Mês: abril 2014

“Divergente”

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Sucesso de bilheteria nos Estados Unidos, “Divergente” estreou no Brasil aquecido pelos burburinhos da mídia internacional e pela ansiedade (quase incontrolável) dos fãs da saga de Veronica Roth. A história se passa em um mundo regido por uma espécie de Nova Ordem, onde os seres humanos são divididos em cinco facções projetadas para funcionar em harmonia: Amizade, Audácia, Abnegação, Erudição e Franqueza.

Por mais que sejam naturais de um dos cinco grupos, os jovens de Chicago, cidade onde se passa a trama, têm a chance de escolher o próprio destino ao completar dezesseis anos. Para ajudá-los, há um teste de aptidão, responsável por apontar as afinidades de cada indivíduo e, deste modo, alocá-lo na facção mais apropriada.

Beatrice Prior (Shailene Woodley), filha de um dos líderes da Abnegação, é surpreendida pelos resultados inconclusivos de seu exame, que a define como Divergente, ou seja, sem aptidão exclusiva para uma só facção. Indecisa, a garota decide sair da Abnegação rumo à Audácia, onde adota uma nova identidade, reforçada pela troca de seu nome. A agora Tris é submetida à iniciação de sua nova facção, que põe a prova suas habilidades físicas e mentais para definir se a iniciante tem as características da Audácia: coragem, bravura e determinação. 

Nesta jornada de iniciação, a caloura trava lutas corporais com garotos encrenqueiros e meninas com o dobro de seu tamanho, é posta sob efeito de uma espécie de alucinação para que possa enfrentar – e superar – seus maiores medos, e tem que decidir se o lema da Nova Ordem, “facção acima de sangue”, é algo que vale a pena se seguir.

É impossível evitar comparações com as sagas “Crepúsculo” e “Jogos Vorazes”, mas, quando se trata do mesmo público, como diversificar drasticamente o produto? Todos os elementos que encantam a audiência jovem estão presentes em “Divergente” (e em “Crepúsculo” e “Jogos Vorazes"): um romance aparentemente improvável, uma forte figura feminina, um mocinho charmoso e um conflito a ser resolvido com a ajuda do casal. 

Que os louros sejam reconhecidos. Aliás, o maior deles tem nome e sobrenome: Shailene Woodley. Mesmo que ainda seja cedo para intitulá-la “nova Jennifer Lawrence”, porque a citada não está nem perto de deixar seu trono, a atriz é uma estrela nata. Certeira, não desaponta quem assiste nem por um segundo. Brilha nas cenas mais fortes, onde faz com que se debulhar em lágrimas pareça natural. Uma pena que o resto do elenco não alcance o patamar de Woodley. Theo James é tão desenvolto quanto seu rígido personagem e Kate Winslet, apesar de todo o talento, acaba refém de um papel limitado.

Outro ponto forte de “Divergente”, o roteiro, também o condena. Somos apresentados, sem muitas explicações, a um mundo completamente novo. Um dos maiores vícios de adaptações literárias é ter o sucesso do livro como muleta, supor que quem assiste tenha lido, ou saiba, ao menos, do que se trata. É possível que quem decida assistir o filme por um acaso não se situe muito bem nessa realidade paralela, mas, para os fãs da saga, a trama é um presente. A enxurrada de detalhes não deixa que a narrativa se aprofunde, o que não é lá muito bom, mas oferece muito mais a quem leu. 

A fotografia e a direção de arte poderiam ter brincado com o mar de possibilidades no contraste entre as facções. Da gentileza da Amizade, marcada por cores quentes, ao altruísmo da Abnegação, mergulhada em cinza, a história oferece um leque de sugestões a serem exploradas. Porém, o foco na complexidade de encaixar muito no roteiro, fez com que o visual assumisse o papel de coadjuvante. 

Apesar de ser a variável de um denominador comum, “Divergente” põe algo a mais na mesa. Nos faz espectadores da desconstrução de uma utopia, por mais que tropece no caminho. A saga da protagonista é uma miscelânea de traços comuns a mim e a você. Nem Katniss, nem Bella. Tris Prior é a personificação de um dos maiores medos humanos: o de não pertencer.

 

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“Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”

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  • Ano de lançamento: 2014
  • País: Brasil
  • Língua: Português
  • Título original: “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”
  • Diretor: Daniel Ribeiro
  • Avaliação: Pega a estatueta!

O curta “Eu Não Quero Voltar Sozinho”, de Daniel Ribeiro, encantou lá em 2010, quando foi lançado. Sucesso proliferado pelo YouTube (onde tem mais de 3 milhões de visualizações) o curta serviu de base para o primeiro longa-metragem do diretor: “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, ganhador do prêmio da crítica, e do Teddy Bear no Festival de Berlim, além do prêmio do público no Festival de Guadalajara.

Leonardo (Ghilherme Lobo) é um adolescente enfrentando a jornada de descobertas típica da adolescência. O primeiro beijo, os implicantes da sala de aula e as discussões com os pais. Tudo bem até então. Mas, Leonardo é cego. Além das buscas normais da fase, o menino tem que lidar com a superproteção dos pais e o preconceito que sofre na escola.

O garoto passa seus dias entre as aulas e a casa da melhor amiga Giovana (Tess Amorim), cúmplice e companheira constante. A rotina dos dois – escola, casa, escola – é quebrada quando um menino novo, Gabriel (Fabio Audi), começa a estudar na classe do casal de amigos. O novato é alvo da atenção de toda a turma, inclusive da dupla. Basta uma tarefa em grupo para que Gabriel passe a compor o, agora, trio.

