Um malabarismo de personagens sem fins concretos e estórias secundárias incompletas. Ao priorizar a o relacionamento da dupla principal, o filme ofusca o que acontece ao redor. Algumas cenas são mal concluídas, sem os retoques necessários para torná-las críveis.

Para a sequência, foram mantidos os mesmos diretores do primeiro filme, o ótimo par Phil Lord e Chris Miller, de “Uma Aventura Lego” e “Tá Chovendo Hamburguer”. Os diretores garantem um ritmo rápido e bem estruturado ao filme. A enxurrada de piadas, trocadilhos e mensagens subliminares é por eles muito bem administrada.

Em um ano de lançamentos como “Vizinhos”, “Anjos da Lei 2” concretiza um estilo de comédia cada vez mais presente no cenário. Prato cheio àqueles que entram em uma sala de cinema pra se divertir. O final dá a entender que veremos Jenko e Schmidt juntos novamente. À isso, eu cruzo os dedos.  

“Chef”

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Jon Favreau construiu uma bela carreira ao longo dos últimos anos. A frente do sucesso estrondoso “Homem de Ferro”, o ator/diretor/roteirista/produtor, colocou seu nome sob os holofotes de Hollywood. Em “Chef”, Favreau deixa de lado os grandes blockbusters e se aventura em uma comédia leve e intimista. A aposta estreou no Festival de Tribeca, e teve uma das melhores bilheterias para filmes independentes.

Quando um famoso crítico gastronômico (Oliver Platt) decide visitar o Riva, restaurante onde trabalha o chef Carl Casper (Jon Favreau) a equipe da cozinha investe em um menu diferente para agradar o escritor. No entanto, Riva (Dustin Hoffman), o dono do restaurante, corta as asas do chef e demanda que o menu seja o tradicional be-a-bá do local. A visita do crítico acaba em desastre com um texto detonando a falta de criatividade do menu e o estado de conforto de Casper.

Ao tentar responder o crítico, Carl acaba se tornando um viral na internet. O chef perde o emprego, o restaurante, e o equilíbrio. É então que sua ex-mulher, Inez (Sofía Vergara), o convida a acompanha-la em uma viagem a Miami com o filho do casal, Percy (Emjay Anthony). Inez crê que, ao voltar para a cidade onde começou a carreira, Casper possa encontrar uma maneira de seguir em frente.

Durante a viagem, Carl é exposto à cultura cubana, de presença forte na cidade. Não só a comida, como a música, tornam-se grandes influências para o chef (e para o filme em geral), que decide aceitar a proposta antiga de Inez: abrir um food truck. Surge então o El Jefe, trailer que serve fast food de comida cubana.

A partir daí o filme torna-se um road movie. Carl, Martin (John Leguizamo) – parceiro de longa data do chef – e Percy levam o trailer de cidade a cidade e veem o negócio se tornar um sucesso rapidamente.

É na estrada que os problemas de Casper se resolvem, como manda p ABC de um road movie. O pai ausente aprende a conhecer melhor o filho, o homem que perdeu a mulher tenta reacender o que havia no relacionamento, e o profissional frustrado se encontra. Clichê, verdade, mas não machuca ninguém.

Favreau montou um time de craques no elenco. Dustin Hoffman, Sofia Vergara, Scarlett Johansson e Olver Platt têm papéis pequenos, mas de grande contribuição para a estória. Fechando o time, Robert Downey Jr. aparece como o ex-marido de Inez, Marvin, personagem que traz à tela um pouco do sarcasmo cômico de Tony Stark.

Sem grandes malabarismos técnicos, o filme ganha na simplicidade. Uma fotografia que se divide em dois momentos: antes e depois do El Jefe. Tons escuros quando o chef está preso em um emprego que lhe bloqueia, e tons claros quando assume as rédeas do trailer. A trilha sonora é excelente, o toque latino é uma escolha certeira. A câmera, quase sempre fechada nos pratos montados por Casper, dá água na boca de quem vê.

“Chef” é leve, tranquilo, um filme que sabe a que veio e o lugar que deve ocupar. Sem grandes pretensões. Favreau oferece um prato cheio ao espectador, que me perdoem o trocadilho. É filme pra assistir no sofá, com a família ou os amigos, e não se torna menor por isso. Que “Chef” não é pra cardápio de restaurante fino, todos concordamos, mas é um belo prato de fast food.