Mês: maio 2014

“A Recompensa”

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  • Ano de lançamento: 2013
  • País: Reino Unido
  • Língua: Inglês
  • Título original: “Dom Hemingway”
  • Diretor: Richard Shepard
  • Avaliação: Qual era mesmo?

“Dom Hemingway” chega ao Brasil como “A Recompensa”. Uma pena. O longa, escrito e dirigido por Richard Shepard, não poderia perder seu título original. O filme conta a história de Dom Hemingway (Jude Law), excêntrico pilantra que passou doze anos preso por escolher não delatar um poderoso mafioso russo.

Ao sair da prisão após longos doze anos, Dom Hemingway se vê fora de forma, não tão ágil quanto nos anos de ouro, viúvo de uma esposa vítima de câncer e desprezado pela filha única. O único consolo do trapaceiro é a recompensa que espera de Mr. Fontaine (Demian Bichir), chefe da máfia para quem trabalhava e responsável pelos anos que passou na cadeia.

Ao lado do melhor amigo e parceiro, Dickie (Richard E. Grant), Dom vai à França, rumo à mansão do antigo chefe, pra buscar o dinheiro que lhe foi prometido. É aí que tem início seu festival de azares. Uma crise emocional, um acidente de carro e um furto infeliz. Desolado, Dom retorna à Londres natal, disposto a encontrar uma maneira de fazer as pazes com a filha que não vê desde que foi preso.

“A Recompensa” é divertido, mas longe de ser brilhante. O roteiro tenta construir um circo à altura do personagem principal, mas acaba por entregar um pout-pourri de situações mirabolantes e por muitas vezes mal resolvidas. Quando o filme parece assumir um caminho, se desvia rapidamente para o próximo conflito, deixando o anterior inconcluso. Shepard escorrega também em certas escolhas de direção, como a divisão do filme em capítulos, opção curiosa e que não cai muito bem à trama.  

Ainda que falho, o filme ganha pela sensacional atuação de Jude Law. A primeira cena, um monólogo de mais de três minutos sobre a perfeição do próprio pênis, é o aperitivo ideal para um cardápio completo de bizarrices acerca do protagonista. Se em “Alfie” outro filme em que interpreta o personagem-título, Law é um galã sedutor e envolvente, em “A Recompensa” o ator se transveste por inteiro, entregando ao espectador um esdrúxulo canastrão, orgulhoso não só da genitália, mas da calvície aparente e da barriguinha saliente que ostenta. Ao lado de Law está um ótimo Richard E. Grant. Coeso, o ator contrabalança a extravagância de Hemingway na pele do racional (na medida do possível) Dickie.

“A Recompensa” é o tipo de filme que não machuca ninguém, bom pra se assistir em uma sexta-feira com amigos. Construído por uma série de itens com gosto de “já vi antes”, a trama não vai muito além do arroz com feijão cinematográfico. Apesar do roteiro fraco e da direção duvidosa, Dom Hemingway acaba por nos entregar enfim, uma recompensa: Jude Law. Não posso reclamar. 

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“Yves Saint Laurent”

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Apesar de levar o nome do estilista, “Yves Saint Laurent” não foca na vida do francês. Seria pra lá de ambicioso tentar encaixar toda a trajetória de Saint-Laurent em 106 minutos. Ao invés de condensar a carreira do artista, o filme foca na relação de Yves (Pierre Niney) e Pierre Bergé (Guillaume Gallienne), com quem manteve um relacionamento durante cinquenta anos.

Logo de início, somos apresentados a um Yves de dezenove anos, que enche de desenhos e croquis as paredes de sua casa na Argélia. Dividido entre a vida tranquila ao lado da família, e o bullying que sofria na escola por possuir traços femininos, o jovem conserva uma atitude tímida e introspectiva. Considerado um prodígio no meio da moda, Saint-Laurent é contratado pela Maison Dior, do famoso estilista Christian Dior. Com a morte do mentor, quatro anos mais tarde, Yves assume o lugar de diretor de criação da Dior, aos vinte e um anos.

