Mês: março 2014

“Nebraska”

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Em tons de preto e branco, Alexander Payne rege “Nebraska”, um filme com a sua marca, que prova – mais uma vez – a delicadeza do diretor em tratar seus personagens. Payne retoma assuntos já abordados em seus filmes, como a velhice (vide “As Confissões de Schimdt) e uma viagem de carro (vide “Os Descendentes”). O filme, tido como zebra por alguns, foi um dos grandes concorrentes ao Oscar 2014.

David (Will Forte), um vendedor de loja com uma vida monótona, se vê parado em um hospital para buscar o pai, Woody (Bruce Dern), que foi encontrado caminhando sozinho em uma rodovia movimentada. Ao questionar os motivos que levaram o pai à beira da estrada, David descobre que este acredita ter ganhado 1 milhão de dólares, e que – no bilhete premiado que recebera – dizia que para recolher o prêmio, era necessário ir até Lincoln, em Nebraska.

Ao levar o pai pra casa, o vendedor descobre que a mãe, Kate (June Squibb), já estava cansada de ouvir o marido falar do tal bilhete premiado que, na verdade, não passa de uma propaganda recebida pelo correio. Tão cético do prêmio quanto a mãe, David tenta sem sucesso convencer o pai de que tudo não passa de uma falcatrua publicitária. Derrotado pela teimosia do pai – e vislumbrando a chance de passar um tempo com o progenitor antes que este fosse tomado pela esclerose – David decide levar Woody até Lincoln, apesar dos protestos constantes de Kate.

A viagem mescla momentos de humor e nostalgia em cenas como a passagem dos dois pelo Monte Rushmore, ou a caçada a um objeto perdido perto dos trilhos do trem. Quando pai e filho retornam a cidade natal da família, Hawthorne, uma pequena comunidade do tipo onde todos sabem nome e sobrenome dos vizinhos, o espectador passa a compreender melhor a personalidade de Woody, resultado de uma família com um histórico complicado.

O suposto prêmio do idoso não demora a causar alvoroço na pacata cidade. Seja em uma discussão acalorada com o antigo melhor amigo, ou na mágoa causada pela reviravolta familiar, o filme explora a ganância em suas derivadas formas.

A trilha sonora é um quê à parte. Composta por Mark Orton, o conjunto de canções instrumentais é preciso ao entoar a atmosfera nostálgica do filme. A música principal, “Their Pie”, é uma reflexão em si, sempre responsável por imergir o espectador nos devaneios melancólicos de Woody. A fotografia em preto e branco é um tiro certeiro de Payne. O diretor, que teve sua escolha questionada pelo estúdio, lutou para manter o filme desta maneira, e não poderia ter sido mais bem sucedido.

Um filme sem grandes rodeios roteirísticos, que constrói seus méritos a partir de uma mistura deliciosa entre um elenco impecável e uma temática envolvente, “Nebraska” é um mimo. Se com os Coen somos atraídos pelo fracasso, nas mãos de Payne somos cativados pelo martírio. Ao seguirmos Woody em sua busca por uma loteria incerta, não podemos deixar de lamentar por aqueles que – como o idoso – foram castigados por somente acreditar. 

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