Giovana, que antes levava Leonardo até a porta de casa todos os dias, agora vê Gabriel acompanhá-los e, aos poucos, a amizade se abala. A relação de Gabriel e Leonardo ganha espaço, e ofusca a parceira antiga. O garoto novo não trata a cegueira do amigo com não-me-toques, e oferece a Gabriel a chance de experimentar, se arriscar a fazer coisas que se julgava incapaz de fazer . A independência que o deficiente tanto buscava na relação com os pais, vem das mãos do novo amigo. 

Enquanto fogem escondidos à noite, dividem uma bicicleta e vão a uma festa de colegas, os garotos percebem estar vivendo algo diferente. É aí que “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” constrói seu grande mérito. É tudo natural. Da fotografia em tons pastéis, às tardes a beira da piscina, vemos os dois meninos se descobrirem juntos. O que poderia cair nos clichês, se desenvolve quase que organicamente. O espectador não é agredido pelo turbilhão de sentimentos vividos na tela, pelo contrário, é acariciado pela sutileza do romance que ali nasce.

O elenco é outro ponto forte. Ribeiro manteve o trio principal, apesar de três anos terem passado desde o lançamento do curta. Guilherme Lobo cria um protagonista além de convincente. O ator, que não é cego, apresenta uma performance pra lá de elogiável. A química ente Lobo e Fabio Rios é excepcional.

A trilha sonora é um quê a parte. O filme acerta em cheio ao mesclar as preferências pessoais dos personagens à composição da trilha. Leonardo é apaixonado por música clássica, já Gabriel é adepto ao indie, folk e alternativo. Seja ao colocar “There’s Too Much Love” de Belle & Sebastian para embalar a primeira dança, ou “Vagalumes Cegos” do brasileiro Cícero, de fundo para a primeira fuga juntos, enredo e música seguem de mãos dadas durante toda a trama.

Se em 2013, “Azul É A Cor Mais Quente” colheu seus louros ao dar uma roupagem natural ao amor entre duas mulheres, “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” não fica atrás. Somos levados pela leveza do amor entre Leonardo e Gabriel. Enquanto Adèle e Emma se debatem por entre os dilemas da relação, os dois estudantes procuram, com calma, aceitar o que lhes é oferecido. Ao lado de Léo e Gabriel, descobrirmos um amor sincero, com cara de amor, sem estigmas. Como deve ser.  

“Toque de Mestre”

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  • Ano de lançamento: 2014
  • País: Espanha/Estados Unidos
  • Língua: Inglês
  • Título original: “Grand Piano”
  • Diretor: Eugenio Mira
  • Avaliação: A Arbez

Uma colaboração entre Espanha e Estados Unidos, o suspense “Toque de Mestre”, dirigido pelo espanhol Eugenio Mira, parte de uma premissa interessante: um pianista que, para manter a si mesmo e aos que ama vivos, precisa tocar a música mais desafiadora de sua carreira, sem erros.

Tom Selznick (Elijah Wood) é um pianista prodígio. Considerado um dos maiores gênios de sua época, o jovem decidiu dar um tempo na carreira e se aposentar precocemente após errar uma nota em uma das composições mais difíceis da música clássica, coincidentemente composta por seu mentor, o pianista Patrick Goderaux. Quando seu mentor morre, Tom decide voltar aos palcos para uma apresentação com o piano de Goderaux, antes que este seja levado a um museu.

Seu retorno ao palco é agravado não somente pelo fracasso de sua última apresentação, como por seu medo de se apresentar em público. O músico, inclusive, se mostra preferível à queda de seu avião em meio a uma turbulência, a tocar em frente a uma plateia novamente 

Os primeiros trinta minutos do filme são dignos de comparações a Hitchcock, de quem, claramente, o diretor bebeu da fonte. Os passos do músico até a arena onde o suspense se passa são bem construídos, mergulhando o espectador na atmosfera tensa que se pretende criar. Quando o vilão (John Cusack) nos é apresentado, através de ameaças na partitura de Selznick, o filme atinge seu ápice. Em letras vermelhas, o vilão diz “uma nota errada e você morre”.

É do cume da tensão que o filme começa a decair. A linha de roteiro criada até então perde sua força e cai nos clichês do suspense. O plot inicial, que poderia ter rendido um bom filme, mergulha em uma série de más escolhas. A revelação do vilão, o uso da mocinha e o desfecho do clímax formam uma sucessão de infortúnios 

O elenco poderia ter sido melhor escalado. O casal principal, formado por Elijah Wood e Kerry Bishé não mostra uma boa química, necessária para criar o sentimento de perda necessário para o triunfo do vilão. John Cusack, bom ator, foi mal aproveitado. A trilha sonora, clássica, cai como uma luva na roupagem do filme. Quase integralmente filmado dentro de um teatro, a impressão que fica é de se estar presenciando um concerto de verdade.

“Toque de Mestre” não pode ser classificado como um filme ruim, mas não é – nem de longe – o filme que poderia ter sido. Ao invés de aproveitar a tendência hitchcockiana e construir um belo suspense, o filme mais se assemelha a um “Fantasma da Ópera” genérico. Se o sucesso de um filme dependesse integralmente de um plot interessante, “Toque de Mestre” seria um sucesso. Infelizmente, os louros da trama só se concretizam no papel.