Mês: novembro 2013

“Jogos Vorazes – Em Chamas”

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Uma fila enorme, adolescentes gritando e mães com caras cansadas. Essa era a atmosfera do cinema na estreia de Em Chamas, segundo filme da saga Jogos Vorazes, baseada nos livros de Suzanne Collins. 

Com o privilégio do lançamento exclusivo, o Brasil viu as bilheterias inflarem, lucrando aproximadamente 13 milhões de reais e alcançando 1 milhão de espectadores no primeiro fim de semana. 

Quem assistiu ao primeiro filme, viu que os Jogos Vorazes são uma competição promovida pela Capital da nação de Panem. Dois tributos de cada Distrito são escolhidos para lutar entre si em uma arena até que só um sobreviva e seja consagrado campeão.

A sequência segue Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) e Peeta Mellark (Josh Hutcherson), os tributos do Distrito 12, e vencedores da mais recente edição dos Jogos Vorazes. A dupla rompeu com as regras impostas pela competição, ao recusar ferir um ao outro, obrigando a Capital a declarar ambos campeões. Em Chamas mostra o casal durante a Turnê da Vitória ao redor de Panem.

É nessa Turnê, que Katniss se depara com mudança de atitude nos Distritos, e percebe que é a figura que inspirou a população a rebelar-se contra a opressão da Capital.

Ao ver a situação sair de seu controle, o Presidente Snow (Donald Sutherland), líder da Capital, a procura a fim de controlar as rebeliões. Vendo que o temperamento de Everdeen seria difícil de domar, Snow reúne-se com a organização dos Jogos e – em prol de eliminar a protagonista de seu caminho – declara que durante a edição especial da competição, denominada Massacre Quaternário, os tributos vencedores de edições passadas deverão encarar a arena mais uma vez.

Jennifer Lawrence interpreta com competência uma protagonista que rompe com os clichês da heroína cinematográfica. Uma líder nata, destemida e disposta a sacrificar-se para proteger a família. Em alguns momentos, Lawrence parece mesclar-se com Katniss, tamanha a precisão de seu trabalho. Ao seu lado está Josh Hutcherson, no papel de um mocinho aparentemente frágil, refém de um amor platônico nutrido pela parceira de arena, e projetado para fazer as meninas caírem de amores. Boom. Forma-se a combinação certeira para jogar o filme nas graças da plateia.

Com mais de duas horas de duração, o filme contou com a experiência da dupla de roteiristas Simon Beaufoy (“Quem Quer Ser um Milionário?” e “127 Horas”) e Michael Arndt (“Toy Story” e “Pequena Miss Sunshine”) para não perder o espectador em meio à chuva de detalhes. A fotografia, comandada por Jo Willems (“Sem Limites”), é outro ponto a ser ressaltado. O contraste entre os Distritos, que vivem em estado de miséria, e a Capital, regada pela luxúria, é dado através do paralelo entre tons de cinza e uma explosão de cores.

Em contramão, aqueles que não assistiram ao primeiro filme da saga estão impedidos de assistir à sequência, uma vez que são poucos os momentos em que esta retoma informações contidas no filme anterior.

Quem julga a trama como mais uma saga adolescente água com açúcar, acaba por surpreender-se com o resultado. Com um roteiro bem elaborado, o filme é capaz de trazer debates interessantes à mesa, como a manipulação cometida pelo governo, a glamourificação de realities shows e o conflito de ideais sofrido por aqueles que vivem sob os holofotes.

Confira também no Contracenarte.

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“Capitão Phillips”

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  • Ano de Lançamento: 2013
  • País: Estados Unidos
  • Língua: Inglês
  • Título Original: Captain Phillips 
  • Diretor: Paul Greengrass
  • Avaliação: Pega a estatueta!

Uma história baseada em fatos reais, contada em um navio. Essa combinação parece remeter diretamente a sucesso. Com Capitão Phillips não foi diferente.

Como já diria Fellini, “o cinema é um modo divino de contar a vida”. Tom Hanks, vencedor de dois Oscar, é o encarregado de trazer à tela a história real do Capitão Richard Phillips, que passou cinco dias refém de piratas somalis em 2009. 

A trama segue Phillips desde o momento em que este se despede de sua mulher no aeroporto e segue para Omã, onde embarca à bordo do Maersk Alabama, um cargueiro responsável por navegar próximo à costa africana a fim de levar mantimentos ao povo somali. Já em alto mar, o capitão recebe um email alertando sobre os perigos de pirataria que rondam a região. No comando de uma tripulação desconhecida, o líder busca modos de preparar seus homens para um possível ataque. 

A câmera instável, característica de Greengrass, segue os personagens durante os momentos de tensão que precedem o ataque pirata somali. O gigante cargueiro se mostra uma fortaleza frustrada ao ser invadido por quatro homens semi-raquíticos, mas, munidos de potentes armas de fogo. Os conflitos são constantes, com reviravoltas capazes de manter o espectador tenso durante todos 133 minutos da narrativa. As interseções, com planos amplos do mar, são impressionantes.

