Mês: julho 2014

“Gêmeos – Mórbida Semelhança”

image

Um dos reis do terror e da ficção, David Cronenberg dissecou em tela alguns dos maiores medos e inquietações humanas. Da sexualidade à psique, o diretor desenhou clássicos como “A Mosca” e “Videodrome”. Em “Gêmeos – Mórbida Semelhança”, Cronenberg deixa um pouco de lado os malabarismos visuais para criar uma obra de intensa reflexão psicológica, mergulhando nos cantos mais obscuros do subconsciente.

Beverly e Elliot Mantle (Jeremy Irons) são gêmeos idênticos, ambos ginecologistas especializados em fertilização. A semelhança entre os dois é tamanha que não há quem os consiga diferenciar. Conscientes de sua aparência, os irmãos se revezam entre cirurgias, consultas médicas e até mesmo entre conquistas amorosas. Enquanto Elliot se utiliza do charme extrovertido para fisgar mulheres para o irmão, Beverly se dedica à pesquisa acadêmica que resulta nos prêmios assumidos publicamente pelo gêmeo.

As personalidades opostas tornam os Mantle interdependentes. Dividem o mesmo apartamento, mesmo local de trabalho e compartilham cada detalhe de suas vidas. Elliot, entretanto, sustenta o título de líder da relação, capaz de moldar a personalidade frágil e maleável do irmão. Ao surgir na clínica dos Mantle a famosa atriz Claire Niveau (Geneviève Bujold), o relacionamento dos dois passa por uma desestabilidade hierárquica.

Niveau procura um ginecologista pra tirar as dúvidas sobre sua fertilidade. Por meio deles, descobre ter um útero trifurcado, ou seja, nunca vai poder ser mãe. Elliot a leva pra jantar e, como de costume, usa o charme para conquistar a atriz. Após uma noite com Niveau, Elly “repassa” a conquista ao irmão, propondo que os dois se encontrem no dia seguinte. Receoso de início, Beverly aceita a proposta e passa uma noite com a mulher. É a partir desse encontro que este passa a questionar a submissão que presta ao irmão, uma vez que se dispõe a assumir os riscos advindos do vínculo criado com Claire – ao qual Elliot se opõe – criando a primeira grave desavença entre os Mantle.

A “liberta” atriz apresenta Beverly ao mundo das drogas e, sob o efeito dos sedativos e tarjas pretas, os dois constroem um relacionamento que por um tempo parece funcionar. Quanto mais próximo Beverly se torna de Claire, mais distante fica de Elliot. Quando Niveau precisa sair da cidade para as filmagens de um novo trabalho, seu amante mergulha de cabeça nas drogas, compensando a falta da companheira.

A Cronenberg não falta o talento do subtexto. O útero trifurcado de Claire, uma analogia ao triângulo amoroso que se forma em tela; as críticas a respeito de arte versus ciência por meio dos aparelhos criados pelos gêmeos; referências a Chang e Eng Bunker, gêmeos siameses que se tornaram alegoria da interdependência fraterna. Tudo é perfeitamente projetado na composição da trama.

Na pele de Elliot e Beverly, Jeremy Irons tem uma das melhores atuações da carreira. Três anos depois, viria a ser premiado com o Oscar de Melhor Ator por “Reverso da Fortuna”. Uma pena que a estatueta não lhe tenha sido entregue pelo trabalho que apresenta aqui. Geneviève Bujold é uma parceira sóbria, que cria as lacunas certas a serem preenchidas por Irons.

Nas mãos de Cronenberg, somos obrigados a encarar a desconstrução do ser humano. Passo a passo, vemos o homem se despir rumo à matéria crua da existência – e queremos mais. Por um segundo, não nos preocupamos em diferenciar o que é realidade e o que é devaneio. Confiamos nele. O que mais podemos pedir do cinema? 

Anúncios

“O Céu É de Verdade”

Baseado no best-seller homônimo, “O Céu é de Verdade” conta a história de um pastor que precisa lidar com as alegações do filho sobre ter visitado o paraíso.  O filme, estrelado por Greg Kinnear, tem direção de Randall Wallace, responsável por filmes como “Coração Valente” e “O Homem da Máscara de Ferro”.

Todd Burpo (Greg Kinnear) parece ter a vida perfeita: uma esposa atenciosa que dedica tardes a treinar um coral de altar, dois filhos tranquilos e o cargo de pastor na igreja que ele a família frequentam. A única exceção à perfeição da vida de Todd são os problemas financeiros que ele enfrenta, causados, em parte, pelo fato do pastor ser “bom demais” para cobrar pelos serviços que muitas vezes realiza enquanto faz as manobras necessárias para se virar entre seus cinco (isso mesmo, cinco) empregos.