Com uma grande responsabilidade sobre os ombros, o estilista percebe não ter habilidades administrativas para lidar com o peso do nome da Maison. Apaixonado por desenhar, Yves se mostra um gênio criativo, mas limitado em situações práticas. Com uma convocação iminente para servir ao exército francês na Guerra da Argélia, Saint-Laurent sofre uma profunda crise emocional e é diagnosticado como maníaco-depressivo. Após a crise, Yves sai da Dior para fundar a própria Maison, aos vinte e seis anos. 

A partir daí, a presença de Pierre Bergé ganha cada vez mais importância. A personalidade centrada e racional de Bergé contrabalança os conflitos emocionais de Saint-Laurent. O casal vive uma relação turbulenta, afetada não somente pela personalidade complicada de Yves, mas também pela infidelidade e instabilidade do estilista. Aos poucos, o espectador percebe que Bergé assume, sem neuroses, o papel de coadjuvante, consciente de que é peça indispensável na carreira do artista.

O maior trunfo de “Yves Saint Laurent” tem nome e sobrenome: Pierre Ninet. O ator tem, além da incrível semelhança física, a competência em interpretar os trejeitos do estilista. O trabalho de Ninet ajuda a construir uma trama crível, elemento indispensável em uma cinebiografia. Flutuando entre os momentos de estabilidade e transtorno, Ninet brilha. Destaque também para Gallienne, sóbrio, é o par preciso para o ator principal. 

Outro ponto forte do filme é a fotografia. Em tons claros e austeros na fase introspectiva do protagonista, até os tons quentes e coloridos da fase de Marrakesh. Nos momentos melancólicos de Bergé, os tons acompanham a nostalgia do personagem. A direção de arte é elogiável. Com acesso a alguns dos itens pessoais do estilista (como croquis, peças e afins), Aline Bonetto, diretora de arte conhecida por “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, não desaponta ao recriar alguns dos mais icônicos desfiles e trabalhos do artista.

O que condena o filme é o roteiro. A falta de profundidade em algumas questões abordadas confunde o espectador. Fica no ar a sensação de incompletude em certos momentos, e acabamos por nos perguntar: “por que trazer a tona algo que não vai ser bem resolvido?”. Lespert opta pela narração em off, executada por Bergé, recurso que precisa ser bem elaborado para funcionar.  O caminho escolhido pelo diretor é questionável.

“Yves Saint Laurent” é a história de um gênio, mas passa longe de ser genial. Louvável a intenção de Lespert em retratar a relação mais importante na carreira do artista, pois oferece ao espectador a chance de se identificar com uma personalidade sempre vista em cima de um pedestal. “A moda passa, o estilo é eterno”, talvez, o que falte a “Yves Saint Laurent” seja isso: estilo. 

“Profissão de Risco”

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  • Ano de lançamento: 2014
  • País: Estados Unidos, Bahamas
  • Língua: Inglês
  • Título original: “The Bag Man”
  • Diretor: David Grovic
  • Avaliação: Pra levantar da cadeira

Uma missão simples: buscar e entregar uma mala ao dono, sem verificar o conteúdo. É dessa premissa que parte “Profissão de Risco”, primeiro filme do diretor David Grovic. Baseado no livro “The Cat: A Tale of Female Redemption”, de Marie-Louise von Franz, a trama é estrelada por John Cusack e Robert De Niro.

Em um jatinho de luxo, o mafioso Dragna (Robert De Nirodesigna ao assassino de aluguel Jack (John Cusack) um serviço um pouco suspeito: levar uma mala até um motel sujo de beira de estrada. A única condição imposta pelo magnata é que a mala não seja aberta em momento algum. Apesar da desconfiança gerada pelo pedido, Jack concorda em realizar a tarefa. Acompanhado de um dos capangas do chefe, o assassino parte em direção ao local de encontro.

Ao enumerar o que acontece a partir daí, poderíamos estar falando de qualquer besteirol americano de segundo escalão: personagens bizarros, diálogos rasos e situações no mínimo improváveis. O caminho do protagonista se cruza com o de uma prostituta de 1,80m que se veste de Mulher Maravilha, um cadeirante vingativo dono do motel e um invocado anão russo. 

