Mês: fevereiro 2014

“Ela”

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 Um escritor deprimido, arrasado após o fim de um casamento fracassado, se apaixona por uma mulher que não pode estar fisicamente ao seu lado. Poderíamos estar falando sobre algum dos seus colegas de trabalho que recorreu a um site de relacionamentos numa tentativa desesperada de sair da fossa, mas, estamos falando do ponto de partida de “Ela”, novo filme do diretor Spike Jonze.

Em um futuro não muito distante, vive Theodore Twombly (Joaquin Phoenix), um escritor recém-divorciado que passa as noites imerso em videogames e perambulando por salas de bate-papo. Em uma de suas caminhadas rumo ao trabalho, Theodore esbarra em uma demonstração de um novo sistema operacional no mercado, que promete romper as barreiras da inteligência artificial. O escritor, intrigado, resolve adquirir o software.

Antes de lhe apresentar seu sistema operacional, o programa faz algumas perguntas pessoais como “você se considera social ou antissocial? Como é sua relação com a sua mãe?”. O mapeamento da personalidade do escritor é capaz de criar um software personalizado e voltado especificamente para o perfil de seu operador. Após a configuração, uma voz sedutora salta do computador e se apresenta: Samantha (Scarlett Johansson).

Vulnerável, Twombly não demora a se apegar à atenção quase incondicional que Samantha lhe oferece. O SO é responsável por organizar seus e-mails, resolver seus compromissos e de quebra ainda lhe faz companhia antes de dormir. Aos poucos, a estranheza inicial se esvai, o escritor se sente cada vez mais confortável com a situação, e a relação entre humano e tecnologia ganha uma cara mais natural. 

“Ela” é o equilíbrio quase que perfeito entre roteiro, elenco e trilha sonora. Não a toa, concorre a seis categorias no Oscar 2014, incluindo “Melhor Filme”, “Melhor Roteiro Original” para Spike Jonze, “Melhor Trilha Sonora” e “Melhor Canção Original”, com “The Moon Song”. Deixar a trilha sonora nas mãos da banda canadense Arcade Fire foi uma jogada de mestre. O filme é embalado por uma coleção de músicas contemporâneas, que caem como uma luva na roupagem moderna do roteiro.

Joaquin Phoenix tem uma das melhores atuações da carreira.O ator navega entre momentos de descrença profunda e alegria súbita quase que naturalmente. Apesar de se esconder atrás de óculos enormes e um bigode nada discreto, Phoenix ainda é capaz de se conectar facilmente com o espectador. Scarlett Johansson faz um trabalho tão específico e único de voz, que fez a mídia debater sobre a possibilidade da atriz em concorrer à Melhor Atriz Coadjuvante nos Golden Globes, mesmo sem aparecer fisicamente, – nem por um segundo – durante toda a trama. Vale ressaltar o trabalho de Amy Adams, que aparece como a melhor amiga de Theodore, a também Amy. Em “Ela”, Adams apresenta uma atuação bem mais natural e honesta do que em “Trapaça” que lhe rendeu uma indicação de “Melhor Atriz” no Oscar 2014.

Como já disse Oscar Wilde, “a arte é a forma mais intensa de individualismo que o mundo já conheceu”. O filme de Jonze é a concretização perfeita da frase do escritor. Através de uma produção à beira do sci-fi, somos apresentados a uma realidade que nos parece próxima e distante ao mesmo tempo. Vemos Twombly se afastar dos amigos, de si mesmo e do mundo no qual está inserido.“Ela” nos faz refletir sobre a direção em que caminhamos, e nos coloca na desconfortável posição de pensar sobre um futuro que – agora – nos parece longínquo, mas que pode nos pegar de surpresa, enquanto caminhamos despreocupadamente com nossos smartphones. 

