Mês: dezembro 2013

“A Vida Secreta de Walter Mitty”

                           image

  • Ano de Lançamento: 2013
  • País: Estados Unidos
  • Língua: Inglês
  • Título Original: “The Secret Life of Walter Mitty”
  • Diretor: Ben Stiller
  • Avaliação: Pra parar e refletir

Com os pés balançando debaixo da mesa de compensado do escritório, a cabeça viaja até o cenário da viagem que você gostaria de ter tido coragem de fazer aos dezoito anos, antes de entrar na faculdade de Economia que lhe rendeu o diploma do qual seu pai tanto se orgulha de contar aos parceiros do carteado dominical. Machu Picchu, Amsterdã ou até mesmo aquele fim de semana em que você disse não aos amigos que te chamaram para acampar em Teresópolis. É da imaginação fértil de um trabalhador preso no conforto da rotina que surge “A Vida Secreta de Walter Mitty”, remake de “O Homem de 8 Vidas”, de 1947, e quinta aventura de Ben Stiller como diretor.

Apaixonada por trailers confessa que sou, me vi contando os dias pra estreia da trama após me deliciar com o trailer impecável, embalado ao som da banda islandesa Of Monsters and Men. Sem dúvida um dos melhores do ano. Um convite tentador ao mundo fantástico criado por Walter Mitty (Ben Stiller), gerente da seção de negativos da revista Life.

Antes regido pela mesmice do dia-a-dia, Mitty mergulha em uma sequência de novidades que o fazem repensar sua postura conformada. A paixão fresca pela nova colega de trabalho, Cheryl Melhoff (Kristen Wiig), a surpresa de saber que a revista em que trabalha foi comprada por um grupo que pretende transferi-la integralmente para o digital, e o desaparecimento do negativo da fotografia que deveria estampar a capa da última versão impressa da Life, tirada por Sean O’Connell (Sean Penn), um exótico fotógrafo e parceiro antigo do periódico.

Pressionado pelo novo – e perverso – chefe, Ted Hendricks (Adam Scott), Mitty parte em busca de O’Connell, a fim de recuperar o negativo perdido. Apesar de não saber ao certo o paradeiro do fotógrafo, o gerente se arrisca e embarca no primeiro avião até o destino mais recente de O’Connell. É então que mergulhamos na impressionante jornada do protagonista, que entra em helicópteros em movimento, luta contra tubarões e foge de uma erupção vulcânica em um 4×4.

Um dos pontos mais interessantes do filme é combo fotografia + trilha sonora. A peculiar viagem de descoberta pessoal é paralela à viagens para cenários como Groenlândia e Himalaia, de paisagens estonteantes coordenadas pelo competente diretor de fotografia, Stuart Dryburgh. A trilha sonora, nas mãos de Theodore Shapiro, mescla o pop de David Bowie e o indie do Arcade Fire, uma combinação certeira.

Os tropeços de Stiller na direção, com escolhas duvidosas como as frases estampadas em montanhas e campos abertos, não são difíceis de ignorar se pensarmos em seus acertos. Sua pitada de humor característica é equilibrada com os momentos sutis do protagonista, como a relação com a mãe, Edna, interpretada pela ótima Shirley MacLaine. Outra gostosa surpresa é a participação pequena, mas exata, de Sean Penn, que dá o contraste de Walter na pele do ousado Sean O’Connell.

Apesar do enredo condenado pela obviedade, “A Vida Secreta de Walter Mitty” incita o espectador a se lembrar do motivo pelo qual vai ao cinema. O personagem construído por Stiller é uma espécie de coringa, com quem todo mundo pode se identificar. Durante cada etapa de sua peregrinação pessoal, nos vemos torcendo por ele, como torcemos por nós mesmos antes de entrarmos nas nossas respectivas faculdades de Economia. 

Anúncios

“Ender’s Game – O Jogo do Exterminador”

                             image

  • Ano de Lançamento: 2013
  • País: Estados Unidos
  • Língua: Inglês
  • Título Original: “Ender’s Game”
  • Diretor:  Gavin Hood
  • Avaliação: A arbez

“No momento em que verdadeiramente entendo meu inimigo, o suficiente para derrotá-lo, então naquele mesmo momento eu também o amo”. Com essa frase de Orson Scott Gard, autor da famosa saga de livros de ficção científica “O Jogo do Exterminador”, tem início “Ender’s Game”.

