Mês: janeiro 2014

“A Grande Beleza”

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  • Ano de Lançamento: 2013
  • País: Itália
  • Língua: Italiano
  • Título Original: “La Grande Bellezza”
  • Diretor:  Paolo Sorrentino
  • Avaliação: Pega a estatueta!

Não é difícil entender a escolha do título do filme de Paolo Sorrentino, uma vez que, cena após cena, “A Grande Beleza” proporciona ao espectador uma imersão fantástica no universo da cinematografia. A trama segue Jep Gambardella (Toni Servillo), um jornalista que colhe os louros de uma antiga publicação de sucesso. Boêmio, Jep troca os dias pelas noites, oferecendo incontáveis festas em seu apartamento no centro de Roma.

“Uma das principais tarefas da arte sempre foi criar um interesse que ainda não conseguiu satisfazer totalmente”, disse Walter Benjamin, um dos grandes filósofos e pensadores da pós-modernidade. Gambardella se divide entre a sensação do ridículo e a procura pela completude ao assistir performances artísticas que, por vezes, desafiam o bom senso. É da exposição do bizarro, como quando uma mulher se choca repetidamente contra uma parede, que brotam alguns dos principais questionamentos do jornalista.

A crítica descarada e a ironia ácida dão o tempero certo ao serem misturadas com o retrato de uma sociedade burguesa, que passa suas noites em coberturas luxuosas, acompanhada de garrafas de vinho e conversas pretensiosas sobre arte e filosofia. Seja durante uma rave particular regada a drogas e promiscuidade ou durante os devaneios diários de um homem frustrado, o filme nos faz refletir sobre o universo regido pelas aparências em que vive a aristocracia italiana.

Sorrentino nos guia por Roma antagonicamente ao romantismo aperfeiçoado por cineastas como Woody Allen. Se Allen nos diz “Para Roma, Com Amor”, Sorrentino ironiza a capital italiana ao declarar que são somente dois os fatores que inserem a cidade no mapa mundial: pizza e moda. Aliás, o filme é um pout porri de influências, com menções claras a cineastas como Frederico Fellini, um dos pais do neorrealismo italiano, consagrado por mesclar cinema e crítica social. Aqui – como em alguns dos maiores filmes do diretor – vemos o roteiro ocupar o lugar de coadjuvante, abrindo espaço para a exploração da fotografia e trilha sonora, que se entrelaçam na construção de um filme muito mais visual do que significativo.

Outro fator para deliciar quem assiste é a atuação de Toni Servillo. Impecável. Sem mais. Servillo cria uma caricatura perfeita, um daqueles personagens que serão usados como convenção, parâmetro, medida. É dos diálogos e monólogos de Gambardella que o filme se constrói. Seja em conversa com uma futura santa, ou na declaração sincera que faz a uma colega abastada, Servillo traz um Jep que oscila naturalmente entre o deboche e a sobriedade.

“A Grande Beleza” pode ser visto como uma ode ao exagero pós-moderno, ou uma homenagem honesta ao cinema em si. De qualquer modo, é um daqueles filmes que se deve ver. Um mergulho em um mundo paralelo, onde freiras recebem injeções de botox, crianças mimadas são artistas e velórios são eventos sociais. Ao lado de Gambardella, nos tornamos espectadores curiosos, como crianças em frente a jaulas de um zoológico. Não sabemos se se trata de antropologia, sociologia ou quiçá um BBB high-society. Não importa.

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“Frozen: Uma Aventura Congelante”

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Com um lucro estrondoso ao redor do mundo desde sua estreia nos Estados Unidos, em novembro, “Frozen” chegou às salas de cinema brasileiras acompanhado do burburinho e das expectativas da crítica e do público. Baseado no conto de Hans Christian Andersen, “A Rainha da Neve”, o filme conta a história de Elsa (Idina Menzel), uma princesa com poderes invernais, herdeira do trono da pequena cidade de Arendelle.

Logo na primeira cena, vemos Elsa brincar com a irmã mais nova, Anna (Kristen Bell), que se mostra completamente fascinada pelos poderes da irmã. As duas constroem bonecos de neve e deslizam pelas superfícies de gelo, mas – durante uma das manobras de Elsa – Anna é ferida gravemente. Sua vida é salva por criaturas da floresta, chamadas “trolls”, que recomendam ao rei e a rainha apagar toda e qualquer memória que a pequena princesa possa ter dos poderes da irmã. Preocupados com as consequências da habilidade da filha mais velha, os pais decidem colocar Elsa em reclusão, o que abala a relação das irmãs.

Anos depois, vemos Anna dançar sozinha pelos grandes salões do castelo, cantando a singela “Do you want to build a snowman?”. A trama explora a falta que a relação fraternal faz à irmã mais nova, que passa os dias ao lado da porta do quarto de Elsa, implorando por sua companhia, sem resposta.

Quando chega o dia da princesa assumir o trono de Arendelle, o palácio é aberto ao público pela primeira vez desde que estivera reclusa. É então que Anna tem a oportunidade de romper a fortaleza do castelo e conhece Hans (Santino Fontana), príncipe de uma cidade próxima.Supostamente apaixonada, ela decide aceitar a ousada proposta de Hans e casar-se com ele. A ameaça de um novo morador no castelo faz com que Elsa perca o controle de seus poderes. Confusa, e com medo da reação dos moradores da cidade, a então rainha foge para a floresta, deixando Arendelle imersa em um intenso inverno.