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“Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum”

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  • Ano de Lançamento: 2013
  • País: Estados Unidos
  • Língua: Inglês
  • Título Original: “Inside Llewyn Davis”
  • Diretor: Ethan Coen e Joel Coen
  • Avaliação: Pega a estatueta!

 Do bairro de origem do grupo “Cat Mother & the All Night Newsboys” – o Greenwhich Village, em Nova Iorque – vem também Llewyn Davis (Oscar Isaac), um cantor frustrado que busca a chance de ganhar a vida através do folk, estilo musical que consagrou a banda conterrânea na mesma década de 60 em que se passa o filme. A história do músico, baseada no livro de memórias do cantor Van Rouken, “The Mayor of MacDougal Street”, é contada em “Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum”.

Com um violão antigo debaixo do braço, e um casaco surrado que mal dá conta do frio do inverno nova-iorquino, Davis deixa o apartamento de um casal de amigos após mais uma noite dormida em um sofá emprestado. No primeiro de seus muitos azares, permite que o gato de estimação dos colegas fuja, e tem que carregar o bichano consigo durante sua jornada através da cidade.

Com um violão antigo debaixo do braço, um casaco surrado que mal dá conta do frio do inverno nova-iorquino, e carregando o gato de estimação dos colegas, Davis se dirige ao apartamento de outro casal de amigos, aonde espera poder passar a próxima noite. Lá, é recebido por Jeane (Carey Mulligan), com quem teve um infortuno caso de uma noite. Furiosa, ela despeja nele um vasto repertório de insultos, que o músico ouve resignado, e tomado pela certeza de que faz jus a cada um deles.

Seja no escritório do agente, morada de más notícias, ou numa reunião social, onde explode em grosseria, Llewyn parece lidar com a derrota quase que carinhosamente. Com a casualidade com que recebe um “bom dia”, Davis aceita o título de fracassado e suas variáveis repetidamente.  

Em um das cenas mais marcantes do filme, o talento do músico é diminuído perante à opinião daquele capaz de vendê-lo ao público. É aí que nos damos conta de que, embora nos conquiste por meio das performances intimistas que apresenta no bar do bairro, o talento do cantor é nada mais do que medíocre, e incapaz de brilhar na movimentada cena do folk americano dos anos 60.

Oscar Isaac, guatemalteco até então sem muitos papéis de destaque, se rende à Llewyn Davis. Ora exposto através do nostálgico folk clássico, ora reservado ao encarar o pai condenado ao Alzheimer, Isaac carrega a peteca mais do que competentemente, dando vida ao personagem mais importante de sua carreira. A sempre elogiada Carey Mulligan é uma escolha certeira de Ellen Chenoweth, diretora de elenco, que também acertou ao apostar em Justin Timberlake e Adam Driver. Pra fechar a lista com chave de ouro, John Goodman encarna magistralmente um caricato cantor de jazz, com a marca registrada dos Coen.

A trilha sonora é um futuro clássico, daquelas que vale a pena comprar o CD assim que sair (uma boa pedida são as versões de “500 Hundred Miles”, “Please Mr. Kennedy” e “The Death of Queen Jane”). Um pout-pourri de música clássica e folk, com direito à Beethoven, Bob Dylan e Gary Davis. A fotografia, de Bruno Delbonnel, responsável por filmes como “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, é concorrente ao Oscar 2014. Não por menos. Com uma paleta fria durante todo o filme, é responsável por inserir o espectador no universo melancólico e derrotado do protagonista.

Os irmãos Coen nos deliciam com mais um anti-herói. Se Jeff Bridges dá vida ao vagabundo conformado em “O Grande Lebowski”, Oscar Isaac engasga com os últimos sopros da determinação de Llewyn Davis em prosperar. Em cada um de seus insucessos, o músico faz com que o espectador torça não só por ele, mas por uma vida menos complicada. “Inside Llewyn Davis” é uma ode ao desespero daquele que – apesar de talentoso – vai se ver pra sempre preso na cruel realidade dos que não conseguiram.