Desde os tempos de Han Solo e Rick Deckard, Harrison Ford não se aventurava em um grande filme de ficção científica. Sua volta ao território vem em grande companhia, ao lado de Viola Davis e Ben Kingsley, além do promissor ator juvenil Asa Butterfield.

A trama é situada em um futuro próximo, onde a Terra vive sob a árdua lembrança do ataque da raça alienígena Formics, que dizimou grande parte da população. Se não fosse pelo ato perspicaz do herói Mazer Rackham (Ben Kingsley), o ataque teria extinguido a raça humana. Assombrados pela ameaça de uma nova invasão, as autoridades terrestres criam uma escola preparatória, a fim de encontrar o novo grande líder, capaz de derrotar de vez os Formics.

Em uma realidade cercada de games digitais que incitam o confronto contínuo, os garotos são apresentados às noções de guerra cada vez mais jovens. É em Ender Wiggins (Asa Butterfield), um esguio rapaz de 12 anos com uma notável percepção tática, que o Coronel Graff (Harrison Ford) enxerga a figura de liderança que procura.

A partir da chegada de Ender a Battle School, situada em uma base sideral, o filme explora seu lado sci-fi com efeitos especiais ligados à ausência de gravidade e apetrechos high tech de treinamento. O que poderia tomar um caminho Star Trek acaba seguindo um rumo mais Harry Potter, ou até mesmo o recente blockbuster Jogos Vorazes. Algumas dezenas de jovens selecionados para enfrentar um rigoroso treinamento, tropeçando em ingênuos romances juvenis e rixas adolescentes.

O promissor roteiro e o elenco estelar não salvam o espectador da sensação de tédio lá para os quarenta minutos da trama, sem muitas oscilações ou conflitos. O que se vê é a trajetória de descoberta pessoal de Wiggins, que enfrenta dilemas morais e familiares.  A relação com a irmã mais velha, Valentine (Abigail Breslin), apesar de quase sempre acompanhada de diálogos clichês, é um ponto interessante e apresenta ao público um Ender menos soldado e mais jovial e inseguro.  Além de fazer a contraposição entre as belas paisagens na Terra e a atmosfera tensa da Battle School.

Apesar dos acertos relacionados à escolha de elenco e o uso interessante dos recursos visuais, “Ender’s Game” paira no razoável. Para aqueles que se deliciaram em um 2013 de estreias como “Gravidade”, nem mesmo um Harrison Ford transitando em áreas espaciais é capaz de salvar um roteiro insosso. 

“Questão de Tempo”

                               image

Responsável por assinar roteiros como “Um Lugar Chamado Notting Hill” e “Quatro Casamentos e um Funeral”, além da direção de filmes como “Simplesmente Amor”, o diretor e roteirista neozelandês Richard Curtis se aventura mais uma vez no gênero da comédia romântica em “Questão de Tempo”.

Tim (Domhnall Gleeson), um desajeitado rapaz sem muita sorte com as garotas, é chamado pelo pai (Bill Nighy) na manhã seguinte a uma frustrada festa de Reveillón. O que parece uma típica conversa entre pai e filho cursa um rumo completamente diferente quando seu pai revela que os homens da família têm a capacidade de viajar no tempo. Tudo o que ele tem de fazer é entrar em um local escuro, cerrar os punhos e imaginar o momento para onde quer voltar.

Após uma reação óbvia de incredulidade, Tim resolve testar seus supostos poderes e voltar à festa da noite passada. Ao abrir os olhos, está de volta ao clima agitado de comemoração, e disposto a consertar os erros que o frustraram no passado. Uma vez convencido, volta ao presente e é questionado por seu pai sobre como pretende usar sua nova habilidade. A resposta é simples e direta: “para conseguir uma garota”. A esta altura, o espectador já sabe que está diante de uma deliciosa comédia romântica a la Curtis.

O pedido do rapaz só é atendido quando, após mudar-se para Londres a fim de trabalhar em uma firma de advocacia, conhece Mary, uma simpática americana que lida com publicação de livros. Com a possibilidade de se redimir dos erros bobos de início de relacionamento, Tim usa suas vantagens para conquistar a americana.