Após um incidente, o pastor vê seu filho mais novo, Colton (Connor Corum), ser internado às pressas para uma cirurgia de emergência. Ao se recuperar do procedimento, a criança conversa com o pai sobre uma experiência que viveu durante a internação. Colton alega ter visitado o que, supostamente, seria o paraíso, inclusive pôde ver Jesus, anjos e animais. Ao ouvir o relato do filho, Burpo passa a repensar tudo aquilo em que acreditava.

O filme é uma alegoria religiosa preparada quase como um instrumento de evangelização. No roteiro, o que não falta são diálogos clichês sobre Deus, a fé e o amor. Os pequenos momentos em que a família ideal do pastor se desvirtua de sua excelência são forçados, como em uma cena em que a esposa decide quebrar um prato em um pseudo-surto-de-raiva ou quando a filha mais velha agride dois colegas de escola em defesa do irmão, deixando os pais – adivinhem? – orgulhosos.

O roteiro em si é uma bagunça. Um prólogo desnecessário, cenas aleatórias e contradições constantes. Uma hora o pastor é um beato completo, em outra é descrente e confuso, recorrendo a psicólogos e amigos próximos pra desabafar sobre suas dúvidas. O filme é clichê atrás de clichê, apelando pra cenas com uma carga dramática duvidosa em busca de lágrimas do espectador.

Os questionamentos que poderiam ter sido bem trabalhados durante o filme acabam por perder significância em meio à superficialidade com a qual são tratados. A direção é insípida, incapaz de reverter os erros do roteiro. O elenco, que conta com nomes como Greg Kinnear e Margo Martindale, tem um nível razoável, mas é prejudicado por conta dos diálogos triviais.

“O Céu É de Verdade” é um filme de nicho, mas isso não é desculpa para tantas limitações. Talvez coubesse melhor na televisão, quem sabe. Se há um céu? Eu não sei… Mas com certeza há muitas maneiras melhores de se construir um filme.  

“Terapia de Risco”

image

Um dos diretores mais versáteis do cinema, Steven Soderbergh já navegou entre a comédia, o documentário e o drama. O diretor passeou pelos gêneros em seus últimos trabalhos, “Contágio” e “Magic Mike”. Em “Terapia de Risco” vemos um Soderbergh em plena forma, realizando os malabarismos cinematográficos de costume.

Emily Taylor (Rooney Maraé diagnosticada com depressão após o retorno do marido (Channing Tatum), que passou quatro anos na cadeia por utilização de informações ilícitas em um negócio na Bolsa de Valores de Nova Iorque. Para que pudesse evitar a internação a fim de continuar trabalhando, Emily concorda em realizar um tratamento com o psiquiatra Jonathan Banks (Jude Law). O médico, levando em consideração o estado da paciente – que chegou ao ponto de tentar o suicídio – decide prescrever alguns antidepressivos.

Com a medicação recomendada não parecendo surtir efeito, Taylor continua a mergulhar em um estado de melancolia profunda. Em uma consulta, Emily sugere à Banks um tratamento com um novo medicamento, Ablixa. O psiquiatra decide então receitar a nova droga à paciente, que retorna a seu consultório alguns dias depois alegando sofrer de sonambulismo como efeito colateral.

Um assassinato ocorre, e a partir daí o filme constrói a ponte que faz a passagem de um drama melancólico a um thriller cheio de reviravoltas. A inversão de protagonistas faz com que a trama ganhe novos pontos de vista. Nas mãos de Soderbergh, a virada do filme é muito bem administrada, sem perder o espectador. Uma manobra arriscada, mas bem formulada, com cara e jeito de diretor que sabe o que faz.

O filme é capaz de tecer uma boa crítica à indústria farmacêutica nos Estados Unidos, onde o consumo de medicamentos é tão comum quanto chupar uma bala. Somos apresentados a propagandas que prometem a felicidade rápida e fácil aos que consumirem as pílulas. O uso das drogas é banalizado, como em uma sequência em que Banks diz à esposa que os calmantes que ela está prestes a tomar para encarar uma entrevista de emprego não vão ocultar sua personalidade, pelo contrário, exaltarão suas qualidades.

O elenco é sensacional. Rooney Mara prova mais uma vez ser uma das grandes promessas desta geração de atrizes. Jude Law e Catherine Zeta-Jones (no papel da antiga psiquiatra de Emily) apresentam atuações dignas da carreira de sucesso de ambos. A direção de fotografia, também assumida por Soderbergh, encontrou na trilha sonora de  Thomas Newman o parceiro ideal. Conforme o foco da trama se altera, a fotografia e a música o acompanham, responsáveis sempre por mergulhar o espectador na nova fase que o filme adentra.