Se em filmes anteriores a presença masculina guiava os momentos de bravura e coragem, dessa vez é a pequena e falante Anna que enfrentará os perigos de uma floresta congelada a fim de encontrar a irmã e trazer o verão de volta a Arendelle. Aliás, não só nos personagens está a forte presença feminina. Pela primeira vez, um longa-metragem de animação da Disney é dirigido (ou melhor, co-dirigido) por uma mulher, Jennifer Lee, que também assina o roteiro adaptado.

É interessante ver como a trama explora os clichês Disneyanos, adaptando-os para uma visão mais contemporânea. Anna não tem medo de fazer comentários como “você é tão bonito”, a um príncipe desconhecido, assim como Kristoff (Jonathan Groff– o vendedor de gelo que acompanha a princesa durante sua jornada – não tem medo de reprimi-la por aceitar se casar com um completo estranho. A fuga de Elsa é retratada através de “Let It Go”, canção cotada ao Oscar 2014, e que traz em sua letra frases como “livre estou, não me importa o que vão falar, tempestade vem, o frio não vai mesmo me incomodar”.

O boneco de neve Olaf (Josh Gad), que tem lugar de destaque nos cartazes de divulgação, só se faz presente na segunda metade do filme, e é ele o responsável por equilibrar o teor cômico da trama, interagindo com a rena de Kristoff, Sven, e sonhando com os dias quentes de verão. É dele também, a frase – e um dos momentos – mais marcantes do filme.

O combo direção de arte + roteiro + trilha sonora faz de “Frozen” uma produção pra lá de aprazível, um triunfo da velha Disney, que construiu seu reinado ao encantar gerações com suas princesas. Ao seguirmos Anna em sua jornada, vemos a jovem em busca de muito mais do que salvar sua pequena cidade de uma eternidade no inverno. Somos levados com ela pela peregrinação de uma garota desfalcada, que – pela primeira vez – encontra o verdadeiro amor nos laços da fraternidade, um belo tapa na cara de príncipes em seus cavalos brancos. 

“Carrie, a Estranha”

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Como já diz o velho ditado, “não se mexe em time que está ganhando”. Essa premissa serve de base para vários remakes já produzidos, mas, nem sempre se encaixa tão perfeitamente como ocorre com “Carrie, a Estranha”. O original, de 1976, dirigido por Brian De Palma, é um dos grandes clássicos da história do cinema, imaculado por alguns dos maiores entendedores da área.

O filme conta a história de Carrie (Chloë Grace Moretz), uma menina que sofre com a opressão dos colegas de colégio e a convivência com uma mãe carola. A combinação entre os poderes sobrenaturais recém-descobertos por Carrie e a provocação exercida pelo grupo dos populares, gera o caos na pequena cidade de Chamberlain.

A Carrie de Sissy Spacek, conduzida pelo método sugestivo de De Palma, era a caricatura do underdog americano em uma época em que o termo bullying nem sonhava em existir. Através do implícito, o espectador tinha em mãos a liberdade de criar a Carrie que lhe fosse conveniente, estabelecendo um vínculo de identificação com a protagonista. Já a Carrie de Moretz é o retrato do produto criado pela adolescência americana contemporânea, exclusiva por natureza e acostumada a retaliar o diferente. No remake, vemos somente mais uma garota com problemas em se encaixar em algum grupo no colégio. Perde-se a essência e a unicidade da Carrie original. Já não temos mais um ídolo do estranho.

Por mais que se coloquem de lado as comparações e avalie-se somente o conteúdo apresentado pelo remake, o filme ainda é fraco. A utilização do elenco faz com que o espectador tenha a impressão de ver uma tentativa da Disney em adaptar Stephen King. A dupla composta por Sue (Gabriella Wilde) e Chris (Portia Doubleday) mostra as duas versões clássicas do clichê high school. Uma é a loira esguia, futura rainha do baile e namorada da estrela do esporte do colégio, e a outra é a típica menina má, mimada pelo pai rico e parceira de um bad boy em jaqueta de couro. Tommy Ross (Ansel Elgort), namorado de Sue, e o garoto por qual Carrie se interessa, é um pseudo Troy Bolton, ovacionado pelos colegas de time e ícone do bom comportamento.

Em termos de fotografia, as escolhas de Steve Yedlin são duvidosas. Os tons escuros, característicos do gênero suspense/terror, são secundários, e as nuances claras predominam durante grande parte do filme. É difícil manter o espectador na atmosfera de ansiedade e inquietação necessária para a construção do suspense.

O ponto alto do filme é o trabalho de Julianne Moore. Desde a primeira cena – uma bela escolha, aliás – a atriz traz a tona uma Margaret White diferente da original, mas mesmo assim competente em criar o ambiente de tensão no lar onde é criada a jovem Carrie. É da exploração da relação freudiana entre a mãe devota e a filha confusa, que o filme tem alguns de seus melhores momentos.

Ao mesmo tempo em que “Carrie, a Estranha” decepciona em vários aspectos, é interessante ao fazer uma tentativa de adaptar um clássico para os tempos atuais. Deixemos de lado os permanentes e shorts de cintura alta e adotemos os smartphones e a abordagem da sexualidade na adolescência. O filme nos serve de lição ao mostrar que o retrato de uma das protagonistas mais famosas da história é atemporal e adaptável, por mais que – inevitavelmente – ainda nos agarremos como hooligans à obra-prima de De Palma.