Quiçá seja a inexperiência do diretor, ou a falta de competência do roteirista. Os erros são tantos que é difícil apontar um culpado. A proposta inicial se baseava na construção de uma espécie de filme noir contemporâneo, mas, o que é oferecido ao espectador nada mais é do que um suspense recheado de clichês. 

A fotografia é previsível. A pretensão em criar um noir fez com que o filme explorasse tons escuros, cenas nebulosas e cores quentes vibrantes. Nada demais. A trilha sonora também não se destaca.

É triste ver um grande nome do cinema como Robert De Niro envolvido em um projeto tão pouco ambicioso. O personagem vivido pelo ator é um estereótipo genérico de psicopata, totalmente caricato. Armado de uma peruca exagerada e óculos enormes, o mafioso de De Niro tende mais à comédia do que ao suspense. Cusack, por outro lado, entrega o que já é esperado: John Cusack. Nada espetacular, o ator não vai muito além do que veio apresentando em seus últimos trabalhos. A brasileira Rebecca Da Costa tem uma atuação morna, sem grandes ressalvas.

Fraco do começo ao fim, “Profissão de Risco” é um filme para se esquecer. Grovic constrói uma trama rasa, que não cativa nem o mais crédulo dos espectadores. Não somos inocentes a ponto de esperar um De Niro à la Taxi Driver mas, tão pouco somos alienados para nos contentar com o mafioso burlesco que vemos na tela.

 

“Amante a Domicílio”

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A confissão de uma dermatologista a seu paciente faz com que um livreiro à beira da falência e um florista se tornem, respectivamente, cafetão e gigolô. A sinopse de “Amante a Domicílio” não propunha nada especial, mas a direção e o roteiro assinados por John Turturro, somados a Woody Allen como co-protagonista, construíram certa expectativa acerca da produção.

Murray (Woody Allen), dono de uma livraria prestes a ser fechada, descobre que a médica que lhe atende deseja ter uma experiência sexual envolvendo ela, uma amiga e um homem desconhecido. Curioso com o comentário, o livreiro propõe ao melhor amigo, Fioravante (John Turturro), sair com a médica em troca de uma boa quantia de dinheiro.

Receoso de início, o florista amigo de Murray decide olhar para a proposta com outros olhos. Ao invés de gigolô, Fioravante decide se considerar responsável por levar um pouco mais de amor e alegria a mulheres solitárias. O florista começa então uma jornada envolvendo médicas ricas, mulheres carentes e até uma viúva judia que vive sob as rigorosas práticas da religião.

O roteiro oscila durante todo o filme, sem nunca alcançar grandes momentos. Turturro parece não dominar sua própria narrativa, e se perde ao desenhar personagens mal desenvolvidos e estórias sem acabamento. O foco inicial da trama se dissolve antes da metade do filme, sem coordenação alguma.

A antes até divertida crônica de um florista tímido e o melhor amigo descobrindo um universo novo se transforma em um romance insosso, recheado de clichês. John Turturro, brilhante em muitos papéis durante sua carreira, se apaga em um personagem sem personalidade definida. O espectador não consegue se apegar ao protagonista, muito menos entender a complexidade dos dilemas que este enfrenta.

Woody Allen, que raramente atua em filmes não dirigidos por ele, é o ponto mais forte da trama. Engraçado e desenvolto, Allen oferece ao público os melhores diálogos do filme. Uma pena que o personagem que encarna não tenha sido tão bem aproveitado, mergulhando em situações mirabolantes em busca de brechas para uma comédia quase forçada.

Turturro tentou construir uma atmosfera woodyallenística, regada por uma mistura de jazz e Nova Iorque, porém, passou longe de alcançar o resultado que procurava. A miscelânea de informações ( vide a família de Murray, os confrontos étnicos e religiosos e as clientes exóticas do florista) não deixa tempo suficiente para o espectador respirar e absorver a história ali contada.

Noventa minutos se arrastam, causando a impressão de estarmos diante de um filme de mais de duas horas. “Amante a Domicílio” é um exemplo de boas intenções, porém má execução. O diretor tinha a faca e o queijo nas mãos, mas não soube ligar os elos. Allen como o cafetão desinibido de um tímido Turturro poderia ter sido sensacional. Poderia.