A única ressalva ao filme é o rumo que o roteiro toma quando se aproxima do desfecho. Para uma trama que cativou quem assiste durante toda sua duração, é triste que a injeção de adrenalina caia quando o final se aproxima. Com um roteiro promissor, a obra prometia um final avassalador, que não entrega. Porém, um trabalho construído tão competentemente não perde seus méritos pela falha.

Soderbergh disse estar se despedindo do mercado, deixando “Terapia de Risco” e o telefilme “Behind The Candelabra” como seus últimos trabalhos na direção. Uma pena. Ao assistir um filme como “Terapia de Risco”, fica clara a lacuna que o diretor vai deixar. Bom, só nos resta procurar nossos próprios Ablixa, quem sabe assim a gente drible a saudade. 

“O Grande Hotel Budapeste”

image

  • Ano de lançamento: 2014
  • País: Estados Unidos
  • Língua: Inglês
  • Título original: “Grand Budapest Hotel”
  • Diretor: Wes Anderson
  • Avaliação: Pega a estatueta!

Wes Anderson é mais do que diretor. É marca registrada, assinatura, carimbo. Uma vez de frente pra um de seus trabalhos, é difícil não saber de quem se trata. Ao longo da carreira, Anderson dirigiu filmes como “O Fantástico Senhor Raposo”, “Os Excêntricos Tenembauns” e “Moonrise Kingdom”, alegorias que viriam a torná-lo um dos cineastas mais identificáveis do cenário. “O Grande Hotel Budapeste”, seu novo filme, é a consagração de seu estilo de cinema.

A história tem início nas memórias de um famoso escritor (Tom Wilkinson) que, para explicar o processo de escrita de um de seus maiores sucessos, vasculha uma viagem que fizera ao Grande Hotel Budapeste, na fictícia República de Zubrowka. Dentro das lembranças do autor, está um encontro que tivera com M. Moustafa (F. Murray Abraham), dono do hotel. No encontro, o magnata decide lhe contar como acabou herdando o local. É desse relato que surge a história de M. Gustave (Ralph Fiennes) e Zero (Tony Revolori), seu fiel escudeiro.

M. Gustave é o sedutor concierge do Hotel Budapeste, uma ilustre hospedagem nos Alpes europeus. Lá, Gustave é o grande maestro, responsável por satisfazer os clientes e organizar os funcionários. Ao seu lado, está o sempre prestativo Zero, o mensageiro do lugar. Com a morte de uma abastada cliente do hotel, por quem Gustave nutria sentimentos mais do que profissionais, ele e seu escudeiro partem em direção à mansão da falecida, a fim de prestar suas condolências (e algumas segundas intenções menos honráveis).

Quando Gustave chega à mansão, descobre ter herdado uma obra de valor inestimável, fato que a desregulada família da finada Madame D. (Tilda Swinton) não deixa passar em branco. O filho mais velho da ricaça, Dmitri (Adrien Brody), começa então uma caça ao concierge, A partir daí, a trama passa por prisões, tiroteios, fugas, conspirações e mistérios. Uma verdadeira montanha-russa, com direito a menções – sob um olhar crítico – sobre a Guerra, com um Edward Norton fardado adentrando trens.

A obra de Wes Anderson é calculada. Dividida em capítulos, épocas e janelas de projeção, o filme é pensado milimetricamente. Anderson administra um elenco estelar a lá Woody Allen. Grandes atores em papéis pequenos, porém indispensáveis. O companheiro de longa data do diretor, Bill Murray, aparece por poucos minutos, mas é responsável por um dos melhores momentos do filme. Difícil destacar alguém nesse timaço, que inclui Tilda Swinton, Willem Dafoe, Harvey Keitel, Jude Law e Adrien Brody.

Se for pra falar de algum dos nomes de peso da trama, que se fale de Ralph Fiennes. Um parágrafo só dele, que brilha cena após cena, fazendo com que o espectador clame por mais e mais dele. Fiennes conduz a narrativa com o talento de quem sabe o que faz, navegando entre os momentos de drama e comédia habilmente, criando o fluxo que o enredo pede.

O vencedor do urso de prata no Festival de Berlim 2014 tem, além de Anderson, duas pessoas a agradecer: Adam Stockhausen, diretor de arte, e Robert D. Yeoman, responsável pela fotografia. Durante todo o filme, somos expostos a uma gama de cores e detalhes impressionantes (sem falar na qualidade dos figurinos). A composição é certeira, ainda mais ao ser embalada pela trilha sonora de Alexandre Desplat.

