“Gêmeos – Mórbida Semelhança”

image

Um dos reis do terror e da ficção, David Cronenberg dissecou em tela alguns dos maiores medos e inquietações humanas. Da sexualidade à psique, o diretor desenhou clássicos como “A Mosca” e “Videodrome”. Em “Gêmeos – Mórbida Semelhança”, Cronenberg deixa um pouco de lado os malabarismos visuais para criar uma obra de intensa reflexão psicológica, mergulhando nos cantos mais obscuros do subconsciente.

Beverly e Elliot Mantle (Jeremy Irons) são gêmeos idênticos, ambos ginecologistas especializados em fertilização. A semelhança entre os dois é tamanha que não há quem os consiga diferenciar. Conscientes de sua aparência, os irmãos se revezam entre cirurgias, consultas médicas e até mesmo entre conquistas amorosas. Enquanto Elliot se utiliza do charme extrovertido para fisgar mulheres para o irmão, Beverly se dedica à pesquisa acadêmica que resulta nos prêmios assumidos publicamente pelo gêmeo.

As personalidades opostas tornam os Mantle interdependentes. Dividem o mesmo apartamento, mesmo local de trabalho e compartilham cada detalhe de suas vidas. Elliot, entretanto, sustenta o título de líder da relação, capaz de moldar a personalidade frágil e maleável do irmão. Ao surgir na clínica dos Mantle a famosa atriz Claire Niveau (Geneviève Bujold), o relacionamento dos dois passa por uma desestabilidade hierárquica.

Niveau procura um ginecologista pra tirar as dúvidas sobre sua fertilidade. Por meio deles, descobre ter um útero trifurcado, ou seja, nunca vai poder ser mãe. Elliot a leva pra jantar e, como de costume, usa o charme para conquistar a atriz. Após uma noite com Niveau, Elly “repassa” a conquista ao irmão, propondo que os dois se encontrem no dia seguinte. Receoso de início, Beverly aceita a proposta e passa uma noite com a mulher. É a partir desse encontro que este passa a questionar a submissão que presta ao irmão, uma vez que se dispõe a assumir os riscos advindos do vínculo criado com Claire – ao qual Elliot se opõe – criando a primeira grave desavença entre os Mantle.

A “liberta” atriz apresenta Beverly ao mundo das drogas e, sob o efeito dos sedativos e tarjas pretas, os dois constroem um relacionamento que por um tempo parece funcionar. Quanto mais próximo Beverly se torna de Claire, mais distante fica de Elliot. Quando Niveau precisa sair da cidade para as filmagens de um novo trabalho, seu amante mergulha de cabeça nas drogas, compensando a falta da companheira.

A Cronenberg não falta o talento do subtexto. O útero trifurcado de Claire, uma analogia ao triângulo amoroso que se forma em tela; as críticas a respeito de arte versus ciência por meio dos aparelhos criados pelos gêmeos; referências a Chang e Eng Bunker, gêmeos siameses que se tornaram alegoria da interdependência fraterna. Tudo é perfeitamente projetado na composição da trama.

Na pele de Elliot e Beverly, Jeremy Irons tem uma das melhores atuações da carreira. Três anos depois, viria a ser premiado com o Oscar de Melhor Ator por “Reverso da Fortuna”. Uma pena que a estatueta não lhe tenha sido entregue pelo trabalho que apresenta aqui. Geneviève Bujold é uma parceira sóbria, que cria as lacunas certas a serem preenchidas por Irons.

Nas mãos de Cronenberg, somos obrigados a encarar a desconstrução do ser humano. Passo a passo, vemos o homem se despir rumo à matéria crua da existência – e queremos mais. Por um segundo, não nos preocupamos em diferenciar o que é realidade e o que é devaneio. Confiamos nele. O que mais podemos pedir do cinema? 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s