Desde a simpática família de Tim, formada por figuras como a irmã mais nova Kit Kat (Lydia Wilson) e o ingênuo Tio D (Richard Cordery), até seu rabugento companheiro de casa em Londres (Tom Hollander); o filme apresenta personagens deliciosos, que fazem com que o roteiro, que poderia cair no clichê de filme-sessão-da-tarde, siga o caminho oposto, e envolva o espectador durante cada minuto de suas duas horas de duração.

A atuação de Gleeson é a melhor de sua carreira. O público se apaixona instantaneamente por Tim ao vê-lo em sua primeira cena, com uma auto-estima desgastada e um pôster de Amélie Poulain na parede do quarto. Bill Nighy encabeça o excelente elenco, no papel do divertido pai de Tim, responsável por equilibrar a moral da trama e o toque de ironia e humor tipicamente ingleses, construindo alguns dos melhores momentos do filme.

Apesar da temática tantas vezes trabalhada no cinema, “Questão de Tempo” adota uma abordagem natural sobre a viagem temporal. Acompanhamos o divertido protagonista entrar em armários escuros e voltar para momentos como a primeira noite com a garota dos seus sonhos e ajudar seu colega de quarto a vigorar no trabalho. A delícia do filme é descobrir – ao lado de Tim – o valor dos momentos mais ordinários, e atingir com ele a maturidade necessária para se desapegar do “como teria sido”.

“Azul É a Cor Mais Quente”

                              image

Em uma sociedade pós-moderna, onde o casamento homossexual é legalizado em cada vez mais países, e tabus são derrubados diariamente, surge “Azul É a Cor Mais Quente”. O filme francês, baseado na HQ de mesmo nome da autora Julie Maroh, ganhou a maior honra do cinema europeu, a Palma de Ouro em Cannes. E, pela primeira vez, o prêmio foi entregue não só ao diretor, mas, às duas atrizes que protagonizam a trama.

O início do filme situa o espectador na vida de Adèle (Adèle Exarchopoulos), uma jovem estudante de Literatura que vive no conforto da rotina. Ao despertar o interesse de um garoto da faculdade, ela é levada ao início de um romance que, de acordo com as fúteis colegas de classe, tem tudo pra dar certo: um garoto atraente, popular e aprovado pelo grupo. Novamente presa no conforto do estável, Adèle tenta seguir adiante com a relação, mas é atormentada pelo desejo que sente após cruzar com uma misteriosa garota de cabelos azuis.

Ao se dar conta de que está em uma relação não satisfatória, a estudante termina o relacionamento e começa a se questionar. Ainda tocada pelo encontro com a menina dos cabelos coloridos, ela se encaminha timidamente a um bar gay. Lá, tem a chance de colocar um nome no rosto da desconhecida: Emma (Léa Seydoux), uma descontraída estudante de Belas Artes. Apesar do contraste entre a jovem e incerta Adèle e a madura e confiante Emma, a sincronia é evidente e engatilha o relacionamento que rege as três horas de filme.

Com a câmera em primeiro plano na maior parte do filme, Kechiche aproxima o espectador da protagonista e voyeuriza pequenas ações, como o modo como Adèle mastiga, passa as mãos pelo rosto e ajeita os cabelos desgrenhados. A câmera, aliás, é a melhor amiga da plateia durante o processo de descoberta da jovem. Através dos close-ups, vê-se o rosto de Adèle avermelhar-se após o primeiro beijo em outra mulher, os olhos curiosos após ver Emma pela primeira vez, e o ranger dos dentes ao sofrer com o preconceito dos colegas de classe. 

Quando o espectador se vê preso na tenra narrativa da descoberta do romance entre as duas, é surpreendido pela longa cena de sexo lésbico responsável pela maior polêmica do filme. Nua, crua, explícita, ela aborda – em seus quase dez minutos de duração – uma temática nunca antes discutida tão abertamente no cinema. O comentário feito por uma senhora durante a sessão que eu acompanhei é o sinal claro de que Kechiche atingiu o que pretendia: “Ah, então é assim que elas fazem!”.

A fotografia, nas mãos de Sofian El Fani, insere tons de azul durante todo o filme. A cor, associada ao intelectual, calculado e frio, torna-se alegoria do desejo entre as duas. O azul acompanha a relação em todos os seus estágios, seja nas unhas da colega de classe de Adèle ou na evolução da protagonista, que – ao longo da trama – troca os jeans, de estudante de Literatura, por vestidos de tom cerúleo que a acompanham numa fase mais madura, onde atinge seu objetivo e torna-se professora.