Todos os elementos que compõem o filme, funcionam. A opção do diretor de só apresentar o elenco somali ao elenco americano durante as gravações, agrava a sensação de estranhamento do encontro entre dois polos opostos durante uma situação crítica. Aliás, vale destacar a atuação de Barkhad Abdi, que incorpora Muse, o líder do grupo pirata. Durante alguns momentos, o vilão, que antes fora responsável por repudiar o público, torna-se vítima da realidade africana, responsável por tornar a pirataria a única opção dos jovens somalis.

Com um enredo americanizado, com ênfase na ação da força de operações especiais da Marinha dos Estados Unidos (SEAL), e onde Hanks – que apresenta uma atuação espetacular (com “E” maiúsculo) – faz de Phillips o retrato do herói americano contemporâneo, o filme é um dos fortes candidatos para o Oscar 2014. 

O Conselheiro do Crime

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  • Ano de Lançamento: 2013
  • País: Estados Unidos
  • Língua: Inglês
  • Título Original: The Counselor 
  • Diretor: Ridley Scott
  • Avaliação: A arbez

Com a assinatura do roteirista estreante e vencedor do Pulitzer, Cormac McCarthy, a direção de Ridley Scott e um elenco estelar, O Conselheiro do Crime estabeleceu altas expectativas ao entrar nas salas de cinema. 

A trama segue um advogado de sucesso (Michael Fassbender) que acabou de pedir sua namorada, Laura (Penélope Cruz), em casamento. Por mais que leve uma vida confortável, este se une ao amigo Reiner (Javier Bardem) e o caricato Westray (Brad Pitt), em um perigoso e milionário esquema de tráfico de drogas, em prol de financiar a nova vida de casado.

Tudo o que poderia dar errado no esquema, dá. O que antes parecia uma jogada inteligente acaba se revelando o pior pesadelo do advogado, que logo se vê preso no meio de um furacão envolvendo drogas, corrupção e traficantes de um ameaçador quartel mexicano. 

Apesar de todos os fatores de atração, o resultado não vinga. O filme falha em prender a atenção do espectador devido à linha contínua, sem grandes oscilações no roteiro e a previsibilidade do desfecho. Em certos pontos, não se sabe mais quem é quem e qual sua ligação com o protagonista e o enredo. 

Alguns pontos são excepcionais, como os excelentes diálogos, muitos deles por conta de Reiner e Westray, a atuação impecável de Cameron Diaz, na pele da ousada Malkina, a fotografia, comandada com maestria por Dariusz Wolski. As cenas rodadas no deserto são de tirar o fôlego. 

É interessante ver a desconstrução do personagem de Fassbender durante o desenrolar do filme. Aquele que antes vivia em um cenário de conforto financeiro e sucesso pessoal, é apresentado aos horrores do mundo paralelo das drogas. A violência, retratada com certa banalidade, é contraposta com a doçura do romance entre o advogado e sua noiva. A relação entre essas duas realidades que se cruzam compõe o final angustiante da trama. 

“Gravidade”

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Gravidade rompeu com todas as expectativas ingênuas que eu tinha antes de entrar na sala de cinema. O roteiro é simples: o que acontece a um grupo de astronautas quando uma tempestade de destroços atinge sua espaçonave. Mas, Alfonso Cuarón domina com maestria a direção e transforma a simplicidade em espetáculo. 

O filme conta a história da doutora Ryan Stone (Sandra Bullock), uma médica em luto pela perda da filha, e do astronauta Matt Kowalski (George Clooney), que estão em uma missão espacial para consertar o telescópio Hubble. Quando sua nave é atingida por uma chuva de destroços decorrente da destruição de um satélite russo ambos têm que procurar uma maneira de superar as adversidades encontradas no espaço.

Com a capacidade de levar o espectador do pavor à empatia em minutos, o filme é uma montanha-russa aos sentidos. Os efeitos especiais são impecáveis e o uso do 3-D é revolucionário ao fazer com que quem assiste tenha o ponto de vista da astronauta, incluindo o interior de seu capacete, e medidor de oxigênio. Tudo é tão realista que inclina o público ( e a imprensa) a pensar que o filme foi realmente filmado no espaço. 

A atuação de Bullock é impecável. Com o desafio de filmar em um ambiente onde supostamente não há gravidade, a atriz teve de re-educar suas ações e movimentos corporais, além de lidar com toda a carga emocional da personagem. Nas cenas em que Ryan fala da morte da filha, é como se por um momento o espaço fosse um item secundário à trama. 

Há de se reconhecer também o trabalho de Clooney, que traz à tona um personagem vivaz, que mantém a calma e o bom humor mesmo diante do cenário de caos vivido por ele e Stone. 

Uma das grandes apostas para o Oscar 2014, Gravidade é uma imersão fantástica que combina ficção e realidade, feita para criar receios àqueles que um dia sonharam em se tornar astronautas.