Mês: junho 2014

“Terapia de Risco”

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Um dos diretores mais versáteis do cinema, Steven Soderbergh já navegou entre a comédia, o documentário e o drama. O diretor passeou pelos gêneros em seus últimos trabalhos, “Contágio” e “Magic Mike”. Em “Terapia de Risco” vemos um Soderbergh em plena forma, realizando os malabarismos cinematográficos de costume.

Emily Taylor (Rooney Maraé diagnosticada com depressão após o retorno do marido (Channing Tatum), que passou quatro anos na cadeia por utilização de informações ilícitas em um negócio na Bolsa de Valores de Nova Iorque. Para que pudesse evitar a internação a fim de continuar trabalhando, Emily concorda em realizar um tratamento com o psiquiatra Jonathan Banks (Jude Law). O médico, levando em consideração o estado da paciente – que chegou ao ponto de tentar o suicídio – decide prescrever alguns antidepressivos.

Com a medicação recomendada não parecendo surtir efeito, Taylor continua a mergulhar em um estado de melancolia profunda. Em uma consulta, Emily sugere à Banks um tratamento com um novo medicamento, Ablixa. O psiquiatra decide então receitar a nova droga à paciente, que retorna a seu consultório alguns dias depois alegando sofrer de sonambulismo como efeito colateral.

Um assassinato ocorre, e a partir daí o filme constrói a ponte que faz a passagem de um drama melancólico a um thriller cheio de reviravoltas. A inversão de protagonistas faz com que a trama ganhe novos pontos de vista. Nas mãos de Soderbergh, a virada do filme é muito bem administrada, sem perder o espectador. Uma manobra arriscada, mas bem formulada, com cara e jeito de diretor que sabe o que faz.

O filme é capaz de tecer uma boa crítica à indústria farmacêutica nos Estados Unidos, onde o consumo de medicamentos é tão comum quanto chupar uma bala. Somos apresentados a propagandas que prometem a felicidade rápida e fácil aos que consumirem as pílulas. O uso das drogas é banalizado, como em uma sequência em que Banks diz à esposa que os calmantes que ela está prestes a tomar para encarar uma entrevista de emprego não vão ocultar sua personalidade, pelo contrário, exaltarão suas qualidades.

O elenco é sensacional. Rooney Mara prova mais uma vez ser uma das grandes promessas desta geração de atrizes. Jude Law e Catherine Zeta-Jones (no papel da antiga psiquiatra de Emily) apresentam atuações dignas da carreira de sucesso de ambos. A direção de fotografia, também assumida por Soderbergh, encontrou na trilha sonora de  Thomas Newman o parceiro ideal. Conforme o foco da trama se altera, a fotografia e a música o acompanham, responsáveis sempre por mergulhar o espectador na nova fase que o filme adentra.

A única ressalva ao filme é o rumo que o roteiro toma quando se aproxima do desfecho. Para uma trama que cativou quem assiste durante toda sua duração, é triste que a injeção de adrenalina caia quando o final se aproxima. Com um roteiro promissor, a obra prometia um final avassalador, que não entrega. Porém, um trabalho construído tão competentemente não perde seus méritos pela falha.

Soderbergh disse estar se despedindo do mercado, deixando “Terapia de Risco” e o telefilme “Behind The Candelabra” como seus últimos trabalhos na direção. Uma pena. Ao assistir um filme como “Terapia de Risco”, fica clara a lacuna que o diretor vai deixar. Bom, só nos resta procurar nossos próprios Ablixa, quem sabe assim a gente drible a saudade. 

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“Malévola”

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A desconstrução de uma das maiores e mais conhecidas vilãs da Disney acontece na tela em “Malévola”. Com um orçamento nada modesto de 200 milhões de dólares, a trama é uma vitrine de efeitos visuais. Produzido e estrelado por Angelina Jolie, o filme é o primeiro trabalho de Richard Stromberg, mago dos efeitos especiais, como diretor. 

O reino dos Moors, habitado por criaturas fantásticas, divide fronteiras com um reino comandado por homens. A rivalidade dos territórios faz com que seus respectivos habitantes não se relacionem. Quando Malévola (Angelina Jolie), uma jovem fada, conhecem Stefan (Sharlto Copley), um garoto do reino vizinho, tem início uma amizade improvável. 

Malévola e Stefan crescem juntos, correndo pelos arredores dos Moors. A amizade evolui ao ponto de parecer nascer ali uma história de amor digna de contos de fadas. Mas, ao passar do tempo, Stefan se deixa levar pela ambição e trai Malévola pela chance de assumir o trono do reino em que vive. 

Destruída pela traição do melhor amigo, Malévola se transforma. A alegre protetora dos Moors dá lugar à amargurada e funesta inimiga do reino dos homens. Ao saber do nascimento da princesa Aurora (Elle Fanning, quando jovem), primogênita do agora rei Stefan, Malévola parte a caminho do castelo e concretiza sua vingança ao lançar um feitiço sobre a criança: ao completar dezesseis anos, Aurora cairá em um sono profundo que somente poderá ser quebrado com um beijo de amor verdadeiro. 

“Malévola” é o produto das mudanças no modo de produção cinematográfico, que vem sido concretizadas ao longo dos últimos anos, um filme construído quase que integralmente a partir de efeitos visuais. Stromberg usa influências de alguns de seus trabalhos passados, como “Avatar” e “Alice no País das Maravilhas”, para criar o quimérico mundo dos Moors. 

Angelina Jolie carrega o filme nos ombros, assume as rédeas da produção e traz à vida uma vilã icônica. Jolie domina cada contorno da personagem que interpreta, é absoluta em cativar o espectador, fazendo com que seja difícil desviar o olhar a cada vez que aparece em tela. A missão da atriz era complicada, reinventar uma figura já conhecida pelo público, aliás, não só reinventá-la como humanizá-la, trazer uma das maiores vilãs da Disney pros afagos da audiência. Ela consegue, e vai muito além ao apresentar uma das melhores atuações da carreira. 

O elenco é, em grande parte, competente. Fanning se torna refém de uma personagem sem muito espaço para grandes invenções interpretativas, a doce e ingênua Aurora não passa disso: doce e ingênua. Destaque para Sam Riley, que vive o simpático parceiro de Malévola, Diaval. As três fadas interpretadas por Lesley Manville, Imelda Staunton e Juno Temple são insossas, e facilmente esquecíveis quando Jolie entra em cena. 

O problema de “Malévola” é a falta de profundidade, ou até mesmo de certa ousadia no roteiro. Em uma Disney pós-Frozen, é necessária uma história que vá além do bê-a-bá dos contos de fadas, e ofereça ao espectador algo novo. Como em “Frozen”, o debate acerca de príncipes encantados e amor verdadeiro é explorado em “Malévola”, porém, não adquire a mesma força de seu antecessor. 

 “Malévola” mostra uma nova Disney, pronta para dissecar seus grandes vilões e mocinhas, capaz de se desapegar do príncipe encantado e das histórias de amor utópicas. Apesar dos pesares, o filme triunfa. Deixe de lado a princesa sem sal, a história sem muita ousadia e a superficialidade do roteiro, “Malévola” é filme pra se lembrar.