“Alabama Monroe”

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  • Ano de lançamento: 2012
  • País: Bélgica
  • Língua: Flamengo
  • Título original: “The Broken Circle Breakdown”
  • Diretor:  Felix van Groeningen
  • Avaliação: Pega a estatueta

O romance entre Elise (Veerle Baetens) e Didier (Johan Heldenbergh) parece improvável. Ela, uma tatuadora com o corpo preenchido de desenhos, jeito impulsivo e personalidade forte. Ele, um músico apaixonado pelo bluegrass americano, de aparência bronca e valores céticos.  Apesar do contraste, os dois formam um casal apaixonado que vive em uma fazenda na Bélgica.

Quando a filha do casal, Maybelle (Nell Cattrysse), uma menina de seis anos, é diagnosticada com leucemia, a vida do par vira de cabeça para baixo. O pequeno conto de fadas vivido na casa que o próprio Didier construíra para a família termina no leito de um hospital, com Elise debruçada sob a cama da criança. Vemos as primeiras sessões de quimioterapia, a perda dos cabelos, e os cansativos procedimentos médicos transformarem a garota que corria vestida de super-heroína em um ser frágil, aninhado nos braços dos pais.

A linha narrativa é descontínua, mesclando cenas de épocas diferentes da vida do casal. Em um instante, estamos ao lado de Maybelle no hospital, em outro, vemos como o músico e a tatuadora se conheceram. A transição entre momentos pesados e tranquilos é brusca, mas muito bem construída. Palmas aos roteiristas, Carl Joos e Felix van Groeningen, que souberam calcular as deixas certas para as mudanças de cenário.

O roteiro, aliás, é baseado na peça escrita por Johan Heldenbergh, intérprete de Didier. Johan é excepcional. Sempre certeiro, sem exageros, o ator não se deixa ofuscar pelo brilho evidente de Veerle Baetens, consagrada em diversos festivais pelo papel. A atriz é visceral, seja nos olhares serenos que troca com o marido, ou nos momentos mais profundos de luto.

“Alabama Monroe” é um cardápio cinematográfico. Hora romance, hora drama, hora – quiçá – até musical. Enquanto conta a história da dupla, o filme tece críticas sobre o desenvolvimento da medicina e dogmas religiosos. Vemos Elise se agarrar a uma pequena cruz nos momentos de desespero, e um Didier apaixonado pela América se contorcer ao assistir George Bush na televisão. A religião é debatida por diversos ângulos. Se é muleta pra amparo em tempos difíceis, ou necessidade orgânica humana de acreditar em algo, não se afirma, mas vale a reflexão.

O filme funciona. Fotografia, direção de arte, trilha sonora. Os tons quentes das noites de música ao vivo contrapostos aos tons frios dos dias no hospital. A trilha sonora, nas mãos de Bjorn Eriksson, é daquelas pra colocar no replay. Interpretadas pelos atores, as músicas vão de composições de bluegrass clássico a Johnny Cash, não a toa ficou em primeiro lugar em vendas na Bélgica.

O grande mérito de “Alabama Monroe” é não se deixar consumir pelo impacto causado pela doença infantil. Difícil não desviar o olhar ao assistir uma menina de seis anos ser levada pelo câncer, mas o filme é muito mais do que isso. É uma alegoria sobre o luto, uma experiência quase antropológica, o dissecar de uma vida a dois. O que nos incomoda, afinal, é ver a vida em forma de vida. E dela, meu amigo, a gente não escapa. 

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