“O Grande Hotel Budapeste” é um sopro fresco, um filme que incorpora o que o cinema deve ser. Anderson joga na panela um romance adorável entre um mensageiro e uma confeiteira, uma fuga atrapalhada da prisão e a nostalgia de um homem que vive de lembranças. Dentro de cada história há uma nova história, um novo personagem, uma nova forma de encantar e entreter. Como incluir tanto em cem minutos? Eu não sei, mas ele o faz. E como o faz.

“O Grande Hotel Budapeste”

image

  • Ano de lançamento: 2014
  • País: Estados Unidos
  • Língua: Inglês
  • Título original: “Grand Budapest Hotel”
  • Diretor: Wes Anderson
  • Avaliação: Pega a estatueta!

Wes Anderson é mais do que diretor. É marca registrada, assinatura, carimbo. Uma vez de frente pra um de seus trabalhos, é difícil não saber de quem se trata. Ao longo da carreira, Anderson dirigiu filmes como “O Fantástico Senhor Raposo”, “Os Excêntricos Tenembauns” e “Moonrise Kingdom”, alegorias que viriam a torná-lo um dos cineastas mais identificáveis do cenário. “O Grande Hotel Budapeste”, seu novo filme, é a consagração de seu estilo de cinema.

A história tem início nas memórias de um famoso escritor (Tom Wilkinson) que, para explicar o processo de escrita de um de seus maiores sucessos, vasculha uma viagem que fizera ao Grande Hotel Budapeste, na fictícia República de Zubrowka. Dentro das lembranças do autor, está um encontro que tivera com M. Moustafa (F. Murray Abraham), dono do hotel. No encontro, o magnata decide lhe contar como acabou herdando o local. É desse relato que surge a história de M. Gustave (Ralph Fiennes) e Zero (Tony Revolori), seu fiel escudeiro.

M. Gustave é o sedutor concierge do Hotel Budapeste, uma ilustre hospedagem nos Alpes europeus. Lá, Gustave é o grande maestro, responsável por satisfazer os clientes e organizar os funcionários. Ao seu lado, está o sempre prestativo Zero, o mensageiro do lugar. Com a morte de uma abastada cliente do hotel, por quem Gustave nutria sentimentos mais do que profissionais, ele e seu escudeiro partem em direção à mansão da falecida, a fim de prestar suas condolências (e algumas segundas intenções menos honráveis).

Quando Gustave chega à mansão, descobre ter herdado uma obra de valor inestimável, fato que a desregulada família da finada Madame D. (Tilda Swinton) não deixa passar em branco. O filho mais velho da ricaça, Dmitri (Adrien Brody), começa então uma caça ao concierge, A partir daí, a trama passa por prisões, tiroteios, fugas, conspirações e mistérios. Uma verdadeira montanha-russa, com direito a menções – sob um olhar crítico – sobre a Guerra, com um Edward Norton fardado adentrando trens.

A obra de Wes Anderson é calculada. Dividida em capítulos, épocas e janelas de projeção, o filme é pensado milimetricamente. Anderson administra um elenco estelar a lá Woody Allen. Grandes atores em papéis pequenos, porém indispensáveis. O companheiro de longa data do diretor, Bill Murray, aparece por poucos minutos, mas é responsável por um dos melhores momentos do filme. Difícil destacar alguém nesse timaço, que inclui Tilda Swinton, Willem Dafoe, Harvey Keitel, Jude Law e Adrien Brody.

Se for pra falar de algum dos nomes de peso da trama, que se fale de Ralph Fiennes. Um parágrafo só dele, que brilha cena após cena, fazendo com que o espectador clame por mais e mais dele. Fiennes conduz a narrativa com o talento de quem sabe o que faz, navegando entre os momentos de drama e comédia habilmente, criando o fluxo que o enredo pede.

O vencedor do urso de prata no Festival de Berlim 2014 tem, além de Anderson, duas pessoas a agradecer: Adam Stockhausen, diretor de arte, e Robert D. Yeoman, responsável pela fotografia. Durante todo o filme, somos expostos a uma gama de cores e detalhes impressionantes (sem falar na qualidade dos figurinos). A composição é certeira, ainda mais ao ser embalada pela trilha sonora de Alexandre Desplat.

“O Grande Hotel Budapeste” é um sopro fresco, um filme que incorpora o que o cinema deve ser. Anderson joga na panela um romance adorável entre um mensageiro e uma confeiteira, uma fuga atrapalhada da prisão e a nostalgia de um homem que vive de lembranças. Dentro de cada história há uma nova história, um novo personagem, uma nova forma de encantar e entreter. Como incluir tanto em cem minutos? Eu não sei, mas ele o faz. E como o faz.