Nos ombros da musa de Kechiche e homônima da protagonista, Adèle Exachorpoulos, está grande parte do peso pelo sucesso do filme. A atuação da francesa é visceral. Vê-se em seu rosto, sempre seguido pela proximidade da câmera e desprovido de qualquer retoque artificial, o retrato sincero da insegurança e das dúvidas que cercam a heroína.

“Azul É a Cor Mais Quente” é uma história de amor acima de qualquer rótulo, que me perdoem o clichê. É a jornada de descoberta de uma menina, que se vê adulta ao crescer ao lado de outra mulher, daquela que chamou sua atenção em um encontro aleatório no meio de uma praça francesa. Kechiche traça o retrato de uma protagonista sem a rotular, o que é, no final, seu grande mérito. Ao nos despedirmos de Adèle, ao vê-la caminhar pela rua com seu vestido azul, somos tão incertos de seu desfecho quanto de sua sexualidade. 

“Blue Jasmine”

                             image

  • Ano de Lançamento: 2013
  • País: Estados Unidos
  • Língua: Inglês
  • Título Original: Blue Jasmine
  • Diretor: Woody Allen
  • Avaliação: Pega a estatueta!

Em Blue Jasmine, Woody Allen retorna ao território americano após divagar por direções que prestam declarações de amor à Europa, como “Vicky, Cristina, Barcelona”, “Meia Noite em Paris” e “Para Roma com Amor”.

Em seu mais recente trabalho, conta-se a história de Jasmine (Cate Blanchett), uma ex-socialite forçada a deixar seu universo nova iorquino de luxo e extravagâncias, após ver a falência bater a sua porta pouco tempo depois de seu marido ir preso por crimes de fraude e corrupção. Sem alternativas, ela se vê obrigada a deixar Nova Iorque rumo a São Francisco, para morar com a desengonçada irmã mais nova, Ginger (Sally Hawkins)

Ao cair de paraquedas em um mundo completamente alternativo ao que estava acostumada, Jasmine entra em colapso. O filme é composto pela alternância entre flashbacks de sua antiga vida como milionária e o cenário atual. A enorme mansão belamente decorada é contraposta com o pequeno apartamento brega da irmã, os cartões de crédito ilimitados dão lugar ao emprego de recepcionista em um consultório médico. Os goles que a protagonista dá, por diversas vezes, na Stolichnaya da irmã retratam a dificuldade desta em se adaptar à nova vida. 

Outro ponto interessante é a diferença entre Hal (Alec Baldwin), o corrupto ex-marido de Jasmine, e os homens com quem Ginger se envolve ao longo da trama. Ao mesmo tempo em que a irmã mais velha julga os homens que a caçula escolhe como pobres, acomodados e indignos, ela se vangloria de ter tido um relacionamento com um homem fino, rico e que a tratava como uma rainha.  O filme acaba por fazer com que o espectador se afeiçoe pelos romances vividos por Ginger e se enoje com a vida vivida pelo casal high society.

O roteiro é quase coadjuvante à atuação de Cate Blanchett, que é óbvia candidata ao Oscar de Melhor Atriz em 2014. Não seria essa a primeira vez que Woody Allen oscariza um de seus atores. Diane Keaton, Penélope Cruz, e Michael Caine são alguns exemplos de premiados por atuações em filmes do diretor. Tão completo é o trabalho de Blanchett, que é capaz de ofuscar as ótimas atuações do elenco de apoio. Os divertidos Bobby Cannavale e Louis C.K. são responsáveis por, ao lado de Sally Hawkins, intercalar os momentos dramáticos e agregar uma veia cômica à trama.

Ao lado de Allen está uma equipe que mostra bastante afinidade. A fotografia, nas mãos de Javier Aguirresarobe, somada à direção de elenco da sempre fiel parceira de Allen, Juliet Taylor e a edição de Alisa Lepseltter, responsável pelo equilíbrio entre os flashbacks, tecem um filme claro, com a luz bem administrada, personagens marcantes e planos concisos.

Ao construir uma de suas protagonistas mais icônicas, Allen retorna às graças da crítica. Blue Jasmine é aprazível, desde seus créditos iniciais, clássico preto no branco, até seu final quase teatral.